SETEMBRO  -  2003     Nº111
 VITRINE
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uase não tínhamos livros em casa/ E a cidade não tinha livraria/ Mas os livros que em nossa vida entraram/ São como a radiação de um corpo negro/ Apontando pra a expansão do Universo/ Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/ (E, sem dúvida, sobretudo o verso)/ É o que pode lançar mundos no mundo.

A jornalista Rosana Hermann cita os versos de Caetano Veloso, na música Livros, para exprimir o significado da literatura. “Quando leio um texto muito bom, preciosamente elaborado, chego a sofrer”, observa. “O livro é diferente de todas as outras mídias e formas de entretenimento ou absorção de conhecimento. Ao contrário dos meios eletrônicos contemporâneos, que convidam o espectador a ficar passivo, ele demanda uma atitude ativa, que requer atenção e concentração. É através da decodificação do texto que as emoções, sensações, informações são produzidas no leitor. A leitura é uma relação a dois, autor e leitor, e, como toda relação interpessoal, oferece uma possibilidade de crescimento única.”

Bacharel em Física pela USP, com mestrado em Física Nuclear, Rosana diz que sempre teve vocação para a comunicação, área em que atua há 23 anos. Trabalhou em várias emissoras de televisão, como roteirista de humor, de programas educativos, de ficção e de shows, tendo sido ainda diretora, apresentadora e repórter. Atualmente, é sócia-diretora da agência de comunicação Synapsys, que criou e produz o programa Tudo Avon na Rede TV. Tem dois livros publicados: Tudo o que a grande mente capta, em co-autoria com o psiquiatra Isaac Efraim, uma pequena cartilha bem-humorada sobre o funcionamento da mente humana, e Maturidade revista, no qual coordenou depoimentos de mulheres sobre a maturidade feminina.

Para selecionar e sugerir algumas entre as tantas leituras que a absorveram no decorrer dos anos, a jornalista ‘conversou’ antes com os volumes de sua biblioteca pessoal. “São meus livros, fazem parte da minha história de vida”, comenta. “Eles também falam comigo. É uma relação a dois, como eu mencionei, e de mão dupla, pois os livros também escrevem nossa história, cada um em um determinado contexto de nossa formação pessoal, profissional ou amorosa. Ao escolher os títulos, fui passeando pelas estantes e deixando que viessem a mim. Estes são os dez primeiros que se atiraram em meus braços:

» Blow-Up e outras histórias, de Julio Cortázar. Foi baseado no conto Blow-UP, de Cortázar, que Antonioni fez o filme homônimo. Seus textos, misteriosos e inquietantes, provocam uma tensão que nem sempre se resolve com o fim da história, como no conto A casa tomada.

» O Tao da Física, de Fritjof Capra. Quando este renomado físico austríaco lançou seu 'paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental', considerando a ciência e o misticismo como manifestações complementares da mente humana, foi um acontecimento para a comunidade científica.

» Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Gabo, como é conhecido este autor colombiano, é um mestre. Não apenas seu texto é impactante, mas sua inventividade. Este clássico da literatura latino-americana é um expoente do realismo mágico.

» O nome da rosa, de Umberto Eco. Além de ser uma leitura deliciosa, este romance de estréia do crítico, ensaísta, semiólogo, teórico da comunicação, o italiano Umberto Eco, é a prova de que a amplitude de conhecimento pessoal de um autor talentoso é diretamente proporcional à riqueza do texto que ele produz.

» Maiakóvski-Poemas, de Vladimir Maiakóvski. Este livro foi poeticamente revolucionário em minha vida, como bem cabe ao maior poeta russo contemporâneo. Foi Maiakóvski que me ensinou as dimensões épica e lírica da poesia.

» ABC da literatura, de Ezra Pound. Seria injusto passar a impressão de que este é um livro didático, embora o seja. A linguagem e o conteúdo fazem dele uma obra literária. Foi neste livro que sedimentei o conceito de que artistas são antenas.

» O livro de areia, de Jorge Luis Borges. Apaixonado por livros, Borges via o universo como uma biblioteca e o homem, como um bibliotecário que encontrava nos textos as explicações para sua existência, suas frustrações, seus desejos. O livro de areia, de contos, pode ser uma porta de entrada para qualquer outra de suas obras.

» O falcão maltês, de Dashiell Hammett. Segundo Ruy Castro, Hammett é o pai do detetive moderno. Paternidade comprovada em seu DNA, pois o próprio Dashiell foi detetive particular. Este é um romance gostoso, de leitura fácil, que não exige nenhum pré-requisito para ser compreendido.

» O anjo pornográfico, de Ruy Castro. Adoro o texto de Ruy Castro, chega a doer de tão bom. Às vezes, sou obrigada a parar a leitura para me recuperar dos seus golpes de genialidade. Esta biografia de Nelson Rodrigues é um daqueles livros que, ao terminar, deixa um vazio e a impressão de que nunca mais leremos nada que nos satisfaça. Mentira. Sempre tem mais Ruy Castro pra ler.

» A cabala da inveja, de Nilton Bonder. A trilogia completa inclui também A cabala da comida e A cabala do dinheiro. Para transmitir ensinamentos milenares da cultura judaica, o rabino e escritor inspirou-se num ditado judaico que diz: "De três maneiras conhecemos uma pessoa: pelo seu copo, seu bolso e sua ira".

 
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