abe
aquele amigo ou parente chato, que está sempre
de cara feia, desanimado e descontente com tudo?
Pode ser que ele não seja assim tão
intolerável, mas que esteja doente e precise
de ajuda. Descobriu-se, há menos de 30 anos,
que o mau humor constante e excessivo é um
tipo de depressão, a distimia, doença
que necessita de tratamento médico.
As causas, segundo a psicóloga Ivonete Galli,
vão desde a predisposição genética
até ocorrências de forte impacto, como
perda de um ente querido, demissão ou separação.
Como toda depressão, a distimia é
uma doença de muitas caras, com reações
diferentes de pessoa para pessoa, pois o componente
químico cerebral interage com a personalidade
de cada um. Os sintomas são mais leves se
comparados aos de outros distúrbios, o que
não significa que o problema seja mais fácil
de tratar – às vezes, exige até
uma dosagem de medicação maior.
“A pessoa não vai ao fundo do poço,
mas fica o tempo todo mal-humorada e não
consegue ter alegria e entusiasmo pela vida. Não
fica incapacitada para exercer as atividades, porém
seu mundo é cinzento, sem muito colorido”,
explica a especialista em tratamento de depressão
que, além do consultório, presta atendimento
voluntário na Associação Sorocabana
de Transtornos de Humor (Astrahu) – instituição
sem fins lucrativos, fundada em agosto de 2000.
Um dos agravantes no combate a esse distúrbio,
a seu ver, é o fato de a depressão
ser pouco compreendida e aceita. Não há
ainda uma comprovação química
da doença, o que a torna muito desacreditada.
A distimia, então, é praticamente
desconhecida. Ele sempre foi assim ou Desde
pequeno ele é mal-humorado são
os comentários que se ouve. Ninguém
entende que o depressivo quer ser feliz, mas não
consegue, não tem forças para reagir.
Um dos agravantes no combate a esse distúrbio,
a seu ver, é o fato de a depressão
ser pouco compreendida e aceita. Não há
ainda uma comprovação química
da doença, o que a torna muito desacreditada.
A distimia, então, é praticamente
desconhecida. Ele sempre foi assim ou Desde
pequeno ele é mal-humorado são
os comentários que se ouve. Ninguém
entende que o depressivo quer ser feliz, mas não
consegue, não tem forças para reagir.
Com o intuito de tentar suprir essa carência,
a Astrahu oferece a socioterapia: reunião
semanal de pacientes e familiares, na qual eles
recebem orientação profissional e
trocam impressões e experiências relacionadas
ao problema. Na Associação, são
realizados ainda psicodramas, atendimentos individuais,
cursos de auto-estima e até práticas
como caminhadas, ginástica de
relaxamento e aulas de dança. “O
depressivo precisa de exercícios físicos
constantes e de ocupações prazerosas”,
ressalta Ivonete.
O autoconhecimento
através da arte

Atividades artísticas constituem um recurso
interessante no combate aos transtornos de depressão.
“A arte é extremamente terapêutica”,
avalia a arteterapeuta Myrian Romero. “Ela traz
o lúdico de volta para o mundo do adulto, o
que já cria uma leveza. Além disso,
por ser um meio de comunicação não
verbal, leva o indivíduo a expressar espontaneamente
e sem censura aquilo que tem dentro de si, seja positivo,
seja negativo. Os conteúdos internos emergem
de forma sutil e natural, permitindo que a pessoa
identifique seus anseios, medos, rancores e mágoas
e possa enfrentar essas questões de modo suave
e consistente.”
Desenhos, colagens, pinturas e esculturas são
alguns dos elementos utilizados na arteterapia,
que pode ser individual ou em grupo. É, acima
de tudo, um trabalho de autoconhecimento. Ao mesmo
tempo, desperta o espírito criativo dentro
de cada um, abrindo caminho para as transformações.
“Através do ‘fazer em arte’
você vai percebendo que pode criar e acaba
levando essa capacidade de construir coisas novas
para o seu dia-a-dia”, esclarece a especialista.
“A arte mostra que você sempre pode
mudar sua história. Não está
bom, está desconfortável? Não
espere que os outros mudem, mude você.”
“Tudo o que a gente não reconhece,
mas está reprimido dentro de nós pode
gerar depressão”, alerta Myrian. Seu
conselho é: “Preste atenção
no que está acontecendo com você. A
distimia começa a se manifestar com pequenas
irritações e intolerâncias e
vai aumentando, chegando ao ponto de inviabilizar
a convivência harmoniosa com o meio. Se está
muito difícil lidar com as situações
e com as pessoas, se você está tendo
insônia freqüentemente, se fala com os
outros de forma agressiva ou ríspida demais,
procure ajuda médica e busque alternativas
para descarregar um pouco dessa tensão e
dessa angústia.”
Aprenda
a rir, é um santo remédio
Quando o mau humor é a única resposta
para qualquer circunstância, boa ou ruim,
é hora de quebrar o padrão. A recomendação
é reiterada por Leila
Navarro, fisioterapeuta, conferencista
e autora dos livros Talento
para ser feliz,
Obrigado
equipe e
Super
você.
Baseada no trabalho de fisioterapia respiratória
e corporal que realizou durante vários anos,
ela percebeu que a evolução das doenças
depende do comportamento do paciente.
“A genética é como se fosse
nossa geografia, já vem determinada. Na nossa
história, entretanto, podemos interferir.
Podemos sempre buscar novas possibilidades e dar
uma virada, desde que tenhamos realmente vontade
de fazer isso”, afirma. “As pessoas
têm o poder de estimular o gen da depressão
– sentindo-se um ‘tadinho’, por
exemplo – ou de ativar o gen da ternura, descoberto
recentemente, com gestos e palavras de carinho.”
Engraçada e alegre por natureza, Leila ensina,
nas palestras que ministra, a terapia do riso. São
vários exercícios, como rir mexendo
o ombro ou massageando a outra pessoa, imitar ou
exagerar o riso etc. Tem um pouco de teatro, de
expressão corporal, de mímica, enfim,
uma série de técnicas que acabam liberando
a risada espontânea. “Quando você
dá gargalhadas, faz vibrar o diafragma que,
por sua vez, faz uma micromassagem em todos os órgãos
do corpo”, explica a fisioterapeuta. “Além
disso, a risada produz endorfina, substância
que causa uma sensação de bem-estar.”
“Eu provoco as pessoas para que elas consigam
soltar sua criança interior, brincar um pouco”,
conclui. “Mostro o quanto é importante
externar os sentimentos por meio da risada, do abraço,
do gemido – suspirar, bufar, tudo isso ajuda
a aliviar a tensão e até a oxigenar
o cérebro. O corpo humano é fantástico,
ele tem inteligência. Os adultos, infelizmente,
acabam se comprimindo, se encouraçando, e
deixam de expressar suas emoções.
Ao mesmo tempo, querem desesperadamente encontrar
a felicidade dentro de si. O primeiro passo, sem
dúvida, é retomar o contato com o
prazer.”