SETEMBRO  -  2003     Nº111
 VITRINE
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alvez a pergunta seja simplista demais, mas qual a razão de, no uso popular, as pessoas dizerem que assistiram o filme ou que gostam de assistir TV, por exemplo, em vez das formas consignadas nos dicionários, segundo as quais assistiram ao filme ou gostam de assistir à TV?

Como é sempre recomendável não apenas identificar as impropriedades no emprego do idioma, mas também explicar por que elas acontecem, pode-se dizer que, no caso, ocorreu uma contaminação do verbo assistir por outros de significado idêntico e regência diferente, como ver, presenciar, acompanhar ou observar.

Quando se fala em linguagem popular, porém, convém ressalvar que ela normalmente é considerada do ponto de vista da fala. E uma prova é o levantamento citado pela professora da Unesp Maria Helena de Moura Neves, no recém-lançado Guia de uso do português. Nesse excelente livro, a autora revela: o exame de 80 milhões de ocorrências do português escrito contemporâneo do Brasil mostra que, em apenas 20% dos casos, assistir apareceu sem a preposição a. E, entre os textos selecionados, estavam romances, discursos, relatórios técnico-científicos, textos jornalísticos e peças teatrais.

Em resumo: mesmo que habitualmente se adote assistir como verbo direto na fala comum (assistir o filme), o registro escrito ainda privilegia a regência formal (assistir ao filme).

Outro verbo no qual ocorre o cruzamento sintático (nome desse fenômeno gramatical, também denominado quiasma) é iniciar. Sua estrutura mais comum é: alguém inicia alguma coisa, alguém inicia outra pessoa em alguma coisa ou alguma coisa se inicia: Os funcionários iniciaram o trabalho. / O professor iniciou o filho em Matemática. / A festa iniciou-se com música. Por analogia clara com começar, ter início, iniciar terminou por tornar-se intransitivo (sem complemento) no último sentido, surgindo em muitos textos jornalísticos sem a obrigatória companhia do pronome se: O rodeio “inicia” (na verdade, inicia-se) amanhã. / Naquele momento uma nova tendência “iniciava” (se iniciava). / Ele “iniciou” (se iniciou) cedo na profissão.

Situado num campo semântico (ou de sentido) próximo, também inaugurar teve seu uso simplificado pela imprensa. Em rigor, alguém inaugura alguma coisa ou alguma coisa se inaugura: O prefeito inaugurou a ponte ontem. / O costureiro inaugurou a moda de roupas descartáveis. / A exposição inaugura-se domingo. A influência já citada de começar ou ter início resultou na dispensa do se (aliás, outra tendência atual no Brasil), sendo comum encontrar hoje frases como: A exposição “inaugura” (o certo: inaugura-se) segunda-feira. / O teatro “inaugurou” (inaugurou-se) com uma peça de Nelson Rodrigues.

Como cada verbo tem regime próprio, a analogia nem sempre serve de remédio: afinal, são muitas as contra-indicações.

Eduardo Martins é jornalista e autor dos livros Manual de redação e estilo, de
O Estado de S. Paulo, e
Com todas as letras – O português simplificado e
dos Resumões de Língua Portuguesa
 
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