Carlos Herculano Lopes
O mestre Graciliano Ramos, que honrou a literatura com romances como
Vidas Secas e
Angústia, só para ficar nestes dois, costumava dizer que um texto literário só fica pronto quando está redondo, conciso, e nele não se pode tirar e nem acrescentar mais nada. Ele próprio escrevia e reescrevia seus livros quase à exaustão, e tinha horror, por exemplo, da adjetivação excessiva, que de resto não leva ninguém a lugar nenhum. Não sei se
Marcelino Freire, um pernambucano de Sertânia, mas que está "exilado" em São Paulo desde 1991, sabe desta máxima do seu vizinho alagoano e a coloca em prática, quando está escrevendo. Mas, sertanejo como ele, com certeza também tem consciência de que caldo de galinha e economia de palavras não faz mal para ninguém e ajuda, ajuda muito na sobrevivência, literária, no seu caso. É o que podemos constatar neste
Balé Ralé, um bem trançado volume de 18 contos, que ele acaba de lançar pela Ateliê Editorial, de São Paulo. É a mesma editora que, oportunamente, está republicando toda a obra de Pedro Nava e, recentemente, lançou o inédito
a.s.a - associação dos solitários anônimos, romance do também mineiro Rosário Fusco.
No caso de Marcelino Freire, que em 2000 já havia lançado
Angu de Sangue, contos, e a bem bolada
Coleção 5 Minutinhos, com textos curtos de vários autores, para serem lidos em tempo recorde, agora com
Balé Ralé, ele seguiu à risca a cartilha da síntese. E nos ofereceu histórias, às vezes secas e ásperas, como a própria terra sertaneja, que caminham entre São Paulo e Pernambuco. como o próprio fluxo humano, que sempre existiu entre estes dois estados e com todo o nordeste brasileiro. Esta economia atinge o seu clímax no conto ‘Na hora do banho’, quando um caso homossexual se desenrola em poucas palavras, entremeadas por um diálogo impecável entre um provável enfermeiro e um certo "Seu Sebastião", no qual ele está dando banho. Ou então no ágil ‘Jéssica’ no qual o autor suprimiu toda e qualquer pontuação.
Bem humorado, Marcelino Freire, que em 2001 participou da antologia
Os Transgressores , organizada por Nelson de Oliveira disse, a respeito de
BaléRalé, "que este é o livro mais
gay que já escrevi e que, com certeza. irão dizer que sou boiola". Mas arremata, sem deixar por menos, como bom pernambucano que é: "Quem sabe o próximo eu escrevo sobre cangaceiros?".