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Ficha Técnica Saiu na Imprensa

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Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2003

Saiu na Imprensa:

Correio Braziliense  /   Data: 3/5/2003
Textos corrompidos
Antologia de contos paulistanos é carta de intenções da literatura urbana brasileira

Sérgio de Sá

Produto

PS:SP é própria ao seu tempo. Isso quer dizer que ela vem embalada por marketing, que está descolada do apoio estatal, que tem apelo visual. Antes de ser uma revista literária, é um portfólio. Ou, ironicamente, um book. Os 12 escritores reunidos no produto foram clicados por J.R. Duran, o fotógrafo das mulheres peladas de Playboy. Aqui ninguém tem pudor de se mostrar.

E isso não tem nada de mau. Há uma compreensão bastante profissional de que literatura é também visibilidade. Duran, que colaborou gratuitamente no projeto, e a designer Tereza Yamashita assinam a revista, colocam seus nomes entre os autores. Porque os editores-escritoresNelson de Oliveira e Marcelino Freire (dupla de criação?) conhecem bem os meandros midiáticos, a necessidade de exposição.

Principalmente Nelson de Oliveira. Em torno do autor de Naquela época tínhamos um gato e A maldição do macho gira a turma paulistana que escreve em PS:SP. Também organizador da coletânea , que teve razoável repercussão, e de Geração 90: manuscritos de computador, Geração 90: os transgressores a ser lançada na Bienal do Rio, Nelson é o homem-literário contemporâneo por excelência. Tem presença constante na mídia. Escreve coluna, resenha, articula, junta gente. Na maioria dos casos, escritores nascidos nos anos 60 como ele. Uma geração que não tomou qualquer susto com a indústria cultural.

A cultura de massa não vinha chegando. Já estava. Essa geração prefere uma literatura que seja transparente (o parêntese em PS:SP vai para Luiz Ruffato e sua prosa de vôos experimentais e riscos vocabulares). Essa geração não vai perguntar que diabos significa a pergunta: ‘‘Você quer trocar um carro zero por uma caixa de fósforo vazia?’’ Muito menos a resposta: ‘‘Siiiimmmm!’’ Essa geração também está de acordo com o mercado na era do ‘‘capitalismo de mídia’’. Essa geração persegue, sem drama de consciência, a legibilidade proporcionada pela aproximação com uma lógica que se pode chamar de midiática.

Em post-scriptum anexado à publicação está escrito: ‘‘A revista PS:SP é a radiografia afetiva de um grupo de escritores que durante dois anos se reuniu nos bares e cafés da Vila Madalena. É uma revista bem particular, que retrata uma cena muito específica do movimento literário aqui da capital’’. Falsa modéstia, ou estratégia do local pensando no nacional. Oitenta anos depois da Semana de 22, vêm da mesma São Paulo os fatos literários que aparecem para o resto do país como os mais relevantes. Tem gente fazendo literatura fora de Sampa, claro, mas é da capital paulista que a gente tem informação recorrente, insistente, propulsora. O Rio de Janeiro está desarticulado. O Rio Grande do Sul é autofágico. Dos outros pontos, sopros solitários.

A literatura paulista pós-moderna tal como configurada pela turma do Nelson não tem medo de se aliar à publicidade, ou de percorrer outras linguagens, de romper as fronteiras do ‘‘literário’’. Prosadores, para usar termo valorizado pelo grupo, como Marçal Aquino e Fernando Bonassi estão no cinema e no teatro, no roteiro e na dramaturgia. Sabem que a esfera da literatura não se separa da máquina do mercado, máquina que gira impulsionada pelos meios de comunicação de massa.

Sentidos Em PS:SP, há um contraste nítido entre layout e conteúdo. Os escritores se auto-apresentam se auto-admirando, a foto de Duran vem tomando grande espaço, depois o texto ou os textos curtos. Mas de nada adiantaria isso tudo (mídia e literatura têm seus padrões) se essa galera não escrevesse bem. Escreve. Pra caramba. E está sempre procurando escrever melhor. Faz uma prosa punk com o que isso quer dizer de revolta e absorção mercadológica. O conto-poema Salmos, de Marçal Aquino, pode ser lido como guia. Abre assim: ‘‘O certo é que prezamos a destruição’’. A substância está nas ruínas da cidade: ferrugem, bolor, doença. Os textos são corrompidos porque assim é a vida da metrópole. ‘‘O certo é que apreciamos a destruição.’’ Detonação moral, física, das personagens da cidade e da própria cidade.

Respeitamos o desgastado, o roto, o que se esfarelou, majestoso. E esperamos. Porque algo foi posto em marcha, está a caminho.

O contraste é grande com outra coletânea de contos recém-lançada, Boa companhia, que agrupa autores de origem diversa. Como o próprio título deixa dizer, a literatura pode ser uma amiga a quem se recorre em momentos de tédio ou para fazer correr o tempo. (Vale lembrar o filão aberto no mercado pela antologia Os cem melhores contos brasileiros do século, organizada por Italo Moriconi).

Já as histórias de PS:SP, ‘‘do que vem depois do que está escrito em SP’’, não querem essa solidariedade, ou amenidades, ou mesmo felicidade. A alegria está em falta e todos os mundos andam tristes, tematiza o conto Simonal, de Marcelino Freire. Prosa ficcional não é para ser ‘‘boa companhia’’, mas inquietação. Narrativas exemplares como O meu quarto, de Ana Miranda, ou Bijoux, de Reinaldo Moraes, bem-escritas e divertidas, não teriam entretanto lugar na seleção da revista, pelo que trazem de bom comportamento.

O olhar da ‘‘(in)certa literatura feita hoje em SP’’ procura sua marca nas cicatrizes da cidade deitadas sobre o Eu — visível no conto de Bruno Zeni que se chama sintomaticamente Cédula de identidade e no qual o corte na mão contrasta com a cidade imensa. É boa a imagem. A voz do Outro subalterno também é recorrente — o vendedor ambulante de Ronaldo Bressane (Três sambas) e o motorista de táxi de André Sant’Anna (Rush), por exemplo, o que faz pensar nos bem-nascidos cineastas brasileiros contemporâneos que filmam a miséria nacional. É um mundo de gente comum, onde até mesmo os super-heróis da tevê são esculhambados — pelo sempre iconoclasta Marcelo Mirisola.

(Pequena permissão para um jogo de palavras). Esses narradores buscam no lixo e na luxúria o luxo do texto. Não se contentam com a boa história assim como, legitimamente, usam estratégias publicitárias para o reconhecimento do leitor. Também tocam as coisas sem esperar eternamente pelas benesses do estado. Para deleite do público, os 1,5 mil belos exemplares de PS:SP foram patrocinados pela iniciativa privada (a agência de propaganda AlmappBBDO, a gráfica Litokromia, responsável por tratamento de imagens, fotolito e impressão, e a empresa Votorantim Celulose e Papel).

E os outros que se reúnam para fazer o mesmo barulho.

P.S. — Apesar de tudo, talvez você nunca tenha ouvido falar dos caras contemplados nesse projeto invasor: além dos citados, Claudio Galperin e Joca Reiners Terron e a única mulher da coletânea, Ivana Arruda Leite (também a mais velha de idade, não no texto). Mas fique atento, porque eles vão entrar para o cânone da literatura brasileira. Os menos talentosos devem entrar, na verdade, pelo cano. E isso são outros quinhentos, outras histórias.


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