Flávio Carneiro
Uma aventura épica ou uma crônica de família? Esta é uma das perguntas que talvez ocorram ao leitor que tentar definir com exatidão o novo romance de
Menalton Braff. Como, em se tratando de literatura, nenhum rótulo satisfaz plenamente, o certo mesmo é ficar com as duas hipóteses e acrescentar a elas algo como: drama de consciência de um empresário bem-sucedido.
“
Castelos de Papel” é tudo isso e mais alguma coisa. Numa escrita elegante e próxima da poesia, Braff parte de uma idéia que lembra as narrativas “epifânicas” de
Clarice Lispector: num dia comum, brincando com os netos num parque, um velho e milionário empresário se depara com um sorveteiro, cujo simples olhar desencadeia toda uma verdadeira reviravolta existencial, com conseqüências que beiram o delírio.
É a partir desse encontro casual e aparentemente sem importância que Alberto repassa para si mesmo uma vida de vitórias, conquistadas nem sempre pelo esforço e pela competência profissional mas muitas vezes com falcatruas, subornos, traições. Vida que se confunde com a da Vergueiro, empresa que ajudou a fazer prosperar e de onde tirou toda a sua fortuna.
Uma última batalha travada por Alberto, com ele mesmo
Nesse sentido é que se pode falar de aventura épica: Alberto trava uma última e quem sabe definitiva batalha, agora não com seus inimigos mas consigo mesmo, e a certeza do triunfo já não lhe é mais garantida como antes, quando sabia bem quem era e onde estava o adversário. Agora, ele vem de dentro e não tem rosto, ou, traiçoeiro e sutil, arquiteta disfarces que ora o confundem com o sorveteiro do parque, ora com o filho, Marco Aurélio, ora com a própria esposa, Sílvia.
É nesse território de sombras que o velho guerreiro terá que lutar, sujeito a encontros nada agradáveis com personagens do passado, supostamente enterrados mas que ressurgem à medida que Alberto decide consultar as fichas do arquivo morto da empresa, à procura de um rosto conhecido (ele jura a si mesmo que já conhece o sorveteiro de algum lugar, certamente algum desafeto seu na Vergueiro que agora estaria voltando, com desejos de vingança).
Tendo como fio condutor o drama de Alberto, o narrador vai aqui e ali traçando o perfil psicológico de outros membros da família, de modo que, ao final, o romance pode ser lido também como uma viagem pelos meandros de uma família de classe alta no Brasil moderno, vivendo ao mesmo tempo sob a proteção do patriarca e sob o medo da violência urbana. Em “
Castelos de Papel”, tal violência toma forma ameaçadora sobretudo na figura de potenciais seqüestradores (como o sorveteiro, na imaginação de Alberto), o que leva o empresário a criar, para si e para os seus, uma verdadeira fortaleza, bem parecida com uma prisão (de segurança máxima, ao que tudo indica).
E é justamente nesse ponto, o da delicada relação entre ficção e realidade, que o romance deixa um pouco a desejar. Em certas passagens, sobretudo do meio para o final, a narrativa cede demasiado espaço para o debate de idéias -— diga-se de passagem, apresentado de forma um tanto simplista, sem a complexidade que o tema exigiria. A interminável conversa entre pai e filho, à mesa de jantar, tem pouco de literário e muito de discurso politicamente correto sobre diferenças sociais, globalização, ética, política e temas afins. Toda a sutileza no tratamento do drama de Alberto desaparece nesses momentos e fica apenas algo como uma voz autoral, a deixar visíveis demais os cordões com que manipula seus marionetes de papel e tinta.
Entre os personagens, figura um tanto estereotipada
Além disso, certos clichês poderiam ter sido evitados, como, por exemplo, a apresentação de Alberto como homem bem-sucedido que passou fome quando criança, trabalhando duro para ajudar a sustentar a irmã doente e a mãe, já que o pai era um bêbado etc., ou a figura um tanto estereotipada do filho, Marco Aurélio, frágil e inseguro, filhinho de papai assessorado por uma esposa tola e ambiciosa. Salva-se, nesse aspecto, a esposa do empresário, Sílvia, personagem forte e bem construída, colocada na corda bamba ao ter que se decidir entre o marido e o filho nas batalhas de todo dia.
Para sorte do leitor, Menalton Braff consegue equilibrar esse tom quase panfletário que por vezes paira sobre o romance com as artimanhas de uma trama engenhosa e bem conduzida, de final surpreendente. Trama que se sustenta numa narração híbrida, habilmente elaborada entre a ficção e o teatro. Tal recurso, além de dar ao romance um ritmo mais dinâmico, é perfeitamente adequado ao jogo de dissimulações que se trava entre os membros da família de Alberto. É como se o fato de utilizar a escrita dramática fosse, indiretamente, uma referência a outro teatro: o das relações familiares, com os atores tendo que manter, a todo momento e com muito esforço, uma máscara que teima em querer cair.