A Melhoramentos lança O ABZ do Ziraldo, compilação de historinhas que apresenta as letras do alfabeto como seres vivos.
Doris Miranda
Quando está começando a ler, todo menino pequeno gosta de inventar historinhas para entender melhor como funciona o alfabeto. É um B que vira um menino barrigudinho, um X que é um H com um cinto apertadinho, um S que se apresenta como uma cobrinha...
Ziraldo, um mestre na arte de contar histórias para crianças, resolveu facilitar a vida dos pequenos. Escreveu e ilustrou 26 livrinhos para apresentar as letras, que passaram a se movimentar como se fossem seres vivos, cheios de vontades próprias, de tristezas e alegrias. Agora os leitores mirins (e grandões também) podem ler tudo de uma vez só com
O ABZ do Ziraldo, uma compilação luxuosa da Melhoramentos, que reúne todos esses volumes num só.
Ao contrário do que se pensa, não se trata de livro para alfabetizar crianças. Até tem o caráter pedagógico - afinal, introduz o mundo das letras no imaginário infantil -, mas Ziraldo optou por fazer literatura infantil de primeira, que de cunho didático só mesmo as fartas demonstrações dos diversos estilos de texto: prosa, poesia, verso, descrição, narrativa e até história em quadrinhos. Com tanta diversidade assim, ele não poderia deixar de privilegiar as imagens. As ilustrações são um show à parte e reúnem aquarelas, colagens, pinturas, desenhos feitos em computador, bico-de-pena e cartuns, no inconfundível traço de Ziraldo, o inventor do impagável Menino Maluquinho.
O resultado só poderia ser esse: letras que deixaram a "sem-gracice" das caligrafias de lado, para festejar a vida numa enorme profusão de aventuras e cores. "Dona Zizinha, minha mãe, antes de que eu entrasse na escola, achou que devia me apresentar às letras do alfabeto. E fez da descoberta de cada uma delas uma aventura. As letras de minha mãe não precisavam de olhinhos postiços, bracinhos ou bocas desenhadas sobre suas formas. Elas eram expressivas demais para necessitar desses acessórios, eram coisas vivas, com alma e expressão bastantes para povoar minha imaginação", relembra Ziraldo, autor de mais de 135 títulos.
Dessa viagem afetiva, ele começa o processo, claro, com o A, protagonista da primeira história do livro. Para Ziraldo, a letra A se chama André mas você pode batizá-lo de Abel, Alex, Antônio, Ângelo ou Ari. O caso é que André, quando pequenino, era uma letrinha minúscula, gordinha mesmo, que vivia se perguntando o que seria quando virasse adulto. Tudo o que ele queria na verdade era deixar de ser o barrigudinho da turma, desejava ser magro, esticar as pernas, tocar o céu com as mãos. O tempo passou e não é que André ficou grandão? Virou astronauta famoso, uma seta poderosa apontada para o espaço.
Para contar a história do B, Ziraldo virou romântico. Era uma vez uma letra B, a quem todos chamavam de Bia, porque no alfabeto tem letra menino e menina. Linda, ela fazia o maior sucesso com os rapazes, mas não via em nenhum deles o namorado ideal. Até que conheceu um B menino, o galante Bernardo, e começaram a namorar. O detalhe é que ele era Montéquio e ela era Capuleto. Aí, você já viu o final dessa história, não é? Só que Ziraldo, arauto da felicidade e da sorte, escolheu um final feliz para os namorados. E o que aguarda o Z, de Ziraldo, onde o alfabeto termina? O nosso Z morava num livro de história em quadrinhos, mas vivia tristonho porque não conseguia ser feliz. Para ele, felicidade mesmo só se ele fosse azul, como o céu e o mar.
Um amor de vovô
Meninos que sabem aproveitar têm no avô o melhor amigo. O mestre Ziraldo teve essa experiência quando criança. Tanto que pode dizer com a boca cheia que viveu tudo o que podia ao lado do patriarca da sua família. Aprendeu a pescar, a caçar minhocas na terra úmida para usar como isca, caçava rolinhas com arapuca para depois deixá-las voar no céu azul e a cantar a taboada. Agora, ele resgata os melhores momentos no livro inédito O menino e seu amigo, lançamento da Editora Melhoramentos.
Silenciosos, o homem e o menino, um grandão, imponente com seu bigode grisalho, o outro pequerrucho, inocente com suas calças curtas de suspensórios, saíam todos os dias para uma nova aventura. Cúmplices, acordavam com as galinhas, ainda escuro, para assistir ao espetáculo do nascer do sol. "Sobe aqui nos meus ombros, para o sol chegar primeiro pra você do que pra mim", dizia o vovô. Era a senha para que, juntos, saíssem a passear, dividindo experiências e sensações. Ziraldo, dono de um texto suave e belo, conta sua história em ritmo de poesia, mostra o menino crescendo sob o olhar atento do avô, admirado com o saber dele. "É um Rui Barbosa, o meu neto", se gabava.
O menino virou adolescente, adulto e chegou sua vez de ser avô. Agora, vovô Ziraldo não passeia mais pelos campos do interior, passeia pelo calçadão de Copacabana com a pequena Nina, atualizando o que aprendeu na época da infância. "O novo avô desta história ouve o renascer dos passos do menino que ele foi. E, num gesto repetido, pousa sua mão - capacete - sobre a cabecinha quente da menina, exposta ao sol. E, olhando a neta, que vai enfrentar as ondas do mar aberto à sua frente, ele faz a descoberta do que descoberto estava: ''Deus do céu! Como meu avô me amava!", avalia o feliz cartunista, ao final do livro.