Neil Gaiman retoma personagem de quadrinhos e lança Coraline para crianças
Ubiratan Brasil
O inglês
Neil Gaiman é um sujeito esquisito – em sua estranha casa, em Minneapolis, Estados Unidos, onde vive com a mulher e três filhos, há uma torre em que, comenta-se, pessoas foram enforcadas em séculos passados. Ele também cultiva abóboras exóticas no jardim, além de colecionar gatos e computadores. Mas não é apenas por isso que Gaiman se destaca na vizinhança: aos 43 anos, ele faz parte do clube seleto de bons escritores que produzem quadrinhos, criador de
Sandman, história com que ajudou a criar a noção de quadrinhos adultos no mercado americano e deu origem ao selo Vertigo, especializado em histórias de terror e fantasiamaduras, da tradicional editora DC.
Foi em comemoração aos dez anos da Vertigo que foi lançado nos Estados Unidos, no final do ano passado,
Sandman: Noites sem Fim, marcando seu retorno ao personagem cujas histórias escreveu entre 1987 e 1996. O livro chega agora ao Brasil, pela Conrad (160 páginas), em caprichada edição. Ao mesmo tempo, outra editora, a Rocco, oferece aos fãs o primeiro livro que Gaiman escreveu para jovens,
Coraline (160 páginas), uma história com figuras misteriosas e cenários sinistros. “Sempre me interessei em escrever algo especificamente para crianças, algo com um tom mais misterioso”, comentou Gaiman em entrevista ao Estado, por telefone, de seu escritório em Minneapolis, preferindo falar primeiro sobre
Coraline.
O livro conta a história de uma menina que se muda com os pais para uma estranha casa. Lá, entre várias portas, há uma cuja passagem foi bloqueada por um muro de tijolos. Certa noite, Coraline (que os vizinhos insistem em chamar de Caroline) percebe um ser passando pela porta. Seguindo-o, ela descobre outro pai e outra mãe, que a querem para sempre.
Alice – É inevitável a comparação com
Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. “É verdade, mas me inspirei também em outras histórias que ouvi há muitos anos”, comenta Gaiman. “Há uma, por exemplo, de Lucy Clifford, sobre crianças que atormentam todo mundo e nunca escutam os avisos da mãe, até o dia em que eles são assombrados por uma figura diabólica que vai assumir o papel da mãe. Esse tom de distúrbio me fascina muito.”
Ao contrário de sua produção habitual, marcada por prazos apertados, Gaiman levou cerca de dez anos para escrever
Coraline. “Não foi um projeto encomendado, por isso utilizei meu próprio tempo”, explica ele, que foi cuidadoso na escolha das situações e até mesmo das palavras. “Crianças são, normalmente, um público facilmente dispersivo; assim, tentei criar uma história em que elas espontaneamente dissessem: ‘Oh, que terrível!’.”
Gaiman pretendia escrever sobre o mau comportamento, mas também sobre coragem. Segundo ele, era preciso balancear
as passagens que provocassem medo com as que fizessem as crianças vibrarem. “Meus filhos foram os principais termômetros das minhas expectativas”, explica o escritor, que contoucom a colaboração do desenhista Dave McKean, autor das ilustrações.
“Somos cúmplices em diversas histórias e me agradam muito os traços vitorianos e desenhos angulares de suas criações.”
Gaiman não se considera basicamente um escritor de histórias de horror, embora não esconda umfascínio por narrativas
que misturem fantasia, magia e mistério. E
Coraline está bem próximo do linha criativa que ele utilizou nas histórias de
Sandman, repetida agora em
Noites sem Fim. O livro traz sete contos, um para cada membro dos Perpétuos (uma das formas como a família de Sandman é conhecida; as outras são Eternos ou Sem Fim). E, para ilustrar cada história, foram convidados grandes talentos do quadrinho mundial, como Miguelanxo Prado e Glenn Fabry.
A obra atingiu um sucesso imediato, classificando-se inclusive na 20.ª colocação da lista de best-sellers do The New York Times. Gaiman conta que ficou satisfeito de voltar a um personagem cuja história considerava encerrada. “O que me fascinava em criar narrativas para o Sandman era o fato de estar trabalhando em um território considerado exclusivo de um gueto, que são os quadrinhos”, comenta. “Poucos perceberam que eu trabalhei com todas as variações do gênero de horror e fantasia e ninguém reclamava dizendo: ‘Isso não pode acontecer em uma história do Sandman’.”
Gaiman conta que sabia que um dia voltaria ao personagem que dominou nove anos de seu trabalho e de seu sono – só não sabia quando. “O momento chegou quando descobri que ainda havia histórias para contar e, principalmente, havia artistas com quem gostaria de trabalhar.”
Os fatos históricos, portanto, tornaram-se decisivos. Como o ataque terrorista às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001. Gaiman estava em Veneza naquela semana, sozinho, e a tragédia o fez pensar muito na natureza da morte e do tempo. Surgiu, assim, a história
Morte, a primeira do livro, ilustrada por P. Craig Russell, o único desenhista com quem o escritor já havia trabalhado antes.
“Essas outras histórias me ofereceram a boa sensação de voltar para casa”, conta Gaiman, que novamente faz mistério a um novo retorno. “Sabia que um dia chegaria a algo parecido com
Noites sem Fim, portanto, tudo é possível.”