Obras do cartunista argentino Quino são reunidas em três lançamentos em português.
Patrick Brock
Quer conhecer outros desenhos do autor de Mafalda? Confira os livros
Não fui eu,
Que gente má! e
Potentes, prepotentes e impotentes, lançamentos da editora Martins Fontes. Neles, o argentino Joaquin Salvador Lavado, o
Quino, elabora um humor sutil e inteligente, por vezes sombrio e crítico da realidade. Apesar de fragmentados, os três livros transparecem temáticas distintas. Não fui eu aborda a questão da culpa e suas vertentes; Que gente má versa sobre as pessoas e suas maldades; Potentes, prepotentes e impotentes mostra as ações dos ricos e poderosos sobre as outras pessoas que os cercam, em todas as esferas.
A Martins Fontes já editou a coleção completa de Mafalda e agora optou por expandir as edições dos trabalhos de Quino, segundo o editor Luis Riveira. "Os três livros contêm alguns dos melhores trabalhos de Quino na sua linha de cartuns de humor", explica Riveira. "Decidimos lançar os três livros de vez na Bienal para obter mais impacto", completa.
Nas três coletâneas é notável a universalidade dos desenhos, que podem se passar em qualquer lugar do mundo. Eles também se destacam pela habilidade de Quino em construir narrativas puramente visuais, sem diálogos. Outro aspecto é o uso de elementos mínimos para criar expressões faciais; ou quando o artista abandona o humor para seguir uma linha mais sombria. Nesses momentos, o surrealismo serve para tornar objetivas idéias puras, como a humilhação cotidiana, as pequenas maldades do dia-a-dia ou até a questão do poder e seu efeito no homem. Completam a linguagem visual dos livros os jogos de imagens, que reforçam as idéias suscitadas pelo surrealismo, como um empregado que é demitido: aos poucos, as paredes do seu escritório são retiradas, até que sobra apenas o chão, que virou uma pá de lixo. Conclusão? Ele está sendo descartado, como algo sem valor.
História - Quino é um dos maiores cartunistas da atualidade; seus livros foram publicados em dez países diferentes. "Seja pelo traço ou pela ironia e participação política, a verve de Quino tem um papel forte de crítica social", afirma Riveira. Sua personagem Mafalda é conhecida mundialmente como um exemplo de quadrinhos politizados. Criada numa época em que o mundo estava em convulsão social, Mafalda cativou os leitores com seus questionamentos filosóficos, improváveis para uma criança, mas, ainda sim, essenciais para todos nós. Em Mafalda, Quino combinou o apuro técnico com a coerência do trabalho intelectual.
Nascido na cidade de Mendoza, Argentina, em 1932, numa família de refugiados da guerra civil espanhola, Quino fez carreira como cartunista para os principais jornais e revistas argentinas. Em 1945, ingressou na Escola de Artes de Mendoza, mas a abandonou quatro anos depois, "cansado de desenhar vasos", como afirma em biografia contida na sua página oficial,
www.quino.com.ar. Em 1950, vendeu seu primeiro trabalho, algo que não quer nem lembrar como era, "por medo de se envergonhar". Nessa época, decidiu ser humorista e ilustrador. Para isso, se mudou para Buenos Aires em 1951, à procura de emprego. Só conseguiu em 1954, entre muitas idas e vindas da capital para Mendoza.
Depois de viver por cerca de cinco anos em dificuldades, dividindo um quarto de pensão com mais quatro pessoas, Quino obteve o reconhecimento e passou a publicar regularmente nos principais periódicos argentinos. Habitante das redações dos jornais, o artista estreou em livro em 1963, com Mundo Quino. A partir daí surgiu Mafalda, em 64, personagem de tamanho êxito que culminou no convite do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência) para que Quino ilustre com ela e sua turma a Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1977.