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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
1ª Edição
- 2006
192 pág.
'Mãos de Cavalo' começa com capítulos curtos, em terceira pessoa, que tratam de episódios aparentemente díspares - o tombo de bicicleta de um garoto de dez anos numa rua vazia da zona sul de Porto Alegre; uma partida de futebol entre adolescentes do condomínio Esplanada, também na capital gaúcha; e os preparativos de um cirurgião plástico bem-sucedido que, em companhia de um amigo, pretende viajar à Bolívia para escalar o Cerro Bonete, façanha até então inédita. Esses acontecimentos vão aos poucos se conectando no tempo e no espaço dramáticos, e compõem uma delicada trama sobre memória, perda e culpa.
Opinião do Leitor:
Bruno Cassiano / Data: 13/5/2008 Conceito do leitor: | (opine)
Brilhante
Uma das melhores obras que já li, 'Mãos de Cavalo' consegue captar a essência da geração que viveu sua adolescência nos anos 90 - com saudosas referências à cultura pop da década - ao mesmo tempo em que se aprofunda, de forma incomum na literatura brasileira, na tarefa de revelar o perfil psicológico de seu personagem-título. Como se não bastasse, Daniel Galera constrói uma narrativa envolvente, na qual não mostra esforço algum no sentido de obstruir sua visão crítica acerca de vários elementos da Porto Alegre do século XXI e, por indução, da classe média urbana brasileira nos dias de hoje. Enfim, pode até ser que eu tenha gostado tanto do livro por uma eventual identificação com observações do autor e com o personagem-título, mas mesmo procurando deixar isso de lado, não consigo pensar em qualquer motivo para não dizer que esse livro seja irrepreensível.
Saiu na Imprensa:
Correio Braziliense /
Data: 17/6/2006 Rito de passagem
Sem abandonar as referências pop que permeiam sua geração, o gaúcho Daniel Galera mostra extraordinário domínio narrativo em Mãos de cavalo – uma reflexão sobre autoconhecimento e independência
Tiago Faria
Parece inevitável (e deliciosa) a comparação com o mais antigo dos ritos de passagem enfrentados por bandas de rock. Alistado a uma grande gravadora - ou melhor, a editora Companhia das Letras -, o gaúcho Daniel Galera chega, aos 26 anos de idade, no momento em que definições rasteiras criadas para ele deixam de fazer muito sentido. Em que dar passos adiante não se faz apenas necessidade, mas questão de sobrevivência. Antes, estávamos diante do inquieto "blogueiro", do típico representante da "geração internet", do agitador da literatura jovem que fizera barulho ao publicar dois livros por conta própria (a coletânea de contos Dentes guardados, de 2001, e o romance Até o dia em que o cão morreu, de 2003, que irá ao cinema sob direção de Beto Brant). Esses e outros rótulos desabam diante do rigor explicitado em Mãos de cavalo. Na transição para esse tal de mainstream, o autor não aceita mais simplificações que caibam em adjetivos como "juvenil" ou "renovador". A estação que Galera transmite lança sons dissonantes capazes de confirmá-lo como uma genuína revelação literária.
Impressiona que, para buscar esse lugar particular no mundo, o escritor tenha rejeitado formas fáceis de chamar atenção. Sem pretensão alguma de soar transgressor - pelo contrário, ele se assume como um conservador - e com um texto enxuto que praticamente anula o ritmo feérico que virou chavão em textos de internet, Galera frustra os vícios do leitor à espera de choque rápido. Com parágrafos longuíssimos e descrições obsessivas de tão detalhadas, o primeiro capítulo do livro nos obriga a acompanhar com lupa o trajeto de um menino em uma "Caloi Cross aro 20 com freio de pé", que desbrava sem medo o ambiente familiar da Esplanada, loteamento residencial em Porto Alegre. No capítulo seguinte, esse menino retomará como Hermano, um cirurgião plástico bem de vida, casado e com filha. Às 6h08 da manhã, esse homem deixará a casa e seguirá "on the road" com o objetivo de escalar um cerro boliviano. Mas a viagem do livro é interna, feita quase que inteiramente por um embate com lembranças, pela tentativa de entendimento com opções e crises do passado.
Em um primeiro momento, o livro alterna essas duas histórias - a do garoto e a do homem - como se elas corressem de forma independente uma da outra. Em um pólo, estão as aventuras do adolescente às voltas com jogos de futebol, festinhas e conversas aparentemente descompromissadas com colegas. No outro, uma jornada existencial de um homem que, apesar da aparência de uma vida estável, descobre-se preso a uma antiga indefinição de identidade. É do jogo entre esses dois tempos que Galera ergue uma reflexão firme sobre autoconhecimento e independência. O escritor não precisa roubar os lugares-comuns dos textos orgulhosamente apressados que viraram praxe na internet - ele mesmo vê a realidade de uma forma picotada, como uma série de eventos fragmentados e "janelas" que se abrem para flashes de memórias, sonhos e divagações.
Cinema vivo
Não apenas a forma do livro guarda um entendimento profundo (e revelado com naturalidade) da época em que vivemos, mas os personagens também passeiam por um ambiente que Galera conhece intimamente: os anos 90. Para o autor, é possível descrever elaborados perfis psicológicos a partir de uma partida de videogame e de competições de downhill, em que meninos se atiram em tombos espetaculares de bicicleta. Nesse enviesado retrato de geração, vale elaborar metáforas tiradas de filmes de ação como Mad Max, enumerar em lista extensa equipamentos de alpinismo, enfileirar referências a histórias em quadrinhos, a novelas da Globo e a discos de Led Zeppelin. "Estou determinado a incluir videogames em tudo que escrever, pelo resto da minha vida", avisa Galera, no blog Rancho carne (www. ranchocarne.org/blog).
Esses objetos de cultura pop não existem apenas no dia-a-dia de Hermano e no imaginário de Galera; mas estão integrados na forma como os personagens do livro entendem a realidade - com o distanciamento de quem percebe que ocupa o papel de ator em um filme que calha de ser a própria vida. Muito apropriadamente, o livro é aberto com um comentário do hollywoodiano Nicolas Cage que praticamente sintetiza essa "visão cinematográfica" da existência: "Eu caminhava para a escola e ia imaginando planos em que uma grua subia aos poucos e me via lá embaixo como um pequeno objeto no meio da rua, caminhando para a escola." Mais adiante, o narrador reforça a idéia. "Era como se ele mesmo se destacasse do corpo para se tornar o observador. Era ele quem operava a câmera, quem saía de cena, atravessava a membrana entre a realidade e a imaginação e escolhia uma cadeira na platéia vazia de um cinema escuro." O filme de Mãos de cavalo, mais que um mix de Michelangelo Antonioni com Conta comigo, tem como clímax uma idéia assustadora: a de um futuro indefinido, a ser construído com dor e sangue.
GALERA, DANIEL Daniel Galera nasceu em 1979, em São Paulo, e viveu a maior parte do tempo em Porto Alegre. É um dos criadores do selo editorial Livros do Mal, pelo qual publicou 'Dentes guardados' (2001) e 'Até o dia em que o cão morreu' (2003). Teve diversos textos adaptados para teatro e cinema.
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