Cria da internet, novo livro de Clarah Averbuck levanta a questão: quem veio para ficar na nova literatura?
Luciene Azevedo
Quem acompanha de perto a produção da nova safra de escritores brasileiros pode se arriscar na afirmação de que o cinismo funciona como uma das máscaras reveladoras do nosso tempo e se apresenta travestido por diversos figurinos: desde a aceitação oportunista de todas as conveniências (os personagens de O invasor, de Marçal Aquino, servem como exemplo) até a postura mais agressiva de rescaldo melancólico-fracassado que desemboca na insolência e no deboche (aqui é o estilo de Marcelo Mirisola que se reconhece).
Clarah Averbuck acaba de lançar seu segundo livro,
Das coisas esquecidas atrás da estante, e sua voz literária parece querer resgatar a origem
kúnica (da mesma raiz de cão) do cinismo que lembra a figura de Diógenes, homem-cão, mendigo, filósofo grego do qual se contam muitas anedotas, dentre elas a de que ele escolheu viver em um barril. Essa aproximação se torna possível se pensarmos no leitmotiv de seus textos: mudanças constantes, amores arrebatadores (''o coração esmagado umas cem vezes'') e um vitalismo exacerbado, tudo revestido por uma seriedade pantomimicamente divertida, que rejeita os grandes objetivos.
Clarah Averbuck é um produto da internet. Investindo na explosão dos
blogs, apareceu na rede com uma espécie de diário virtual contando peripécias sentimentais e existenciais. ''Fugiu'' das faculdades de Letras e Jornalismo. Criou um
alter ego, Camila, inspirada na personagem de John Fante, de quem diz ser uma ''seguidora''. Se há alguma filiação possível, sua formação de primeiro grau é a da própria indústria cultural de massa (cinema, música e TV). Sua iniciação literária pode ter sido marcada pelo projeto editorial Cantadas literárias, da Brasiliense, que publicou na década de 80 obras de Fante, Charles Bukowski e Paulo Leminski (a ''Santíssima Trindade''). Will Self e L. F. Veríssimo podem completar a lista de referências na contemporaneidade.
O segundo livro reúne os melhores momentos do
blog e está marcado pelo aspecto dominante da prosa contemporânea: a mistura dos gêneros aliada ao investimento na experiência biográfica. Além da forma de diário, alguns textos ganham cara de crônica ou alcançam a consistência do conto. Há uma exacerbação do eu, que, superexposto, força os limites entre biografia e ficção: ''Agora já não sei mais se existiu ou eu inventei, espera, existiu e eu inventei, ficção travestida de realidade fantasiada de ficção.''
A escrita macha, desabusadamente chula, escatológica e hedonista do
Máquina de pinball, primeiro livro de Lady Averbuck, é deixada em segundo plano e arrebatada por uma espécie de pulsão de escrever a que se atribui poderes terapêuticos: ''eu não sabia que escrever era
painkiller''.
Sem que haja, explicitamente, uma proposta de valores literários, que provavelmente seria rejeitada como antiquada, reivindica-se uma postura: ''viver é temporário. Criar é atemporal''.
O que se exige do leitor aqui é um comprometimento visceral com o ego que se escreve todo o tempo (''Francamente, quem não sabe doer não merece viver'').
O humor também está presente em outros momentos (''À cadmía'') e funciona como uma peça-chave para desmontar a armadilha que é investir no projeto de contar a própria vida: ''minha vida é um filme ruim para adolescentes. Um super 8 de universitários alternativos. Uma piada daquelas que a gente faz um 'hah' no final''.
Ainda que a autora resvale, por vezes, no perfil ''adolescente deslumbrada e rejubilosa em irritante ressaca anfetamínica'', como salientou Mirisola na resenha sobre
Máquina de pinball, é preciso reconhecer que a voz de Clarah Averbuck é representativa de um outro enquadramento da literatura contemporânea.
E embora se possa colocar em dúvida o valor da produção estética ancorada por uma subjetividade-mercadoria estetizada, considerando-a como mera aderência ao pluralismo consumista dos media, é preciso superar diagnósticos apocalípticos e tentar perceber estratégias de um espetáculo performaticamente ensaiado para esquadrinhar o (in)verossímil do mundo.
Pode ser que nada disso tenha vindo para ficar (quem sabe o efêmero seja um valor a ser considerado?) e que não valha a pena apostar nessa literatura, mas o desafio está lançado: ''quem vai sobreviver desse monturo?/ perguntar é quase uma grossura'', diria Bukowski.