Escritor que sempre se preocupou com sua vocação é redescoberto com filme e livros
UBIRATAN BRASIL
A obra do escritor pernambucano
Osman Lins vem ocupando um inadmissível segundo plano desde sua morte, em 1978. Apesar de sua profissão de fé, em que pregava que o autor deveria ter, sempre, controle absoluto sobre o que escreve para precaver-se, assim, contra qualquer tipo de ilusionismo, Lins é pouco lembrado. Uma boa tentativa de resgate de sua importância literária surge a partir desta semana, quando entra em cartaz o filme
Lisbela e o Prisioneiro, dirigido por Guel Arraes, além do relançamento da obra que inspirou o longa, agora em um bem cuidado trabalho da Planeta (120 págs.), e a seleção dos
melhores Contos, organizada por
Sandra Nitrini
e lançada pela Global (213 páginas).
Osman Lins sempre se preocupou com sua vocação de escritor e sua solitária relação com a sociedade, o mercado editorial, a crítica e o leitor. Desde seu primeiro romance,
O Visitante, lançado em 1955, até sua morte, ele jamais aceitou desviar do compromisso como autor que o impedia de fazer concessões que lhe garantiriam sucesso.
Como observa o jornalista José Castello, trabalhar, para Lins, não era apenas escrever, mas entregar-se a todo um esforço anterior de meditação, de raciocínio e de especulação, que deve preceder o ato da escrita para que ela não ceda a nenhum impulso burocrático e normativo. Com isso, criou obras fundamentais da literatura brasileira do século passado -
Nove Novena, seu primeiro livro a ser publicado em São Paulo, chegou às livrarias em 1966.
Mais arrojado,
Avalovara é de 1973. E
A Rainha dos Cárceres da Grécia, obra da maturidade em que cruza ficção e ensaio, saiu três anos depois.
A visão profissional, como encarava a carreira de escritor, obrigava-o a um interminável exercício, demorando dez anos de constante reescrita até atingir, por exemplo, a harmonia pretendida no livro de contos
Os Gestos, de 1957. Curiosamente, para escrever a peça
Lisbela e o Prisioneiro, Lins não consumiu mais que um mês e meio. O texto venceu um concurso da Companhia de Teatro Tônia-Celi-Autran e estreou no Rio, em 1961, com retumbante sucesso.
Apesar do curto período de criação, a peça é fruto de um meticuloso trabalho preparatório: insatisfeito com sua dramaturgia até então, Lins matriculou-se no curso de dramaturgia da Escola de Belas Artes do Recife, onde estudou, entre outros, Ariano Suassuna, que teria exercido uma possível influência sobre ele no que diz respeito às normas de composição de Lisbela.
Osman Lins acreditava que seu teatro era obra de entretenimento para ele e o público. Assim, para o regionalismo de Lisbela aproveitou histórias ouvidas por amigos e familiares, além de uma boa pesquisa de ditados, expressões populares e até os dísticos encontrados em pára-choques de caminhões.
"Matéria e linguagem reelaboradas tecem esta peça, regada por uma equilibrada dosagem de leveza, comicidade e ternura, e assentada em valores libertários em prol da vida, o que lhe abre as portas para outros tempos e outros espaços", escreve Sandra Nitrini que, além da seleção dos contos editados pela Global, é responsável pelo posfácio de
Lisbela e o Prisioneiro.
A trama bem urdida da peça, além da existência de personagens típicos das comédias populares - não confundir com popularescas - como a mocinha apaixonada, o conquistador, o valentão e a autoridade ridícula, atraíram o diretor Guel Arraes que, antes de levar a história ao cinema, dirigiu ainda um especial para a televisão e uma adaptação para o teatro. "Apesar de arrojadíssima no restante da obra, a linguagem que Lins adotou para Lisbela é bem diferente de sua literatura por ser mais leve", explica ele, que decidiu utilizar poucas características do original. "O filme, mais melodramático, é mais denso que a peça, mas tentamos quebrar o preconceito contra o mau gosto."
Ritmo - Arraes decidiu também por um ritmo acelerado, brincando com a linguagem cinematográfica, especialmente quando a mocinha adivinha todos os passos do mocinho, pois o acompanha em um filme.
Apesar de nascido no Nordeste (em Vitória do Santo Antão (PE), em 1924), Osman Lins não incorporou a tradição da literatura regionalista dos anos 1930, buscando mais uma linhagem machadiana. Ao selecionar os contos, Sandra Nitrini percebeu que eram textos de sondagem interior, colocando em cena velhos, doentes, crianças, mulheres em situações prosaicas da vida. "Uma galeria de personagens, as quais em sua maior parte se incluem na categoria do que hoje entendemos por excluídos", afirma Sandra.
É o caso do velho André, do conto
Os Gestos: incapacitado de se comunicar com a mulher e as filhas por causa do seu estado de mudez, ele vive uma situação desesperadora, pois nem sempre é compreendido pelos familiares.
Assim, o leitor não só invade o mundo interior de André como é por ele conduzido na apreensão das outras personagens. "Nesses contos, a solidão, tema aglutinador de outros advindos dos relacionamentos humanos, é experimentada no convívio direto com os parceiros", observa Sandra.
No sentido contrário aparece
Elegíada, em que o personagem principal, um velho, conversa mentalmente com a mulher morta, durante o velório. Trata-se do discurso interiorizado em que surgem tanto as lembranças dos momentos vividos com a parceira como as reclamações contra filhos e netos, que o tratam como criança e sob pesadas ordens. "Ele não terá mais com quem repartir as memórias e falar das coisas triviais e amadas, vivenciando o problema da solidão do idoso na moderna sociedade industrializada."
Quando morreu, de câncer, Osman Lins estava escrevendo o romance
Uma Cabeça Levada em Triunfo, que ficou inacabado. Suas idéias sobre a literatura, porém, ficaram gravadas em um ensaio pouco conhecido hoje, Guerra sem Testemunhas, publicado em 1969. Ali, pregou um zelo e um cuidado tamanhos que, mesmo no novo século, Osman Lins ainda é um escritor a se descobrir.