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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
- 14 x 21 cm
1ª Edição
- 2008
112 pág.
Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de 'Órfãos do Eldorado' - a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, mas também a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base da seiva da seringueira, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico.
Opinião do Leitor:
Giovanni Lopes de Farias / Data: 28/2/2009 Conceito do leitor: | (opine)
Submissão destrutiva
O conteúdo desse trabalho de Hatoum é precioso e leva o leitor a um estado de excitação desde o início. O autor vai abrindo a trama dos conflitos num só fôlego, mostrando a luta surda de Arminto contra a figura amada/odiada do pai (Amando) e a fragilidade daí resultante que o conduzirá irremediavelmente à destruição, financeira e afetiva, ao envolver-se num affair com Dinaura. É difícil conter a expectativa de uma reação positiva, ou seja, é quase impossível poder aceitar a inexorabilidade do destino (maktub), a passiva atuação dos personagens (Arminto, Esteliano, Florita), como se órfãos de um agente aglutinador e capaz de organizar afetivamente. E todo esse enredo vai sendo conduzido com maestria pelo autor num poema curto, mas carregado da dor mais cruel, a dor suicida.
Paula Cajaty / Data: 6/2/2009 Conceito do leitor: | (opine)
deliciosa Manaus
O folclore renasce à sombra de um jambeiro nas lendas de Milton Hatoum, autor que se destaca pelo resgate da literatura clássica, num cenário em que reina a empáfia superficial e imotivada da vanguarda.
Sua letra hipnotiza novamente, num discurso que acompanha o ritmo da respiração entrecortada, enquanto os olhos famintos atravessam a multiplicidade e profundezas de frases bem talhadas.
O cenário é o mesmo, a Amazônia decadente e perdida no século XX, relembrando 'Dois Irmãos' em seus cheiros, climas e sabores. O centro da história é novamente o desencontro e o desfiar de segredos que se revelam surpreendentes, aos poucos, no passar das páginas.
De fato, 'Órfãos do Eldorado' não guarda a mesma exuberância de Dois Irmãos, essa sim uma obra preciosa, quebra-cabeças intrincado em que todas as personagens se inter-relacionam de forma intensa e particularizada.
No livro enxuto, Hatoum optou por abrir mão da complexidade sem, no entanto, perder de vista a dramaticidade e a carga poética e fluência levemente regionalizada que definem e individualizam seu romance.
A novela se inicia com uma profunda mágoa entre pai e filho que não dissipa no passar do tempo. Enquanto Manaus e a fortuna de nome e das posses da família Cordovil se afundam, Arminto vai contando sua vida de amores e miragens, de feitiços e vinganças sem razão, onde uma cidade é capaz de enlouquecer e desperdiçar vidas, onde a noite é capaz de turvar a memória, escurecer a alma, até que um canto de pajé - ou o fim da história - as acorde do transe.
Além do pequeno-grande romance, duas pérolas para o deleite do leitor: na abertura do livro, a citação do romance 'A cidade', de Konstantinos Kaváfis (1910), deixa entrever a tristeza de quem se aferra a lugares e arruina a própria vida na covardia imóvel de quem não consegue mudar; no Posfácio, Hatoum rende sinceras homenagens às histórias, lendas e mitos que compõem a simbiose entre a infância dos netos e a velhice dos avós, os primeiros, ávidos por magias e surpresas que prendam seus espíritos desassossegados num suspense dramático, os últimos, experientes, mágicos e suficientemente solenes para domar o tempo, o medo, e a arte de alimentar a eterna e incurável fome de encantos.
Wilson Kazuo MIzutani / Data: 30/6/2008 Conceito do leitor: | (opine)
Opinião
O autor lembra o estilo de Machado de Assis, mas não é o meu preferido, apesar de ser bom.
Jornal do Commercio (PE) /
Data: 22/3/2008 O amor em tempos utópicos
Órfãos do Eldorado, novo trabalho de Milton Hatoum, mostra o maravilhoso em um texto de enorme beleza
Schnider Carpeggiani
A cidade fictícia é uma constante da literatura. É a utopia de um território que seja todos e nenhum ao mesmo tempo, onde a ordem é invertida e tragédias são verticais. Mas a construção de um novo mundo não pode perder um mínimo vínculo com o real. A sedução da utopia é que possamos visualizá-Ia, ainda que por definição ela não seja plausível. Foi o que William Faulkner fez com sua Yoknapatawpha, Juan CarIas Onetti com ,Santa Maria e (obviamente) Gabriel García Márquez com Macondo, tão antiga que faltavam palavras para as coisas serem nomeadas.
A geografia como criação literária é o ponto de partida para "Órfãos do Eldorado", mais recente novela do escritor amazonense Milton Hatoum. Desta vez somos, levados para a fictícia Vila Bela, localizada entre Manaus e Belém, território recorrente em sua criação. Mas que ninguém pense em regionalismos: é que as histórias simplesmente precisam de cenários, cores, clima e texturas para fazerem sentido. A trama não existe para justificar a geografia: ela que é tragada pela força da narrativa.
Em Vila Bela, nos deparamos com o mito do Eldorado, transposto para as Américas com a colonização espanhola. Mais uma vez, o mito se converte em tragédia: Hatoum narra a história da decadência econômica da Amazônia pelo olhar de um homem que perde ao mesmo tempo a herança do pai e o amor da sua vida. Relato privado que forma o inconsciente de um povo.
Quem conhece os livros anteriores de Hatoum (Cinzas do Norte, Dois irmãos e Relato de um certo oriente, todos ganhadores do Jabuti), sabe que da memória sua ficção é feita. "Lembrança é só um outro nome que usamos para imaginação", destacou o autor. No posfácio de "Órfãos do Eldorado", Hatoum explica que sua novela é a reminiscência de um relato.
"Num domingo de 1965, quando ainda não havia TV no Amazonas, meu avô me chamou para almoçar na sua casa. Eu nunca recusava esses convites, pois sabia que, depois de comer os quitutes preparados pela minha avó, ele me convidaria para conversar à sombra de um jambeiro. Na verdade, era um monólogo, que eu interrompia apenas com perguntas", lembrou o autor no posfácio, com uma riqueza de detalhes que deixa claro que a imaginação é uma eterna invasora.
Mas como é a relação de Milton com a memória? "A gente só pode lembrar direito do que esqueceu. Acho que isso descreve bem o meu trabalho. Eu não poderia escrever coisas distantes da minha vida, porque o texto soaria falso. Mas nem tudo o que escrevo aconteceu comigo, certas memórias são coletivas. É uma memória histórica".
"Órfãos do Eldorado", o maravilhoso (no sentido do inicial, do improvável) parece estar prestes a romper em meio ao cotidiano a qualquer momento. Não há separação entre o plausível e o mitológico. Isso vem claramente das lendas que formaram o caráter dos personagens. Lendas que o autor repassa ao longo da narrativa. A paixão do protagonista por Dinaura só pode ser explicada no território da maravilha.
"No porto da Vila Bela, alguém espalhou que a órfã era uma cobra sucúri que ia me devorar e depois me arrastar para uma cidade no fundo do rio. E que eu devia quebrar o encanto antes de ser transformado numa criatura diabólica. Como Dinaura não falava com ninguém, surgiram rumores de que as pessoas caladas eram enfeitiçadas por Jurupari, deus do Mal" , amaldiçoa a narrativa.
"Órfãos do Eldorado" faz parte da coleção Mitos, publicada em vários países (aqui no Brasil pela Companhia das Letras) . A encomenda fez o autor desengavetar a trama que passava pela sua cabeça há 20 anos. Nesse texto enxuto, dinâmico e cheio de passagens luminares que nunca descambam ao artficial, Hatoum deixa claro por que é hoje o escritor mais premiado do Brasil.
Para o futuro, Hatoum pensa em escrever as lembranças/invenções do período em que passou em São Paulo, nos anos 70. O problema é que a década é ainda "muito próxima" ativar sua imaginação. "Eu posso esquecer tudo em relação àquela época, menos a brutalidade da ditadura", completou.
HATOUM, MILTON Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum ensinou literatura na Universidade do Amazonas e na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Estreou em 1989 com o romance “Relato de um certo Oriente”, seguido de “Dois irmãos” (2000), ambos ganhadores do Prêmio Jabuti de melhor romance e publicados em oito países.
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