Por Cristina R. Durán
Por mais lugar-comum que possa parecer, não é exagero afirmar que
Joel Silveira é uma lenda viva do jornalismo brasileiro. Dia 23, ele completará 85 anos, ao longo dos quais publicou mais de 40 livros e recebeu diversos prêmios, como o Machado de Assis, o mais importante da Academia Brasileira de Letras (ABL), que lhe foi agraciado em 1998 pelo conjunto da obra.
As premiações do Libero Badaró, do Esso Especial, do Jabuti e do Golfinho de Ouro também fazem parte de seu currículo. Mas o melhor de tudo são as crônicas, reportagens e perfis escritos por ele nos anos 40 que mudaram o jornalismo brasileiro e lhe valeram a alcunha de "víbora" pelo então magnata da imprensa Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados.
Segunda-feira, a Companhia das Letras colocará nas livrarias "
Joel Silveira - A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista" (216 págs.), reunindo pelo menos 16 destes textos. O livro conta com posfácio de
Fernando Morais, igualmente jornalista e escritor, que em poucas páginas leva o leitor a uma viagem pelo ambiente intelectual vivido naqueles anos passionais que produziram outras línguas ferinas, como a de
Nelson Rodrigues.
"Naquele tempo, o jornalismo era diferente. Era passional, pulsava pelas 'vendetas' pessoais e dava espaço para as grandes reportagens", diz ele ao Valor. E foram estas tais 'vendetas' pessoais, além do talento, que permitiram a Joel Silveira se esparramar em seus textos. Um dos mais saborosos do livro a ser lançado, e que lhe dá o nome, coloca essas afirmações na sua devida dimensão. Em "
A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista", Joel foi enviado a São Paulo por Chateaubriand para cobrir o 'super-hiper-mega' casamento da filha de um de seus maiores inimigos, o conde Francisco Matarazzo.
O jornalista já havia espinafrado a fina flor da sociedade paulistana de então, em um texto chamado "1943: Eram Assim os Grã-finos de São Paulo". Assim, Chateaubriand não teve dúvida em mandá-lo cobrir o evento para o "Diário de Notícias", com a recomendação de fazer um estrago literário naquele que era chamado "o casamento do século".
Joel cumpriu a ordem com o melhor estilo e, digamos, conseguiu, até, isenção nos fatos. Tudo o que descreveu foi a mais pura verdade. Inclusive, o casamento humilde de dois operários das fábricas Matarazzo descoberto por ele por acaso e que, por recomendação de Chateaubriand, ganhou espaço igual ao lado da página inteira sobre a boda da filha do conde.
Como observa Morais - candidato à vaga do jornalista Roberto Marinho na ABL, já com dez dos 39 votos garantidos -, o livro retrata o surgimento, no Brasil, do gênero jornalístico chamado de "grande reportagem", "novo jornalismo", "jornalismo investigativo" ou "jornalismo literário", que passou a fazer parte do dia-a-dia dos jornais no final dos anos 30.
Sergipano, Joel Silveira chegou no Rio de Janeiro em 1937, nove meses antes da instauração da ditadura de Vargas. Ele foi trabalhar no jornal "Dom Casmurro" e de cara passou a conviver com outra fina flor, a da literatura:
Carlos Lacerda,
Rachel de Queiroz,
José Lins do Rego,
Oswald de Andrade, entre muitos outros.
Pouco tempo depois, houve um racha no "Dom Casmurro" e Lacerda, seu primo Moacyr e Murilo Miranda montaram o concorrente "Revista Acadêmica", com Rubem Braga, Lúcio Rangel e Arnaldo Pedroso. "O quadrilátero formado entre a Cinelândia e a rua do Ouvidor converteu-se no ponto chique da inteligência carioca: numa esquina ficava a redação do 'Dom Casmurro'. Na outra, a 'Revista Acadêmica'. Entre as duas repousava a editora José Olympio, a mais prestigiada de então", escreve Morais.
Em 1938, Joel Silveira e Carlos Lacerda se juntaram à equipe de "Diretrizes", semanário recém-lançado por Samuel Wainer. O texto do jovem sergipano já chamava a atenção de Chateaubriand. Pouco depois, ele publicou entrevista feita com Monteiro Lobato em que o escritor desancava Getúlio Vargas.
O título "O governo deve sair do povo como a fumaça da fogueira", extraído das respostas de Lobato, irou o presidente que fechou o jornal, passou a perseguir Joel, que se refugiou em seu terra natal. Chateaubriand não se cansou até levá-lo de volta ao Rio e contratá-lo, como já tentara inúmeras outras vezes. Apelidado de "víbora" pelo patrão, a caneta de Joel nunca mais deixou de correr solta fazendo jus ao novo nome. Mais calmo, hoje ele escreve para a revista "Continente".
O livro a ser publicado agora faz parte da Coleção Jornalismo Literário que, a partir de quarta-feira contará com mais uma preciosidade: "
A Sangue Frio", de Truman Capote (440 págs.). É um clássico em que o americano conta a história da chacina de uma família e dos autores do crime, executados em 1965 - um tempo em que a grande reportagen ainda resistia.