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Roberto Campos - Um Retrato Pouco Falado


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Ficha Técnica Saiu na Imprensa

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Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2002

Sinopse

Com prefácio de Murilo Melo Filho, este livro mostra o perfil da personalidade polêmica de Roberto Campos. Olavo Luz, seu assessor e amigo, acompanhou-o durante vários anos, até sua morte, em 9 de outubro de 2001. Roberto Campos é mostrado na verdadeira dimensão de sua personalidade - firme nas convicções, eloqüente nas argumentações, mordaz e consistente nas contestações e bem humorado nas finas ironias. Vivendo nos extremos do amor e do ódio, Roberto Campos jamais deixou de expor suas idéias liberais de forma clara e muitas vezes contundente. As páginas deste livro desfilam um personagem que não escondia sua aversão à irracionalidade; às vezes ignorava a presença de um amigo sentado numa poltrona ao seu lado a bordo de um avião; era capaz de sair de casa com um pé de meia marrom e outro azul.
Saiu na Imprensa:

Valor Econômico  /   Data: 11/6/2002
Roberto Campos ganha retrato de amigo
Seu assessor durante 15 anos, Olavo Luz conta histórias que não estão no autobiográfico "Lanterna na Popa".

Por Sergio Leo, de Brasília

Na década de 50, ele ajudou a inspirar o Plano de Metas, de Juscelino Kubitscheck. Os anos 60 ele começou como embaixador nos Estados Unidos, onde teve de aproveitar eventos públicos para tentar aplacar acionistas da ITT, desapropriada pelo então governador Leonel Brizola, eterno desafeto. Na visita de João Goulart a John Keneddy, ele estava nos bastidores, com fichinhas preparadas para orientar as entrevistas do presidente brasileiro com o chefe de Estado americano e os hostis repórteres locais.

Roberto Campos, o Bob Fields (apelido que detestava), teve o cuidado de deixar, em vida, um relato de sua participação ativa na história do país, com sua autobiografia, o cartapácio Lanterna na Popa, sucesso de vendas. Restaram histórias paralelas, a "petite histoire" de um personagem marcante e polêmico, que seu auxiliar por 15 anos, Olavo Luz, decidiu transformar em livro.

Luz não se intimidou com a "Lanterna" de Roberto Campos; seu projeto era outro: contar particularidades do personagem, um sujeito de humor mordaz, freqüentemente autodepreciativo, apaixonado pela pregação liberal e um distraído que dependia da mulher, ao sair de casa, para não deixar para trás o celular, a caixa de remédios, os óculos.

Jornalista, amigo de Campos desde que o conheceu, em 1964, como entrevistado, numa pouco falada reunião do Fundo Monetário Nacional, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio, Luz é um contador de casos e foram alguns deles que decidiu reunir no livro Roberto Campos, um Retrato pouco Falado, que será lançado na quinta feira na Academia Brasileira de Letras - onde Paulo Coelho e Hélio Jaguaribe, entre outros menos votados, disputam a vaga deixada pelo ex-ministro e deputado.

"As idéias dele são conhecidas; quis mostrar o homem não visível", explica Luz. Em algumas histórias, ele faz exatamente isso. Fala do ministro que era capaz de sair de casa com uma meia marrom e outra azul; relata histórias do leitor compulsivo, que aproveitava as viagens de carro ou, com o rosto enfiado em uma revista estrangeira, chegava a ignorar as turbulências que punham em pânico companheiros de uma viagem de helicóptero; conta do diplomata que tinha pavor de traje de gala, lembrando a frase de Nélson Rodrigues, para quem nada parecia mais um garçom do que um ministro trajando smoking.

Uma foto, no livro, mostra o momento em que Campos, em campanha para a Câmara dos Deputados, acabava de receber de um cabo eleitoral um bebê, para o tradicional registro no colo do candidato. "Ele não tinha jeito para aquilo", diverte-se o ex-assessor. Eleito presidente do PPB no Rio, renunciou dias depois de ter uma preleção em favor do liberalismo interrompida pelos cabos eleitorais ansiosos pelas bolas e camisas de futebol a ser distribuídas para o eleitorado.

Mas o perfil traçado por Luz pinta também trechos da História que teve Roberto Campos como protagonista, mesmo quando o político e diplomata operava nas sombras. Durante a Guerra das Malvinas, o liberal Campos, embaixador em Londres, acusava diplomatas com quem trabalhava de apoiar o colonialismo inglês, pela simpatia que sentiam pelas pretensões britânicas nas ilhas, contra as reivindicações territoriais da ditadura militar argentina.

Interpelado por um representante de Foreign Office por causa da venda, aos argentinos, de aviões Bandeirantes, da Embraer, Campos garantiu que o negócio não alterava a posição de neutralidade do Brasil. "Acho que os senhores não entenderam bem", argumentou. "Continuamos mantendo nossa posição, tanto é que reservamos o mesmo número de Bandeirantes ao governo britânico, caso queiram comprá-los." Luz não conta se a oferta foi feita em tom irônico. Não foi aceita pelo bem equipado governo inglês.

No governo Castelo Branco, sabe-se seu papel na criação da caderneta de poupança, na correção monetária (útil na construção do Sistema Financeiro de Habitação), na elaboração do progressista Estatuto da Terra.

Luz conta, porém, um detalhe pequeno e revelador de Campos e do país. Escalado para defender o governo em um debate televisivo contra o então governador Carlos Lacerda, como ministro poderoso de Castelo relutou, por temer o carisma do político carioca. Após encerrar o debate com uma citação em latim, mortificou-se ao ser advertido pelos assessores, que haviam recomendado fugir das citações eruditas. Mas lavou a alma ao ser efusivamente cumprimentado na praia por um dos inúmeros admiradores de Getúlio Vargas: "Isso mesmo, ministro, caga latim na cabeça dele, porque ele matou o Getúlio!" Aliviado, ironizou, com os assessores: "Vocês não entendem nada de povo nem de comunicação de massa."

Na embaixada de Londres, Campos impulsionou a carreira acadêmica do jovem diplomata José Guilherme Merchior, ao dispensá-lo da rotina burocrática para que fizesse mestrado na London School of Economics. "Sua tese doutoral contribuirá mais para a cultura brasileira do que os relatórios diplomáticos, fadados a dormir o sono dos justos nos arquivos do Itamaraty", justificou.

Na Câmara, era um dos gurus do deputado Luís Eduardo Magalhães, que, se não tivesse morrido quando ainda beirava os 40 anos, teria sido a grande aposta do PFL para a Presidência da República. Campos lamentou essa e outras mortes de figuras ilustres da direita, como a do jornalista Paulo Francis, que considerava ter influenciado na direção do pensamento liberal.

Com Fernando Collor, presidente cujo impeachment ajudou a aprovar, a decepção foi outra: no início encantado com o jovem líder alagoano, Campos irritou-se profundamente ao saber da nomeação de Zélia Cardoso de Mello, com quem já havia trabalho e de quem tinha péssima imagem. O confisco dos cruzados azedou de vez a relação; a uma tentativa telefônica de Collor de justificar a decisão como fruto de sua impulsividade, reagiu com um sonoro palavrão.

O livro de Luz é uma homenagem de amigo, como outras obras recentes sobre figuras públicas que foram alvo de fortes críticas durante a ditadura militar e, hoje, passam por um processo de revisão histórica - outro exemplo é o de Mário Henrique Simonsen.

Descontados os exageros, como a proximidade encontrada pelo ex-auxiliar entre Campos e a figura de São Francisco de Assis, o livro é um relato com toques saborosos sobre um personagem que assistiu, em vida, à homenagem de antigos desafetos e ao reconhecimento de opositores.

Além de declarações elogiosas dos ex-esquerdistas Fernando Henrique Cardoso e Arthur Virgílio, há um sincero depoimento do senador Saturnino Braga, hoje no PT, que lembra como, no Ipea, Campos enfrentou o veto dos órgãos de segurança e contratou jovens concursados e suspeitos de comunismo, entre eles o próprio Saturnino e o brilhante Inácio Rangel. Era, antes de tudo, um liberal e os casos contados pelo amigo ajudam a compreender melhor essa figura polêmica.

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