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não tínhamos livros em casa/ E
a cidade não tinha livraria/ Mas os livros
que em nossa vida entraram/ São como
a radiação de um corpo negro/
Apontando pra a expansão do Universo/
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)/ É
o que pode lançar mundos no mundo.
A jornalista Rosana
Hermann cita os versos
de Caetano Veloso, na música Livros,
para exprimir o significado da literatura. “Quando
leio um texto muito bom, preciosamente elaborado,
chego a sofrer”, observa. “O livro
é diferente de todas as outras mídias
e formas de entretenimento ou absorção
de conhecimento. Ao contrário dos meios
eletrônicos contemporâneos, que
convidam o espectador a ficar passivo, ele demanda
uma atitude ativa, que requer atenção
e concentração. É através
da decodificação do texto que
as emoções, sensações,
informações são produzidas
no leitor. A leitura é uma relação
a dois, autor e leitor, e, como toda relação
interpessoal, oferece uma possibilidade de crescimento
única.”
Bacharel em Física pela USP, com mestrado
em Física Nuclear, Rosana diz que sempre
teve vocação para a comunicação,
área em que atua há 23 anos. Trabalhou
em várias emissoras de televisão,
como roteirista de humor, de programas educativos,
de ficção e de shows, tendo sido
ainda diretora, apresentadora e repórter.
Atualmente, é sócia-diretora da
agência de comunicação Synapsys,
que criou e produz o programa Tudo Avon
na Rede TV. Tem dois livros publicados: Tudo
o que a grande mente capta,
em co-autoria com o psiquiatra Isaac
Efraim, uma pequena cartilha
bem-humorada sobre o funcionamento da mente
humana, e Maturidade
revista,
no qual coordenou depoimentos de mulheres sobre
a maturidade feminina.
Para selecionar e sugerir algumas entre as
tantas leituras que a absorveram no decorrer
dos anos, a jornalista ‘conversou’
antes com os volumes de sua biblioteca pessoal.
“São meus livros, fazem parte da
minha história de vida”, comenta.
“Eles também falam comigo. É
uma relação a dois, como eu mencionei,
e de mão dupla, pois os livros também
escrevem nossa história, cada um em um
determinado contexto de nossa formação
pessoal, profissional ou amorosa. Ao escolher
os títulos, fui passeando pelas estantes
e deixando que viessem a mim. Estes são
os dez primeiros que se atiraram em meus braços:
» Blow-Up
e outras histórias,
de Julio
Cortázar. Foi baseado
no conto Blow-UP, de Cortázar,
que Antonioni
fez o filme homônimo. Seus textos, misteriosos
e inquietantes, provocam uma tensão que
nem sempre se resolve com o fim da história,
como no conto A casa tomada.
» O
Tao da Física,
de Fritjof
Capra. Quando este renomado
físico austríaco lançou
seu 'paralelo entre a física moderna
e o misticismo oriental', considerando a ciência
e o misticismo como manifestações
complementares da mente humana, foi um acontecimento
para a comunidade científica.
» Cem
anos de solidão,
de Gabriel
García Márquez.
Gabo, como é conhecido este autor colombiano,
é um mestre. Não apenas seu texto
é impactante, mas sua inventividade.
Este clássico da literatura latino-americana
é um expoente do realismo mágico.
» O
nome da rosa,
de Umberto
Eco. Além de ser
uma leitura deliciosa, este romance de estréia
do crítico, ensaísta, semiólogo,
teórico da comunicação,
o italiano Umberto
Eco, é a prova de
que a amplitude de conhecimento pessoal de um
autor talentoso é diretamente proporcional
à riqueza do texto que ele produz.
» Maiakóvski-Poemas,
de Vladimir
Maiakóvski. Este
livro foi poeticamente revolucionário
em minha vida, como bem cabe ao maior poeta
russo contemporâneo. Foi Maiakóvski
que me ensinou as dimensões épica
e lírica da poesia.
» ABC
da literatura,
de Ezra
Pound. Seria injusto passar
a impressão de que este é um livro
didático, embora o seja. A linguagem
e o conteúdo fazem dele uma obra literária.
Foi neste livro que sedimentei o conceito de
que artistas são antenas.
» O
livro de areia,
de Jorge
Luis Borges. Apaixonado
por livros, Borges
via o universo como uma biblioteca e o homem,
como um bibliotecário que encontrava
nos textos as explicações para
sua existência, suas frustrações,
seus desejos. O
livro de areia,
de contos, pode ser uma porta de entrada para
qualquer outra de suas obras.
» O
falcão maltês,
de Dashiell
Hammett. Segundo Ruy
Castro, Hammett
é o pai do detetive moderno. Paternidade
comprovada em seu DNA, pois o próprio
Dashiell
foi detetive particular. Este é um romance
gostoso, de leitura fácil, que não
exige nenhum pré-requisito para ser compreendido.
» O
anjo pornográfico,
de Ruy
Castro. Adoro o texto de
Ruy
Castro, chega a doer de
tão bom. Às vezes, sou obrigada
a parar a leitura para me recuperar dos seus
golpes de genialidade. Esta biografia de Nelson
Rodrigues é um daqueles
livros que, ao terminar, deixa um vazio e a
impressão de que nunca mais leremos nada
que nos satisfaça. Mentira. Sempre tem
mais Ruy
Castro pra ler.
» A
cabala da inveja,
de Nilton
Bonder. A trilogia completa
inclui também A
cabala da comida
e A
cabala do dinheiro.
Para transmitir ensinamentos milenares da cultura
judaica, o rabino e escritor inspirou-se num
ditado judaico que diz: "De três
maneiras conhecemos uma pessoa: pelo seu copo,
seu bolso e sua ira".