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Historia Do Mundo Em 6 Copos

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Autor: STANDAGE, TOM
Editora: JORGE ZAHAR
Assunto: CULINÁRIA - BEBIDAS

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Ficha Técnica Saiu na Imprensa

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2005

256 pág.
Sinopse

Tom Standage escolhe um ângulo inusitado para analisar as civilizações - as bebidas. Em seis copos, o autor mostra como a cerveja, o vinho, os destilados, o café, o chá e a Coca-Cola influenciaram os rumos da história mundial e definiram políticas e práticas sociais. Da pré-história à era da globalização, as sociedades elegeram diferentes bebidas e tiveram suas trajetórias fortemente ligadas a elas.
Saiu na Imprensa:

Gazeta Mercantil  /   Data: 29/12/2005
Um gole de História
Livro conta como a cerveja, o vinho, os destilados, o chá, o café e a Coca-cola transformaram as sociedades

Alexandre Staut

Desde o Iluminismo, historiadores tentam decifrar aspectos socioeconômicos da humanidade das mais variadas formas. Alguns valem-se de expansões geográficas, outros da produção intelectual e dos avanços da ciência, e outros, recentemente, do mercado globalizado. Tom Standage , editor de tecnologia da revista "The Economist", escolheu uma maneira' bastante inusitada de analisar as civilizações: ele o faz por meio de bebidas.

No livro História do Mundo em 6 Copos , o autor apresenta teses de como a cerveja, o vinho, os destilados, o café, o chá e a Coca-Cola influenciaram os rumos da história, definindo políticas e práticas sociais.

Para o autor, todas estas seis bebidas tiveram conexão com o fluxo da História de uma forma mais intrínseca. Sua proposta relaciona quem bebia (e bebe) o que, onde e por que, mostrando a ligação desses líquidos – três deles alcoólicos e os outros três contendo cafeína - com campos aparentemente desconexos, tais como filosofia, agricultura, religião, medicina, tecnologia e negócios. Para isso, o autor discorre como essas bebidas assumiram funções 'variadas, servindo de moeda de troca a meio de inspiração artística.

A primeira fonte da qual bebe o autor remonta há quase 10 mil anos. Um pictograma mesopotâmico traz duas pessoas bebendo cerveja com canudos de junco em um jarro de barro. O líquido dourado oferecia uma alternativa para o suprimento da água contaminada dos rios Tigre e Eufrates devido ao grande agrupamento humano na região.

Segundo o autor, a cerveja não foi inventada, e sim descoberta. Sua história confunde-se com a história da humanidade, que naquele momento deixa de ser nômade, passa a cultivar cereais e se agrupa em formas complexas, dando origem aos primeiros assentamentos permanentes e formando as primeiras cidades de que se tem notícia. Foi a dificuldade de se armazenar cereais em locais à prova d'água que fez com que tais sociedades descobrissem que, embebidos no líquido primordial, os grãos transformavam-se num mingau efervescente e agradavelmente embriagante.

Importantes descrições sumérias das sociedades do Crescente c Fértil mostram que já naquela é época a cerveja tinha uma importante função social e econômica. Os primeiros documentos a escritos deste povo representam listas salariais e recibos de impostos nos quais a cerveja - que passa a ser um meio de pagamento - é simbolizada por um recipiente de barro.

Tanto no Egito quanto na Mesopotâmia, a cerveja, e sua forma sólida, o pão, tornam-se mais do que alimentos básicos. Passam a ser moeda, dando origem a castas sociais. Registros indicam que membros de posição inferior na força de trabalho do templo sumério recebiam uma sila (medida equivalente a 850 g) da bebida por dia, enquanto que os senhores da corte aproximadamente cinco Silas.

Mas se a origem da cerveja está perdida em tempos remotos e é rodeada de mitos e lendas, a fabricação de vinho é relatada por meio de evidências arqueológicas. Tais documentos sugerem que a bebida nasceu na montanha de Zagros, entre 9 mil e 4 mil a.C., na região que corresponde hoje à Armênia e ao norte do Irã, locais onde prosperavam videiras selvagens. Algum tempo depois a cobiçada receita do vinho espalhou-se pela Grécia, Anatólia (atual Turquia), Levante (atual Síria, Líbano e Israel) e Egito.

O consumo, porém, era restrito às elites, pois o clima da região não era adequado para a produção em larga escala. "O acesso ao vinho era marca de posição social", diz Standage. "É o vinho e não a cerveja que é servido em banquetes. Um exemplo da duradoura associação da bebida com status, poder e riqueza", completa o autor.

Mas é a Grécia que vai cultuar o vinho como bebida das elites, e é lá que o suco de uva fermentado passa a ser considerado a mais civilizada e cool das bebidas. "O entusiasmo pela competição civilizada e a superioridade presumida da Grécia sobre os estrangeiros eram visíveis no amor do grego pelo vinho", diz Standage. A bebida foi, assim, relacionada naquela região com a introdução dos fundamentos da política, filosofia, ciências e das leis ocidentais modernas.

Bebedores reuniam-se para "debates divertidos e competitivos tentando superar um ao outro em inteligência, poesia ou retórica", completa o autor. Essas reuniões eram chamadas de symposiae representavam situações de festas que eram consideradas o auge da sofisticação social e um incentivo ao hedonismo. Por isso, até hoje a bebida é lembrada e tomada em festas ou em grandes comemorações (leia mais no texto abaixo).

O exemplo mais conhecido de elogio a esses encontros está no livro clássico de Platão, "O Banquete". A inspiração para a obra teria ocorrido em uma noite regada a vinho, na qual se discutia o amor. Na reunião, da qual participava Sócrates; Platão vê seus convivas caírem no sono. O único que permanece inalterado é Sócrates, descrito por Platão como um "bebedor ideal" – aquele que busca a verdade ao beber o vinho, sem jamais perder o controle sobre si mesmo.

Bebidas destiladas nasceram na cidade mais culta da Europa no fundo primeiro milênio após o nascimento de Cristo. Não foi Atenas, nem Roma que acabou importando o gosto pelo vinho da Grécia, mas Córdoba, a capital da Andaluzia, então sob ocupação árabe.

Standage ressalta que num momento em que a sabedoria grega perdera-se na maior parte da Europa, acadêmicos árabes de Córdoba desenvolviam o astrolábio e a álgebra. Além disso, foram os pioneiros no uso de ervas como anestésico. O vinho destilado foi utilizado na região justamente com esse intuito.

Em uma noite fria de 1386, médicos da realeza foram convocados a curar a febre de Carlos II de Navarro, conhecido por "Carlos, o Mau", depois de uma jornada de orgia sexual. Os médicos enrolaram o corpo do governante com um pano embebido de uma mistura mágica: vinho destilado. O tratamento foi um desastre: um criado esbarrou em uma das velas incendiando o rei.

Somente durante o século XV que o líquido ganha outra função, passando a ser também uma bebida recreativa, com alto poder de embriaguez.

A ascensão dos destilados, assim como do chá, está relacionada à época das grandes navegações, quando exploradores europeus abriram caminhos marítimos pelo mundo. A hegemonia financeira da época transfere-se do sul da Europa para o norte, e é então, encabeçada pela Inglaterra.

Colonizadores ingleses que chegaram a Barbados em 1627 estabeleceram a' plantação de cana-de-açúcar como a atividade mais importante da ilha, desenvolvida com o trabalho escravo. Os plantadores de Barbados descobriram que o subproduto da cana podia ser fermentado, obtendo-se uma bebida mais barata que a cerveja e o vinho. Foi inventado assim o rum. E com ele surgia uma nova moeda. Como relata Standage no livro: "O rum podia ser usado para compra de escravos, com os quais se produzia açúcar, cujos resíduos podiam ser transformados em rum para comprar mais escravos, e assim por diante". O Império Britânico expandia cada vez mais seus territórios - estava presente da Índia ao Canadá, passando pela China, tomandose a primeira superpotência do globo. Em 1773, a Inglaterra adota um pioneiro sistema de manufatura e, nas grandes fábricas recém-inauguradas, os trabalhadores eram agraciados com xícaras de chá trazido da China. "A bebida servia de combustível para operários das novas fábricas", segundo Standage.

A nova bebida, de início, era um item de luxo. Por exemplo, o "chá das cinco" é associado a Catarina de Bragança, esposa de Carlos II, que introduziu o chá na Corte inglesa. "Não é exagero dizer que quase ninguém na Inglaterra tomava chá no começo do século XVIII, e que quase todos o tomavam no fim do mesmo século", escreve Standage.

Mas antes do apogeu do chá, foi o café - uma outra invenção do mundo árabe -, que esteve relacionado à sobriedade, sendo coroado como a bebida da "Idade da Razão".

"Há várias histórias românticas sobre a descoberta do café. Uma delas fala sobre um criador de cabras etíope que notou que seu rebanho ficava particularmente mais alegre depois de consumir as frutas marrom-avermelhadas de uma determinada árvore", diz o autor. A bebida teria se tomado um antídoto no mundo árabe contra o "doce veneno das uvas traiçoeiras que inunda nossa própria razão e nossas almas" e contra a cerveja, a "obscura bebida forte que sitia nossos cérebros".

Em sua tese, Standage diz que a abertura de cafés públicos pela Europa funcionaram como bolsas de informação para cientistas, homens de negócios, escritores e políticos. "Nestes lugares, pelo preço de uma xícara de café, podia-se ler panfletos, informar-se sobre negócios, conversar com fregueses, fechar negócios ou participar de debates literários ou políticos."

Na cosmopolita Paris de 1750, os primeiros cafés públicos são identificados com o nascimento do Iluminismo. Voltaire teria ampliado o racionalismo científico para esferas sociais e políticas bebericando o líquido negro em algum café da capital francesa. Já Denis Diderot costumava dizer que o Café de La Régence funcionava como seu escritório. Em suas memórias, ele apontou que sua mulher lhe dava uma mesada diária para que pudesse passar a tarde no café do qual era cliente.

A Coca-Cola, a última bebida analisada por Standage, é entendida pelo autor como a mais globalizada dos líquidos inventados pelo homem. Criada em 1886 pelo farmacêutico John Pemberton, a refrescante bebida logo tornou-se símbolo de modernidade e de liberdade pessoal.

"A soda misteriosa da qual não se sabe ao certo sua receita até os dias de hoje, é um dos principais indícios de que o consumismo e o industrialismo criados na Inglaterra obtiveram o auge nos Estados Unidos", diz o autor. Hoje em dia, o nome Coca-Cola é a segunda expressão mais compreendida no mundo depois de "ok". Sua marca vale, atualmente, nada menos do que US$ 70 bilhões.

Completando sua linha de raciocínio, de forma coerente, Standage, no epílogo do volume, volta atenções à água, a primeira bebida a direcionar o curso da história humana, e que, após 10 mil anos, está de volta à pauta do dia. “Cada vez mais, ela parece ser fator determinante da geopolítica mundial”, conclui.


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