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uma sensibilidade extremamente aguçada,
ele conseguiu transpor para as telas a dura realidade
social brasileira. Natural de Buenos Aires e criado
em Mar del Plata, Hector Babenco deixou sua terra
natal aos 17 anos para escapar do serviço
militar – “naquela época, os
judeus eram muito discriminados no exército”,
afirma. Após cinco anos viajando pelo mundo,
escolheu a cidade de São Paulo para morar,
e o Brasil acabou ganhando um grande cineasta.
“Eu não conhecia
nada de cinema, mas tinha uma vontade enorme de
ser diretor”, confessa o autodidata Babenco.
“Queria fazer parte do cinema brasileiro,
que tanto admirava, influenciar na cultura do
país. Acho que cumpri esse intuito, consegui
desenvolver um trabalho autoral engajado e reflexivo.
Consegui também me preservar das tentações
e obrigações mercadológicas,
mantendo-me fiel ao que considero importante.”
Seu primeiro longa-metragem,
em 75, já sinalizou uma carreira bem-sucedida:
O rei da noite, com Marília
Pêra e Paulo
José, rendeu o prêmio
de melhor ator no Festival de Brasília.
A denúncia social apareceu logo em seguida,
de maneira vigorosa, quando o cineasta transformou
o livro Lúcio Flávio
– O passageiro da agonia,
de José
Louzeiro, num grande sucesso
de bilheteria. “Abordar o esquadrão
da morte foi o caminho que encontrei para manifestar
minha perplexidade perante algumas situações
que me incomodavam muito”, comenta. “Na
época, inclusive, me naturalizei brasileiro,
pois não podia falar de um aspecto tão
sórdido e cruel da realidade nacional como
turista.”
Seguindo essa linha, Babenco
enfocou ainda a triste condição
do menor abandonado em Pixote, um filme
polêmico, que enfrentou diversos problemas
com a censura e com o juizado de menores e que
acabou se tornando o mais premiado do cinema brasileiro.
A excelente repercussão desses trabalhos,
segundo ele revela, consolidou sua auto-estima
e lhe deu segurança para dirigir outras
produções significativas: O
beijo da mulher aranha, Ironweed
e Brincando nos campos do senhor.
Em meio a essa escalada, um câncer
linfático quase colocou um ponto final
na carreira do admirável cineasta. Foram
oito anos vivendo como paciente, incluindo um
transplante de medula nos Estados Unidos e um
longo período de convalescença.
Nessa época, ele voltou à Argentina
e, num resgate do passado, fez o autobiográfico
Coração iluminado. “Pensei
que jamais teria saúde para continuar trabalhando”,
admite. “Mas esse filme me deu forças
para recuperar as energias e me concentrar em
um novo projeto.”
Dessa experiência tão
difícil, nasceu a inspiração
para uma de suas mais brilhantes criações,
a filmagem de Carandiru. Cliente do oncologista
Drauzio
Varella, Babenco identificou-se
de imediato com o livro que o médico havia
escrito sobre o tema e resolveu adaptar o texto
para as telas, retratando de maneira impressionante
a luta diária dos presidiários pela
sobrevivência. “Foi um trabalho hercúleo,
complexo, logisticamente difícil de ser
executado”, ressalta. “Não
tinha um personagem principal, mas centenas e
centenas de figurantes na tela durante 80% do
tempo.” O esforço foi recompensado:
depois do estrondoso sucesso de público
no Brasil, o filme vai ser exibido em vários
outros países, ampliando ainda mais as
fronteiras do cinema nacional.
Quando termina uma produção,
Babenco costuma dar um tempo para descansar, fumar
tranqüilamente seu charuto e refletir sobre
suas realizações. “É
uma espécie de pós-parto”,
comenta. “Você precisa pensar no filho
que fez, no espaço que ocupou, e aí
então partir para um novo projeto. Fazer
um filme é complicado, demanda muito tempo.
Desde a execução do roteiro até
a obtenção dos recursos, os processos
são lentos, principalmente no Brasil, onde
não há um modelo de produção
sedimentado. Para cada filme, você tem de
matar um leão.”
O cineasta acredita que a situação
do cinema nacional começou a mudar recentemente,
com os longas Deus é brasileiro,
Cidade de Deus, O
invasor e Carandiru.
“O cinema brasileiro passou a ocupar espaço,
mostrando que existe também do ponto de
vista mercadológico e não apenas
cultural. Ele está sendo mais prestigiado
não apenas dentro do próprio país
– nos últimos 12 meses, 12% do público
que foi ao cinema assistiu a um filme brasileiro
– como também no exterior. É
uma grande conquista!”
A leitura ocupa um lugar de destaque
na vida de Babenco. “Cresci lendo”,
enfatiza. “Acho que por isso tenho um vínculo
muito forte com a palavra.” Os ensaios constituem
o gênero predileto do diretor, fã
declarado das obras de Henri Miller,
Sam Sheppard, Paul Auster e
do argentino Juan Jose Sauer. Sempre
que pode, ele vai à
Livraria
Cultura. "Ela
nos orgulha”, enfatiza. “Lembra as
grandes livrarias de Buenos Aires da década
de 60, o que me atrai bastante. Tenho imenso carinho
pela Livraria
Cultura e admiração
pela presença marcante que a empresa tem
no mercado. Cada vez que uma nova loja é
aberta, fico mais feliz ainda, por ver que a área
literária está prosperando.”
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