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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
20ª Edição
- 2009
588 pág.
'Abusado', livro-reportagem de Caco Barcellos, é uma verdadeira lição sobre a lógica, os meandros e o ''modus operandi'' das grandes corporações criminosas que comandam o tráfico de drogas e outras atividades criminosas no Estado. Através da história de Juliano VP (codinome de um conhecido traficante carioca) - sua infância, adolescência, entrada e ascensão no tráfico de drogas na favela Santa Marta (em Botafogo, bairro de classe média) -, temos um retrato histórico da ocupação do morro pelo Comando Vermelho, principal facção criminosa no Estado, e da implantação de sua cruel disciplina. Mas não é apenas um livro sobre a história do tráfico. Juliano é um personagem extremamente fascinante, um criminoso com refinado gosto literário, preocupado com o destino da comunidade favelada do Rio de Janeiro e cujos contatos iam dos violentos chefes do CV até importantes intelectuais cariocas.
Opinião do Leitor:
Ricardo / Data: 23/1/2009 Conceito do leitor: | (opine)
Impecável, envolvente, fascinante!
Também triste. Caco Barcelos nos convida a conhecer um mundo que está ao nosso lado e que nos lembramos dele apenas nos breves relatos dos noticiários policiais. Triste por ser verdadeiro! A maneira como o autor relata a história do dono do Morro Dona Marta permite ao leitor refletir sobre as ambigüidades éticas, morais e sociais de toda a nossa sociedade. É um livro escrito com com uma perfeição sem igual que faz com que mais de 500 páginas passem como um filme, um filme de uma história real. Parabenizo este trabalho audacioso deste consagrado jornalista. Um livro que recomendo para todos os cidadãos deste país, em especial aos o comandam!
ailton / Data: 23/2/2008 Conceito do leitor: | (opine)
Surpreendente
Apesar de todo jornalista ser prolixo, ainda mais se tratando de biografias, este livro chega até ser surpeendente e assustador. Nunca a história da violência foi tão escancarada, e uma revelação: ela é ciclica, não tem fim. É um livro que todos deveriam ler.
karla gode / Data: 5/1/2008 Conceito do leitor: | (opine)
sensacional!!!!
deliciosamente triste,dúbio...vc não lê,desliza nas palavras reais e sensíveis de cacco.perfeição!
Gazeta Mercantil /
Data: 26/9/2003 Reportagem de grosso calibre
O Jornalista Caco Barcellos revê seu "Abusado" e inclui a morte de Marcinho VP
José Antônio Severo
São Paulo, 26 de Setembro de 2003 - O brutal assassinato de Marcinho VP há semanas na penitenciária de Bangu, no Rio, abre um desafio a um dos mais bem sucedidos "best sellers" atualmente nas livrarias em todo o País: o livro de Caco BarcellosAbusado, que tem sua quarta edição recém-lançada pela Record, já anotando esse fato que põe em xeque a carreira do livro.
VP, que foi um dos principais líderes do Comando Vermelho no Rio, "dono" do Morro Dona Marta, era o verdadeiro Juliano VP, protagonista do thriller jornalístico, que foi executado na prisão e humilhantemente "sepultado" numa lata de lixo, junto com seus livros, uma prova absoluta de sua excomunhão pela irmandade criminosa. Com isto, se esvai de início aquela secreta esperança do leitor que acompanha sua vida ao longo do livro e, no final, sempre ficava com a expectativa (ou esperança) de que Juliano VP, uma vez mais, reaparecesse no alto do morro, cuspindo fogo de sua Jovelina (Pérola Negra), o fuzil-metralhadora russo AK-47 com que impunha respeito e, ou morte, a seus inimigos nas constantes guerras da favela Dona Marta.
Como livro jornalístico, é um trabalho impecável do mesmo calibre, pela precisão das informações e respeito ao leitor, das Ditaduras de Élio Gaspari. Como reportagem, é uma obra que valoriza a mídia livro para este tipo de abordagem, o que se acabou no Brasil quando houve a descaracterização da revista "Realidade", cuja fórmula ficou inviabilizada pela censura nos primeiros meses de 1970.
Daí para a frente o que se poderia dizer sobre o conteúdo do livro de Caco Barcellos é tanto, que daria outro livro, só para ampliar em detalhes todas as portas, becos e ruas que ele abre para a informação sobre o submundo do Rio de Janeiro, mas que é uma sociologia que vale para toda a periferia urbana brasileira. Cada ponto do livro dá um ensaio. Isto reforça a opinião de que a tão alarmada questão da "violência", item número um da preocupação e do medo da classe média e dos ricos, não terá solução enquanto não se conhecer a fundo essa sociedade subterrânea que convive lado a lado e, no Rio, mais ainda, entremeada com a civilização dita "branca", desenvolvida em cima dos valores ocidentais. O sistemão todo (incluindo a mídia) não consegue ver, não tem penetração para se informar, enfim, não sabe nada do que está acontecendo nas favelas. E aí vemos essas declarações e ações patéticas de governantes sem que nada de novo aconteça. O livro de Caco abre uma porta para se ver lá dentro. É preciso que outros entrem, o que requer talento e coragem (Tim Lopes que o diga), mas não só da mídia. Pois a saída será trazer o submundo para a civilização e fixá-lo sob a lei e o Estado.
A história política começa quando, logo no início do livro, há uma verdadeira revolução no Dona Marta. Duas quadrilhas de assaltantes combinadas atacam e exterminam a família de traficantes que dominava o Dona Marta. Isto rompeu todos os códigos, pois os bandidos convivem na favela, mas cada especialidade no seu espaço. O tráfico é a elite da bandidagem, que neste caso foi defenestrada por uma "classe" inferior. Os assaltantes faziam parte da "etnia" nordestina, que era oprimida pela "nobreza" carioca, submetidos a todo o tipo de opressão e discriminação.
Os Lino, a última família de traficantes oriundos dos fundadores das favelas (que foram escravos libertos, principalmente), perdem e os nordestinos emergem assumindo o poder. E onde estão os descendentes dos antigos moradores? Eles não aparecem no livro, pois já se foram da favela, com certeza. Há só um único remanescente, Seu Tinta, considerado do morro, mas já está muito velho e tem um pequeno papel quando protege Juliano VP numa de suas fugas.
Os nordestinos Zaca e Cabeleira, no carnaval de 1986, assumiram o poder na favela Dona Marta, o que vem a ser tomar à bala o tráfico de drogas. Com eles subiu o Comando Vermelho, uma organização operacional e politicamente mais avançada que o sistema antigo, ainda dominado pelos antigos bicheiros. Os soldados são nordestinos de primeira geração, como Juliano VP, filho de um birosqueiro, Seu Romeu, a elite econômica (fora do crime) no morro. Eles traziam melhor escolarização que a "etnia" banida. Muitos fizeram serviço militar, aprendendo, no Exército (normalmente nos quartéis da Urca), a usar e fazer manutenção de armas automáticas, o que facilitou o upgrade bélico dos traficantes.
O que ficou do favelismo original e ainda se mantém como um dos mais fortes traços culturais é a estrutura do quilombo. Esse traço compõe a cultura do favelado contemporâneo, e não se perdeu. Mas os nordestinos implantaram, também, uma nova cultura. Uma das grandes mudanças: morreu o samba e os novos "donos" promoveram o forró e, já na seqüência, o funk. Essas festas foram os grandes eventos para a difusão das drogas entre a juventude, especialmente do pó. A demanda cresceu vertiginosamente, enriquecendo os traficantes.
A polícia opera nos limites do quilombo, como elemento de contenção, simplesmente, como se vê no livro. Não faz parte, ela é do mundo do asfalto, como os favelados chamam a cidade que cerca o quilombo. Ao contrário do que se diz ou que se vê em declarações, segundo Caco, não faltam à polícia nem coragem nem poderio para entrar no morro. Sempre leva de vencida, mas quando passa, ainda antes de sair da favela, a normalidade já se restabelece às suas costas. Não há como impor a ordem institucional nos morros, porque suas instituições são totalmente assimétricas. Por isto que não é um estado dentro do estado. São dois planetas. Também não é questão de riqueza nem de pobreza, é muito mais profundo. É uma cidade partida, como diz outro grande autor nesse ramo, Zuenir Ventura.
O livro está, portanto, diante de um desafio. Como obra jornalística, evidentemente, ele não corre nenhum perigo. Seus conteúdos político, sociológico, etc. abrem uma avenida. Além disso, é um roteiro vibrante, um best seller para todo o público, onde se encontra aventura, poesia e horror, uma gama de personagens fascinantes, riquíssimos, com força para prender o leitor da primeira à última página, sem largar, sem analisar, só envolvido pela trama que é conduzida por seu protagonista fascinante. Aí sim, sabendo-se do fim, que Juliano morreu, ele perde um pouco para o realismo e terá que se manter pelo vigor próprio da literatura de Caco Barcellos. O autor deixa transparecer com grande humildade seu trabalho de repórter. Rende homenagem a dois grandes repórteres-escritores que o precederam, criando a linguagem e a abordagem para a cidade do asfalto ver o morro: Octávio Ribeiro, com seu Barra Pesada, e João Antônio, com Malagueta Perus e Bacanaço, duas obras que aparecem no contexto. Ele não se coloca acima de outros que andaram nesse caminho, como Paulo Lins, Zuenir Ventura, Myltainho Severiano da Silva, Carlos Amorim, só para citar alguns dos que ele dá crédito, citando-os na bibliografia. Caco não é maior que nenhum deles, mas, neste momento, com seu Abusado, ele fica, como dizia Bernard Shaw, explicando essa situação, em posição de quem "está de pé sobre os ombros deles".
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