Tradutora da série de Harry Potter lança pela Rocco Línguas, Poetas e Bacharéis
Beatriz Coelho Silva
Tradutor é profissão recente no Brasil, ainda nem regulamentada, mas a atividade foi fundamental na ocupação do País pelo colonizador europeu – portugueses à frente – e seu desenvolvimento como nação. Essa história, do Descobrimento até hoje, é o tema de
Línguas, Poetas e Bacharéis – Uma Crônica da Tradução no Brasil, de
Lia Wyler, que sai pela editora Rocco. Ela, que ficou conhecida por traduzir a série
Harry Potter, é estudiosa do assunto. Sem papas na língua e com muita pesquisa, começa esclarecendo o que é sua profissão e não poupa páginas culturais de jornais e revistas por raramente se referirem à tradução de textos estrangeiros, a não ser para reprová-la.
Mas engana-se quem pensa que Lia Wyler vai destilar amarguras nas quase 160 páginas em que conta a história. Ela a divide em três períodos desiguais: da chegada dos portugueses, a qual chama de achamento e não Descobrimento, à vinda de d. João VI para o Brasil; desse período até os anos 30 do século passado, e a fase em que a tradução literária chega ao País, pela iniciativa de editores editores como José Olympio e escritores como Érico Veríssimo, ele mesmo tradutor de clássicos da ficção mundial e organização de suas antologias. Com Línguas, Poetas e Bacharéis, aprendemos que a atividade cresceu e se consolidou paralela ao desenvolvimento da indústria editorial e gráfica, proibida no Brasil até o fim do século 18.
“Daí o nome do livro, pois língua era o nome dado a quem traduzia para os colonizadores os idiomas dos indígenas encontrados aqui. No fim do século 18, era preciso melhorar a exploração da terra e os poetas traduziam manuais técnicos europeus”, ensina Lia. “Só a partir dos anos 30, com o modernismo e o incentivo do Estado Novo à produção cultural brasileira a atividade ganhou novos contornos. Passou a ser exercida por bacharéis, como ocupação complementar. Só nos anos 60, por influência de Paulo Ronai, houve uma valorização da profissão”.
No livro, ela lembra ainda que, a partir do século 19, a tradução de folhetins franceses e ingleses (o bisavô da nossa telenovela, romances que saíam em capítulos em jornais) foi um passo importante na evolução da atividade, até porque o folhetim impresso nacional, ao contrário do eletrônico, numa emplacou. E fala da crítica de Oswald de Andrade à prática das editoras de entregar traduções a escritores consagrados. O modernista alegava que esta roubava a eles o tempo que poderia seu usado para criações originais, mas seus nomes geralmente eram usados como atrativo para vender as obras traduzidas.
O livro é resultado de anos de experiência no ofício, de pesquisa em sua história e no estudo da situação atual. Lia Wyler traduz desde os anos 70 – começou com um manual para engenheiros que construíam a Ponte Rio-Niterói –, pois tinha um bacharelato em Letras na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio e fluência em inglês. “Eu achava que saber os dois idiomas era suficiente, só depois aprendi que era preciso muito mais”, comenta ela. “Não existe tradução literal porque nenhuma idéia vai completa de uma língua para outra.Mas o ditado
tradutore / traditore (tradutor/traidor) é bom para italianos que não sabem o esforço que nos custa a fidelidade ao texto original.
Antes de Harry Potter, Lia Wyler trouxe para os brasileiros uma constelação de autores de
best-seller em inglês, entre eles Tom Wolfe (
A Fogueira das Vaidades foi traduzido por ela), Margareth Atwood, John Updike, Saul Bellow, entre eles. A par dessa atividade, fez mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro e deixou inconcluso um doutorado na Universidade de São Paulo. O livro é um resumo das pesquisas acadêmicas. Não deixa de ser uma história do pensamento brasileiro, ou da forma de importar idéias. “Prefiro dizer que abordo um aspecto desse tema”, contesta ela, que traduziu as 760 páginas do mais recente Harry Potter,
A Ordem da Fênix, enquanto finalizava o
Línguas, Poetas... Lia é, portanto, um exemplo das dificuldades que ela narra em seu estudo. “Eram seis horas diárias. Eu lia em inglês, visualizava nessa língua, traduzia mentalmente e escrevia em português”.
Valeu a pena, porque os leitores brasileiros de Harry Potter se transportam para a Londres e para a vida do bruxinho inglês órfão e carente. Bem de acordo com o preceito do bom tradutor, segundo o teórico Lawrence Venuti, citado por ela. “Quanto mais fluente, mais invisível ele se torna tanto mais visível a personalidade ou intenção do autor estrangeiro, enfim, sua essência”.