Crônicas do escritor carioca revelam uma cidade irreverente e lírica
Duílio Gomes
Carioca nascido em Vila Isabel, o escritor
Marques Rebelo (1907-1973) vem tendo toda a sua obra de ficção reeditada pela Nova Fronteira. Agora sai uma reunião de suas crônicas, na coleção dirigida por
Edla van Steen para a Global. Romancista, contista e cronista da segunda geração do modernismo, Rebelo começou a publicar na década de 1930. São, dessa época, os romances
Marafa,
A estrela sobe e as coletâneas de contos
Três caminhos e
Oscarina.
Como cronista, o autor colaborou com vários jornais e revistas cariocas, incluindo aí o Jornal do Brasil. Suas crônicas, essencialmente urbanas, revelam um Brasil aberto ao mundo e um Rio absolutamente lírico e irreverente, onde os cidadãos podiam circular com segurança.
Selecionadas por
Renato Cordeiro Gomes, algumas dezenas dessas pequenas jóias esquecidas na voragem do tempo - a maioria escrita há 50 anos - acabaram repaginadas no volume
Melhores crônicas: Marques Rebelo, distribuídas em 284 páginas.
Na parte dedicada ao Rio (''Suíte carioca''), o cronista se derrama de amor pelas praias, florestas e poentes da cidade, louva seus corretos projetos expansionistas, destaca o que havia de melhor em Vila Isabel, Lapa, Cosme Velho, Copacabana ou São Cristóvão mas desanca a fúria urbanística. ''Não adianta reclamar'', lamentava ele, ''contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia da cidade - da nossa cidade -, os poderes são surdos pensando que são sábios.''
Se o Rio, com seus estereótipos urbanos, é recorrente em sua obra ficcional e factual, outras cidades e regiões brasileiras não ficam excluídas do repertório do autor. Aqui estão registradas suas viagens a São Paulo, Recife, Florianópolis, Vitória, Salvador ou pelas mineiras Barbacena, Cataguases, Ouro Preto, Belo Horizonte. Na estrada que liga Belo Horizonte a Ouro Preto, o autor percebe, em viagem realizada em 1942, a onipresença dos ''exércitos motorizados'' do então prefeito da capital mineira, Juscelino Kubistchek - "tratores amarelos, escavadeiras amarelas, compressoras amarelas, caminhões amarelos, todos com os radiadores floridos com flores de quaresma.''
A São Paulo de 1950 já deixara de ser ''a tímida e provinciana cidade que dormia cedo para se transformar em turbulenta babel sempre acordada. Cresceu como nenhuma outra cidade neste mundo e a tal respeito as estatísticas são triunfais e lançadas aos quatro ventos. O que era melancolia se transformou em velocidade, em palpitação, em inigualável alegria criadora.''
Fora de suas viagens sentimentais, Rebelo recria - com antenas finas - a realidade nacional, nem sempre glamurosa, e dramatiza seus conflitos. Sua infância pobre incita nele, já adulto, um parceiro simpático aos moradores das periferias e morros. Torna-se um refinado intérprete de sua cidade e do Brasil. Faz com que sua gente, cultura e costumes acabem servindo de alimento para sua obra de ficção e crônicas, ''que documentam o caráter múltiplo da realidade brasileira'', notou Renato Gomes.
Essencialmente um prosador, Rebelo (um torcedor apaixonado do América do Rio) acaba, muitas vezes, incorporando a poesia em seus textos. Em seus melhores momentos, é capaz de tiradas como ''a piscina é o espelho azul-cobalto onde o céu se reflete. De repente, o espelho se quebra em mil pedaços com o mergulho do nadador''.
Nascido Eddy Dias da Cruz, um nome-cacófato, o autor adotou, como nome artístico, o de um poeta português do século 16. ''Eddy Dias'', comentava ele com sua verve carioca, ''é um nome bom só para compositor de escola de samba.'' Afinal, ele podia se dar o luxo, às vezes, de ser politicamente incorreto.