
alvez
a pergunta seja simplista demais, mas
qual a razão de, no uso popular,
as pessoas dizerem que assistiram
o filme ou que gostam de assistir
TV, por exemplo, em vez das formas
consignadas nos dicionários,
segundo as quais assistiram ao
filme ou gostam de assistir
à TV?
Como é sempre recomendável
não apenas identificar as impropriedades
no emprego do idioma, mas também
explicar por que elas acontecem, pode-se
dizer que, no caso, ocorreu uma contaminação
do verbo assistir por
outros de significado idêntico
e regência diferente, como ver,
presenciar, acompanhar
ou observar.
Quando se fala em linguagem
popular, porém, convém
ressalvar que ela normalmente é
considerada do ponto de vista da
fala. E uma prova é
o levantamento citado pela professora
da Unesp Maria
Helena de Moura Neves,
no recém-lançado Guia
de uso do português.
Nesse excelente livro, a autora revela:
o exame de 80 milhões de ocorrências
do português escrito contemporâneo
do Brasil mostra que, em apenas 20%
dos casos, assistir
apareceu sem a preposição
a. E, entre os textos
selecionados, estavam romances, discursos,
relatórios técnico-científicos,
textos jornalísticos e peças
teatrais.
Em resumo: mesmo que habitualmente
se adote assistir como
verbo direto na fala comum (assistir
o filme), o registro escrito ainda
privilegia a regência formal (assistir
ao filme).
Outro verbo no qual ocorre
o cruzamento sintático (nome
desse fenômeno gramatical, também
denominado quiasma) é iniciar.
Sua estrutura mais comum é: alguém
inicia alguma coisa, alguém inicia
outra pessoa em alguma coisa ou alguma
coisa se inicia: Os
funcionários iniciaram o trabalho.
/ O professor iniciou o filho em
Matemática. / A festa
iniciou-se com música. Por
analogia clara com começar,
ter início, iniciar
terminou por tornar-se intransitivo
(sem complemento) no último sentido,
surgindo em muitos textos jornalísticos
sem a obrigatória companhia do
pronome se: O rodeio
“inicia” (na verdade,
inicia-se) amanhã.
/ Naquele momento uma nova tendência
“iniciava” (se
iniciava). / Ele “iniciou”
(se iniciou) cedo na profissão.
Situado num campo semântico
(ou de sentido) próximo, também
inaugurar teve seu
uso simplificado pela imprensa. Em rigor,
alguém inaugura alguma coisa
ou alguma coisa se inaugura: O prefeito
inaugurou a ponte ontem. / O costureiro
inaugurou a moda de roupas descartáveis.
/ A exposição inaugura-se
domingo. A influência já
citada de começar ou
ter início resultou
na dispensa do se (aliás,
outra tendência atual no Brasil),
sendo comum encontrar hoje frases como:
A exposição “inaugura”
(o certo: inaugura-se) segunda-feira.
/ O teatro “inaugurou”
(inaugurou-se) com uma
peça de Nelson Rodrigues.
Como cada verbo tem regime
próprio, a analogia nem sempre
serve de remédio: afinal, são
muitas as contra-indicações.