SETEMBRO  -  2003     Nº111
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Setembro 2003 - Nº 111

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abe aquele amigo ou parente chato, que está sempre de cara feia, desanimado e descontente com tudo? Pode ser que ele não seja assim tão intolerável, mas que esteja doente e precise de ajuda. Descobriu-se, há menos de 30 anos, que o mau humor constante e excessivo é um tipo de depressão, a distimia, doença que necessita de tratamento médico.

As causas, segundo a psicóloga Ivonete Galli, vão desde a predisposição genética até ocorrências de forte impacto, como perda de um ente querido, demissão ou separação. Como toda depressão, a distimia é uma doença de muitas caras, com reações diferentes de pessoa para pessoa, pois o componente químico cerebral interage com a personalidade de cada um. Os sintomas são mais leves se comparados aos de outros distúrbios, o que não significa que o problema seja mais fácil de tratar – às vezes, exige até uma dosagem de medicação maior.

“A pessoa não vai ao fundo do poço, mas fica o tempo todo mal-humorada e não consegue ter alegria e entusiasmo pela vida. Não fica incapacitada para exercer as atividades, porém seu mundo é cinzento, sem muito colorido”, explica a especialista em tratamento de depressão que, além do consultório, presta atendimento voluntário na Associação Sorocabana de Transtornos de Humor (Astrahu) – instituição sem fins lucrativos, fundada em agosto de 2000.

Um dos agravantes no combate a esse distúrbio, a seu ver, é o fato de a depressão ser pouco compreendida e aceita. Não há ainda uma comprovação química da doença, o que a torna muito desacreditada. A distimia, então, é praticamente desconhecida. Ele sempre foi assim ou Desde pequeno ele é mal-humorado são os comentários que se ouve. Ninguém entende que o depressivo quer ser feliz, mas não consegue, não tem forças para reagir.

Um dos agravantes no combate a esse distúrbio, a seu ver, é o fato de a depressão ser pouco compreendida e aceita. Não há ainda uma comprovação química da doença, o que a torna muito desacreditada. A distimia, então, é praticamente desconhecida. Ele sempre foi assim ou Desde pequeno ele é mal-humorado são os comentários que se ouve. Ninguém entende que o depressivo quer ser feliz, mas não consegue, não tem forças para reagir.

Com o intuito de tentar suprir essa carência, a Astrahu oferece a socioterapia: reunião semanal de pacientes e familiares, na qual eles recebem orientação profissional e trocam impressões e experiências relacionadas ao problema. Na Associação, são realizados ainda psicodramas, atendimentos individuais, cursos de auto-estima e até práticas como  caminhadas, ginástica  de relaxamento  e aulas de dança. “O depressivo precisa de exercícios físicos constantes e de ocupações prazerosas”, ressalta Ivonete.

O autoconhecimento através da arte

Atividades artísticas constituem um recurso interessante no combate aos transtornos de depressão. “A arte é extremamente terapêutica”, avalia a arteterapeuta Myrian Romero. “Ela traz o lúdico de volta para o mundo do adulto, o que já cria uma leveza. Além disso, por ser um meio de comunicação não verbal, leva o indivíduo a expressar espontaneamente e sem censura aquilo que tem dentro de si, seja positivo, seja negativo. Os conteúdos internos emergem de forma sutil e natural, permitindo que a pessoa identifique seus anseios, medos, rancores e mágoas e possa enfrentar essas questões de modo suave e consistente.”

Desenhos, colagens, pinturas e esculturas são alguns dos elementos utilizados na arteterapia, que pode ser individual ou em grupo. É, acima de tudo, um trabalho de autoconhecimento. Ao mesmo tempo, desperta o espírito criativo dentro de cada um, abrindo caminho para as transformações. “Através do ‘fazer em arte’ você vai percebendo que pode criar e acaba levando essa capacidade de construir coisas novas para o seu dia-a-dia”, esclarece a especialista. “A arte mostra que você sempre pode mudar sua história. Não está bom, está desconfortável? Não espere que os outros mudem, mude você.”

“Tudo o que a gente não reconhece, mas está reprimido dentro de nós pode gerar depressão”, alerta Myrian. Seu conselho é: “Preste atenção no que está acontecendo com você. A distimia começa a se manifestar com pequenas irritações e intolerâncias e vai aumentando, chegando ao ponto de inviabilizar a convivência harmoniosa com o meio. Se está muito difícil lidar com as situações e com as pessoas, se você está tendo insônia freqüentemente, se fala com os outros de forma agressiva ou ríspida demais, procure ajuda médica e busque alternativas para descarregar um pouco dessa tensão e dessa angústia.”

Aprenda a rir, é um santo remédio

Quando o mau humor é a única resposta para qualquer circunstância, boa ou ruim, é hora de quebrar o padrão. A recomendação é reiterada por Leila Navarro, fisioterapeuta, conferencista e autora dos livros Talento para ser feliz, Obrigado equipe e Super você. Baseada no trabalho de fisioterapia respiratória e corporal que realizou durante vários anos, ela percebeu que a evolução das doenças depende do comportamento do paciente.

“A genética é como se fosse nossa geografia, já vem determinada. Na nossa história, entretanto, podemos interferir. Podemos sempre buscar novas possibilidades e dar uma virada, desde que tenhamos realmente vontade de fazer isso”, afirma. “As pessoas têm o poder de estimular o gen da depressão – sentindo-se um ‘tadinho’, por exemplo – ou de ativar o gen da ternura, descoberto recentemente, com gestos e palavras de carinho.”

Engraçada e alegre por natureza, Leila ensina, nas palestras que ministra, a terapia do riso. São vários exercícios, como rir mexendo o ombro ou massageando a outra pessoa, imitar ou exagerar o riso etc. Tem um pouco de teatro, de expressão corporal, de mímica, enfim, uma série de técnicas que acabam liberando a risada espontânea. “Quando você dá gargalhadas, faz vibrar o diafragma que, por sua vez, faz uma micromassagem em todos os órgãos do corpo”, explica a fisioterapeuta. “Além disso, a risada produz endorfina, substância que causa uma sensação de bem-estar.”

“Eu provoco as pessoas para que elas consigam soltar sua criança interior, brincar um pouco”, conclui. “Mostro o quanto é importante externar os sentimentos por meio da risada, do abraço, do gemido – suspirar, bufar, tudo isso ajuda a aliviar a tensão e até a oxigenar o cérebro. O corpo humano é fantástico, ele tem inteligência. Os adultos, infelizmente, acabam se comprimindo, se encouraçando, e deixam de expressar suas emoções. Ao mesmo tempo, querem desesperadamente encontrar a felicidade dentro de si. O primeiro passo, sem dúvida, é retomar o contato com o prazer.”

PARA LER
 
Título Autor
Distimia Cordas, Nardi, Moreno e Castel
A mente vencendo o humor Greenberger e Padesky
Olhar acima do horizonte Luiz Alberto Py
Decifrar pessoas Dimitrius e Mazzarella
O paraíso fica perto Leo F. Buscaglia
Onde existe luz Paramahansa Yogananda
Tire vantagem da adversidade Gail Feldman
 
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