SETEMBRO  -  2003     Nº111
 VITRINE
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om uma sensibilidade extremamente aguçada, ele conseguiu transpor para as telas a dura realidade social brasileira. Natural de Buenos Aires e criado em Mar del Plata, Hector Babenco deixou sua terra natal aos 17 anos para escapar do serviço militar – “naquela época, os judeus eram muito discriminados no exército”, afirma. Após cinco anos viajando pelo mundo, escolheu a cidade de São Paulo para morar, e o Brasil acabou ganhando um grande cineasta.

“Eu não conhecia nada de cinema, mas tinha uma vontade enorme de ser diretor”, confessa o autodidata Babenco. “Queria fazer parte do cinema brasileiro, que tanto admirava, influenciar na cultura do país. Acho que cumpri esse intuito, consegui desenvolver um trabalho autoral engajado e reflexivo. Consegui também me preservar das tentações e obrigações mercadológicas, mantendo-me fiel ao que considero importante.”

Seu primeiro longa-metragem, em 75, já sinalizou uma carreira bem-sucedida: O rei da noite, com Marília Pêra e Paulo José, rendeu o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília. A denúncia social apareceu logo em seguida, de maneira vigorosa, quando o cineasta transformou o livro Lúcio Flávio – O passageiro da agonia, de José Louzeiro, num grande sucesso de bilheteria. “Abordar o esquadrão da morte foi o caminho que encontrei para manifestar minha perplexidade perante algumas situações que me incomodavam muito”, comenta. “Na época, inclusive, me naturalizei brasileiro, pois não podia falar de um aspecto tão sórdido e cruel da realidade nacional como turista.”

Seguindo essa linha, Babenco enfocou ainda a triste condição do menor abandonado em Pixote, um filme polêmico, que enfrentou diversos problemas com a censura e com o juizado de menores e que acabou se tornando o mais premiado do cinema brasileiro. A excelente repercussão desses trabalhos, segundo ele revela, consolidou sua auto-estima e lhe deu segurança para dirigir outras produções significativas: O beijo da mulher aranha, Ironweed e Brincando nos campos do senhor.

Em meio a essa escalada, um câncer linfático quase colocou um ponto final na carreira do admirável cineasta. Foram oito anos vivendo como paciente, incluindo um transplante de medula nos Estados Unidos e um longo período de convalescença. Nessa época, ele voltou à Argentina e, num resgate do passado, fez o autobiográfico Coração iluminado. “Pensei que jamais teria saúde para continuar trabalhando”, admite. “Mas esse filme me deu forças para recuperar as energias e me concentrar em um novo projeto.”

Dessa experiência tão difícil, nasceu a inspiração para uma de suas mais brilhantes criações, a filmagem de Carandiru. Cliente do oncologista Drauzio Varella, Babenco identificou-se de imediato com o livro que o médico havia escrito sobre o tema e resolveu adaptar o texto para as telas, retratando de maneira impressionante a luta diária dos presidiários pela sobrevivência. “Foi um trabalho hercúleo, complexo, logisticamente difícil de ser executado”, ressalta. “Não tinha um personagem principal, mas centenas e centenas de figurantes na tela durante 80% do tempo.” O esforço foi recompensado: depois do estrondoso sucesso de público no Brasil, o filme vai ser exibido em vários outros países, ampliando ainda mais as fronteiras do cinema nacional.

Quando termina uma produção, Babenco costuma dar um tempo para descansar, fumar tranqüilamente seu charuto e refletir sobre suas realizações. “É uma espécie de pós-parto”, comenta. “Você precisa pensar no filho que fez, no espaço que ocupou, e aí então partir para um novo projeto. Fazer um filme é complicado, demanda muito tempo. Desde a execução do roteiro até a obtenção dos recursos, os processos são lentos, principalmente no Brasil, onde não há um modelo de produção sedimentado. Para cada filme, você tem de matar um leão.”

O cineasta acredita que a situação do cinema nacional começou a mudar recentemente, com os longas Deus é brasileiro, Cidade de Deus, O invasor e Carandiru. “O cinema brasileiro passou a ocupar espaço, mostrando que existe também do ponto de vista mercadológico e não apenas cultural. Ele está sendo mais prestigiado não apenas dentro do próprio país – nos últimos 12 meses, 12% do público que foi ao cinema assistiu a um filme brasileiro – como também no exterior. É uma grande conquista!”

A leitura ocupa um lugar de destaque na vida de Babenco. “Cresci lendo”, enfatiza. “Acho que por isso tenho um vínculo muito forte com a palavra.” Os ensaios constituem o gênero predileto do diretor, fã declarado das obras de Henri Miller, Sam Sheppard, Paul Auster e do argentino Juan Jose Sauer. Sempre que pode, ele vai à Livraria Cultura. "Ela nos orgulha”, enfatiza. “Lembra as grandes livrarias de Buenos Aires da década de 60, o que me atrai bastante. Tenho imenso carinho pela Livraria Cultura e admiração pela presença marcante que a empresa tem no mercado. Cada vez que uma nova loja é aberta, fico mais feliz ainda, por ver que a área literária está prosperando.”

 
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