O Tremendão está de volta com o CD “Rock’n’Roll” e o livro “Minha Fama de Mau”. No próximo dia 27, Erasmo apresenta-se no Teatro do Bourbon Country
Erasmo Carlos sempre comentou que um dos métodos de composição preferidos por ele e Roberto Carlos era o de contar histórias, na forma de canções como O Portão e Cavalgada.
– Desta vez, escrevi um conto beeeem grande – avisa o Tremendão, por telefone, do Rio.
Ele se refere às 360 páginas do livro Minha Fama de Mau (Objetiva, R$ 44 em média), uma coleção de pequenas crônicas que contemplam a infância de Erasmo no bucólico bairro da Tijuca, no Rio, passam pelas trepidantes tardes de domingo da Jovem Guarda, revelam detalhes da convivência com o Rei Roberto, narram abundantes aventuras sexuais com chacretes e fãs, rememoram episódios como a prisão de Caetano Veloso, em 1968, e o desbunde riponga dos anos 1970.
– Mas não é biografia, bicho. Autobiografia é ainda pior. O cara tem a tendência de se glorificar. É um livro de memórias – define Erasmo.
Ele avisa também que as histórias tristes – a morte de sua mãe, o suicídio de sua mulher, Narinha, ou mesmo a briga que interrompeu a parceria de Roberto e Erasmo por alguns meses – ficaram de fora ou receberam poucas linhas. A ideia sempre foi a de escrever um livro no espírito “é preciso saber viver”:
– Me desmanchei chorando quando escrevi o que é alegre, imagina se escrevesse sobre o que é triste. Seria uma cachoeira.
O que talvez desperte mais curiosidade é frestear como Erasmo e Roberto compõem juntos. O Tremendão diz que eles brigam e se xingam com a intimidade de dois amigos que chegaram a entrar fisicamente em brigas para defenderem um ao outro. Algumas histórias: quando terminaram A Montanha, Roberto e Erasmo choraram e convocaram um vizinho do Rei para ser o primeiro a ouvir a nova canção. Ao concluírem Cavalgada, os parceiros ficavam brincando sobre qual seria a conversa entre as estrelas ao observarem o entrevero entre os dois amantes da canção. Para compor Ilegal, Imoral ou Engorda, o veículo foi o telefone – Roberto estava em Los Angeles, Erasmo, no Rio.
No final, fica a certeza de que a fama de mau é só uma brincadeira – Erasmo é, aos 68 anos, mais moço que um menino, o tal amigo de fé.
Dizem que as canções que marcaram a infância são determinantes para o gosto musical do adulto. Não no caso de Erasmo Carlos. Quando criança, o que frequentava o rádio de sua casa no subúrbio carioca eram as vozes românticas de Luiz Vieira, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves e músicas eruditas durante a Semana Santa. Mas o que que marcou mesmo o gosto do Tremendão foi ouvir Bill Halley, seus cometas e seu rock’n’roll.
– Por isso é natural que meu novo CD seja Rock’n’Roll (Coqueiro Verde, preço médio R$ 30)– diz Erasmo. – Nada comigo é forçado.
O método de composição de Erasmo está afinado com esta simplicidade: ele compõe a melodia balbuciando uma letra em “inglês que ninguém entende”, depois grava uma demo com violão e bateria eletrônica. O passo seguinte é ele mesmo escrever a letra ou repassar a gravação para letristas – no caso de Rock’n’Roll, os eleitos foram Nelson Motta, Nando Reis, Chico Amaral (autor de várias letras do Skank), Patricia Travassos e Liminha. Roberto Carlos é o único com quem Erasmo compõe fisicamente junto:
– Temos intimidade para isso. Com os outros, passo a melodia e dou liberdade para eles escreverem sobre o que a minha melodia sugere.
Os temas, então, surgem: em Cover, Erasmo brinca que é seu próprio cover, discutindo a confusão que as pessoas fazem entre artista e pessoa; em Celebridade, o que surge quase visualmente são as quase-famosas rebolando na praia; em Olhar de Mangá, Erasmo prossegue na eterna busca de entender a mulher; Noite Perfeita, talvez a melhor do CD, com letra de Chico Amaral, transporta o ouvinte a uma esquina da Tijuca, em meio a uma roda de adolescentes tocando rock no violão e sonhando em ser astros. E como resistir a Erasmo descrevendo um Encontro Às Escuras, se colocando no lugar de Da Vinci para pintar a cena?
– É Rock’n’Roll graças ao talento de Liminha (produtor do CD). Na maioria dos meus discos, os músicos acabam transformando as minhas canções em algo diferente. Desta vez, Liminha disse que queria “A minha raiz, o que só Erasmo tem”.
A resposta – o que só Erasmo Carlos tem – se ouve ao longo de 12 faixas: pouca voz, mas muito estilo. Rock’n’roll de gente grande.
RENATO MENDONÇA