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Sobre Os Sonhos E Outros Dialogos


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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

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Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2009

248 pág.
Sinopse

'Sobre os sonhos e outros diálogos' reúne os diálogos entre Jorge Luis Borges e o poeta e jornalista argentino Osvaldo Ferrari, originalmente transmitidos pelo rádio, e mais tarde publicados no jornal Tiempo argentino. Ao todo são noventa diálogos travados em 1984 e 1985, divididos nesta edição em três volumes; 'Sobre os sonhos', 'Sobre a filosofia' e 'Sobre a amizade', em que o autor repassa sua obra, suas preferências literárias, sua vida entre os amigos de Buenos Aires e a Europa, e os assuntos que lhe foram caros por toda a vida, uma espécie de testamento literário, compreendendo as fixações finais de sua imaginação. Neste volume encontra-se o diálogo intitulado 'A ordem e o tempo', dois temas que comparecem prodigamente na ficção de Borges; 'Conrad, Melville e o mar', em que Borges observa que há escritores que foram capazes de sentir o mar de uma forma cabal sem nunca tê-lo visto. Também em um deles trata de Henry James e do conflito entre o mundo americano em que nasce e a Europa que deseja e adota; fala também aqui de sua admiração pelo gênero cinematográfico western que ele julga ressuscitar a ênfase épica, ou de sua relação com a obra de Dante Alighieri.
Saiu na Imprensa:

Folha de São Paulo  /   Data: 31/10/2009
Papo com Borges
Saem no Brasil três volumes de diálogos entre o autor de "O Aleph" e o jornalista argentino Osvaldo Ferrari, gravados entre 1984 e 1985, em Buenos Aires

Horacio Villalobos/Corbis

Jorge Luis Borges em biblioteca de Buenos Aires, em1973

SYLVIA COLOMBO

EDITORA DA ILUSTRADA

"O diálogo é um dos melhores hábitos do homem, inventado, como quase todas as coisas, pelos gregos. Ou seja, os gregos começaram a conversar, e continuamos desde então", diz Jorge Luis Borges (1899-1986) ao discorrer sobre a qualidade literária dos bate-papos. O tom é coloquial, as referências, como sempre em se tratando deste autor, eruditas. São assim os textos que compõem os três volumes de diálogos entre o escritor argentino e o jornalista Osvaldo Ferrari.

O conjunto é editado pela primeira vez na totalidade pela Hedra, em três títulos, "Sobre Os Sonhos e Outros Diálogos", "Sobre A Filosofia e Outros Diálogos" e "Sobre A Amizade e Outros Diálogos".

Trata-se da transposição dos mais de 90 diálogos que ambos mantiveram entre 1984 e 1985. Gravados, foram veiculados inicialmente pela Rádio Municipal de Buenos Aires. Depois, publicados no jornal "Tiempo Argentino".

"Borges já estava cego, e conversar sobre os temas que o interessaram ao longo da vida era algo que lhe dava muito prazer", disse Ferrari, 61, o afortunado interlocutor, em entrevista à Folha, por telefone. Quando começaram, a proposta era sempre pegar Borges de surpresa. "O assunto era eu quem escolhia, na véspera, mas só na hora revelava. Se por acaso ele descobrisse antes, mudávamos", conta.

Os dois se conheceram por meio de amigos em comum, os também escritores Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. Ferrari era, então, muito mais novo que Borges.

Tinha entre 35 e 36 anos, e o autor de "O Aleph", 84 e 85.

As entrevistas aconteciam na biblioteca da casa do escritor, e o tom cortês e respeitoso permeava todo o papo. Leitores de Borges não estranharão os temas tratados. São, de modo geral, aqueles que habitam a obra do ficcionista: labirintos, sonhos, mitos, espelhos, memória e literatura. A maneira como os trata, porém, impressiona pela clareza e pela objetividade. "Borges estava no momento máximo da inteligência. Tinha adquirido um imenso conhecimento e amadurecido, superado críticas e viajado. E como já estava cego há muito tempo, passava os dias em atividade de criação.

Exercitava a memória, pensava, ditava versos", diz Ferrari. O jornalista argentino conta que, apesar de não ser o tema preferido de Borges, a política o interessava naquele momento de mudanças na Argentina. O país saía de uma sangrenta ditadura militar (1976-1983), com a qual, a princípio, segundo Ferrari, Borges concordara.

"Ele dizia que um escritor podia equivocar-se. Quando os militares chegaram ao poder, teve esperança. Mas logo percebeu que não seria bom para o país e reconheceu isso."

Democracia

E como o escritor se manifestava com relação à recém-instaurada democracia? "Borges saudou-a. Queria muito que o governo de Raúl Alfonsín desse certo", afirma Ferrari. Fica evidente nos livros a peculiar relação que Borges tinha com a Argentina. Em mais de uma passagem, refere-se ao povo do país como "europeus no desterro". A desconsideração com relação ao passado pré-conquista é grande.

Por outro lado, via a condição de exílio eterno como algo positivo, principalmente para as artes, pois, assim, os argentinos estariam livres do peso de antigas tradições locais. Já o modo apaixonado como se refere a outros escritores conterrâneos -alguns de fora da província de Buenos Aires, como o sanjuanino Domingo Faustino Sarmiento, ou os que se dedicaram a retratar os "gauchos" do interior, como Ricardo Güiraldes-, deixa claro que tinha interesse em investigar a identidade argentina além dos limites portenhos.

Ao falar da fama internacional, de viagens para dar palestras ou receber títulos, Borges mostra-se tímido. "Não sei se minha obra merece essa atenção, eu acho que não, acredito que sou uma espécie de superstição", declara a Ferrari. Dessas viagens, conta também anedotas curiosas, como as ocasiões em que foi questionado se eram reais algumas de suas criações, como o Aleph ou Funes -o primeiro, um ponto que abarca toda a realidade do universo numa casa em uma rua específica de Buenos Aires, o segundo, um homem que tem memória infinita.

Disputa com a viúva

Maria Kodama é a viúva de Borges e herdeira dos direitos autorais da obra do marido. Amigos e editores a acusam de fazer mau uso do tesouro que lhe foi concedido, impedindo reedições e biografias. Com Ferrari, não foi diferente. Teve uma disputa judicial, mas o jornalista ganhou. "Meus livros são livres, como queria o próprio Borges", conclui.

Sobre o autor:

BORGES, JORGE LUIS
Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires no dia 24 de agosto de 1899. Em 1914, viajou com a família para a Europa e instalou-se em Genebra, na Suíça, onde completou o curso secundário. Em 1919, tendo se mudado para a Espanha, entra em contato com o movimento ultraísta. Ao retornar a Buenos Aires, funda com outros escritores a revista Proa, em 1922, e, no ano seguinte, publica seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires. Colabora a partir de então em 'Martin Fierro', 'La Prensa', 'Síntesis', e, mais tarde, em 'Crítica', 'Sur' e 'El Hogar'. Artigos em jornais e revistas, críticas literárias, livros de poesia, ensaios e contos completam a produção desses anos em que seu nome tem difusão no ambiente literário local. Com Ficções (contos) publicado em 1944, obtém o Grande Prêmio de Honra da Sociedade Argentina de Escritores. Logo depois, funda e dirige a revista 'Anales de Buenos Aires' (1946-1948) e preside a Sade (Sociedade Argentina de Escritores) de 1950 a 1953. Em 1955, passa a fazer parte da Academia Argentina de Letras e é nomeado diretor da Biblioteca Nacional - cargo que ocuparia até se aposentar, em 1973. Também ensina literatura inglesa na Universidade de Buenos Aires. De sua vasta produção, cabe citar obras narrativas como História universal da infâmia, Ficções, O informe de Brodie e O livro de Areia; ensaios como Evaristo Carriego, História da Eternidade, Discussão e Outras Inquisições; e doze livros de poesia, o último deles - Os conjurados - publicado em 1985. O Prêmio Formentor (compartilhado com Samuel Beckett), outorgado em 1961 pelo Congresso Internacional de Editores, lhe valeu o reconhecimento no mundo todo. Começa então a receber importantes homenagens de universidades e governos estrangeiros, assim como numerosos prêmios, entre eles o Cervantes, em 1980. Sua obra foi traduzida para mais de 25 idiomas e adaptada para o cinema e a televisão. Prólogos, antologias, traduções, cursos e conferências são testemunho do trabalho infatigável deste escritor - morto em Genebra, em 14 de junho de 1986 - que mudou o panorama da literatura universal e valorizou a língua espanhola.


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