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Crise Do Emprego, A

Uma Visao Alem Da Economia

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Autor: MOURA, PAULO C.
Editora: MAUAD
Assunto: ECONOMIA

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Ficha Técnica Opiniao do Leitor

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
3ª Edição - 1998

280 pág.
Sinopse

Além do enfoque econômico, o livro apresenta o tema sob a ótica humanista, social e psicológica da crise.
Opinião do Leitor:

Inácio Fernandes de Medeiros  /  Data:  29/7/1999
Conceito do leitor:  Conceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do Leitor | (opine)

A crise do trabalho
Muito já foi falado a respeito da crise no campo do emprego. O desemprego pode derrubar governos, como foi visto em eleições na Inglaterra e na França. Com certeza, segundo todas as análises, a questão constitui um dos mais graves, senão o mais grave, dos problemas mundiais. Só no grupo dos sete países mais ricos do mundo, o G7, há mais de 30 milhões de desempregados. E pior, as perspectivas de uma solução eficaz são cada vez mais reduzidas.
Paulo C. Moura, psicólogo por formação e consultor de empresas, em sua obra intitulada “A Crise do Emprego: uma visão além da economia” mostra muito mais do que a realidade de hoje no Brasil frente à crise mundial de emprego e o impacto da globalização. Como destaca o subtítulo, além da economia há toda uma outra ótica - humanista, social e psicológica - que deve ser apontada e analisada e que, em geral, é ignorada quando o tema é crise e desemprego.
A obra é destinada, a princípio, a todos os envolvidos com os temas trabalho e desemprego, sejam eles profissionais, executivos, políticos, administradores, professores ou estudantes destas áreas, ou de áreas afins. Analisam-se, em primeiro lugar, alguns fundamentos da questão: as dimensões do trabalho humano e os impactos sobre o trabalho vindos do novo paradigma social. O cerne da questão é o tema da segunda parte: o impacto social da globalização, as causas e formas gerais do desemprego, o fato e as repercussões da exclusão social advinda do desemprego, e, por fim, o desemprego, visto como um problema existencial. A terceira parte cuida das tentativas de solução: o que está sendo levado a efeito a esse respeito, o que as empresas podem fazer, estão fazendo ou deveriam fazer, e termina com uma visão sobre a contribuição do SENAI. O livro conclui com a perspectiva dos novos rumos: para onde vamos? É a pergunta inicial; depois, um grito de alerta: antes que seja tarde demais; e, como apêndice e remate, uma colocação filosófica sobre o primado da pessoa humana, superando os tradicionais caminhos do comunismo e do capitalismo.
A crise do emprego é um problema mundial que atinge todos os povos, ricos ou não. Como sempre, os mais pobres sofrem mais. Moura alerta que esta crise não vai ser resolvida tão cedo. Não se pode esperar milagres, nem crer na promessa dos políticos. Para que haja solução, terá que haver uma mudança maior e mais profunda em toda a sociedade. Muito do que conhecemos hoje terá que mudar; e mudar para o que ainda não conhecemos. As soluções terão que ser globais, tanto quanto os problemas são cada vez mais universais.
Moura deixa claro que a globalização, ao contrário de suas promessas de que as novas tecnologias e a abertura dos mercados permitiriam um crescimento extraordinário da produtividade, não trouxe benefícios para todos. Houve, sim, um surto de crescimento, mas seus frutos estão longe de beneficiar a todos e, em especial, aos mais necessitados. O mundo permanece dividido entre os que ganham e os que perdem e as diferenças entre eles estão se aprofundando.
Uma das conseqüências nefastas da globalização é que as relações capital-trabalho tornam-se potencialmente conflituosas. O capital é livre para se movimentar entre países, segundo as vantagens oferecidas, enquanto que o trabalho fica confinado ao país e ao meio em que cada um vive. Existe, portanto, um paradoxo a ser enfrentado pelos rumos da globalização: temos uma economia forte com salários decrescentes e isto bem pode vir a se tornar a maior ameaça futura ao capitalismo pós-moderno. As forças do mercado, tão cultuadas pelo neoliberalismo, não têm poder para corrigir esta distorção, a não ser muito lentamente. Daí uma crise social que começa a emergir, ainda que no momento esteja sob a paralisia da ameaça do desemprego. No melhor interesse do capitalismo, esta crise precisa encontrar amortecedores sociais, antes que seja tarde demais.
A questão do emprego chega a ressuscitar o velho debate ideológico entre esquerda e direita. Aparentemente, com o fim do socialismo real, a direita pretende ter obtido uma certificação de que é o caminho certo a ser seguido. Mas, como o Papa João Paulo II falou, o fracasso do comunismo não valida os erros do capitalismo.
O desemprego é mais do que o efeito de uma opção de política social e econômica. É uma forma moderna de opressão social, do domínio dos que podem mais sobre os que podem menos. Em muitos casos, as políticas em uso podem ser as piores, sem nenhuma sensibilidade social, sem qualquer preocupação com o futuro, a não ser o interesse egoísta e mais imediato dos que desfrutam privilégios à custa do sacrifício geral. Mas em outros casos, e não são poucos, felizmente, existe a consciência do problema, e a vontade autêntica de diminuir o sofrimento de tantos. O que não existe é a competência requerida, nem solução mágica, tão a gosto de certos políticos. Na verdade, o mundo está atônito e literalmente não encontra respostas inovadoras e eficazes. Todos falam na necessidade do “crescimento econômico”, como a melhor (ou única) fonte geradora de empregos. Certíssimo, só que ainda não se aprendeu a como produzir o crescimento econômico, de verdade, fora das frases feitas e das fórmulas que se arrastam desde os tempos de Adam Smith.
Enquanto o número de empregos cai mundialmente, a produtividade cresce. São novos métodos de gestão, são novos equipamentos, são tecnologias mais avançadas e mais automatizadas. Ao lado disso, movimentos como os de terceirização, redução de níveis hierárquicos, simplificação das estruturas etc., que são louváveis e necessários nesses mercados globalizados e de feroz competitividade, contribuem para o decréscimo do emprego. E não se trata apenas do desemprego conjuntural, este sim passível de pronta recuperação, tão logo a economia se aquece. Trata-se muito mais do desemprego estrutural, da extinção dos postos de trabalho – e estes não se recuperam, a não ser com o aparecimento de novos paradigmas.
Onde a resposta ao desemprego tem sido mais promissora, embora não o suficiente, é nas sociedades que conseguem incentivar a criação de micros e pequenas empresas, que são, efetivamente, as maiores geradoras de emprego, mesmo nos EUA. No Brasil, 98% das empresas são de pequeno porte e geram 65% dos empregos criados. O fato é que as pesquisas sociais demonstram que mais da metade da população jovem, entre 18 e 23 anos de idade, não têm perspectiva de obter emprego formal – emprego supostamente duradouro, com carteira profissional. Em compensação, as poucas oportunidades de trabalho concentram-se nas micros e pequenas empresas. Apenas no primeiro semestre dos anos 90, as empresas com mais de 250 empregados foram as responsáveis pela perda de um milhão de empregos para pessoas com menos de 24 anos, enquanto que as empresas com até 20 empregados apresentaram um saldo positivo de 144,6 mil novos empregos (dados do Min. Trabalho), de onde conclui-se que se as pequenas empresas são as maiores geradoras de emprego, as grandes são as principais geradoras de desemprego.
O que parece mais visível, nos dias atuais, é que o emprego no seu conceito formal e duradouro constitui um tipo de relação tendente ao desaparecimento. É claro que alguns vão persistir, mas a maioria deverá sofrer radicais alterações. Mas o trabalho – e mais especificamente a posição do trabalhador – continuará existindo, tende até a se expandir. Enquanto houver uma necessidade social verdadeira e enquanto existir a capacidade de atender a esta demanda, o trabalho persiste, mesmo que o emprego quase “desapareça”. O que ainda estamos bastante longe de saber administrar a contento é a relação de direitos e obrigações entre quem presta o trabalho e quem o recebe. Que critérios usaremos para remunerar o trabalho? Como podemos dimensionar a carga de trabalho requerida e o número necessário de trabalhadores? Muitos trabalhos serão automatizados; como coordenar sua operação e como preservar a efetividade humana nestas condições? O poder decisório continuará intocável, tal como na atualidade? Como o Estado e a sociedade vão administrar o tempo ocioso de massas “desempregadas”?


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