Primeira biografia do escritor revela dramas e generosidade, sem apelação
Caio Fernando Abreu - Inventário de um escritor irremediável, de Jeanne Callegari. Edit. Seoman, 191 pgs. R$ 28
Sérgio Nazar David
Já temos a primeira biografia de Caio Fernando Abreu. O livro de Jeanne Callegari vai entrar para a história. Em 1982, Caio Fernando Abreu publicou “Morangos mofados”, na série Cantadas Literárias, da Brasiliense. Muitos jovens daquele tempo carregavam para todo lado aqueles livrinhos de capas coloridas, de 11,5 x 21 cm. Alguns foram uma coqueluche editorial. Também “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar, apareceu ali. Depois de “Morangos mofados”, vieram “Triângulo das águas” (1983), “Os dragões não conhecem o paraíso” (1988) — ambos ganhadores do Jabuti — e o romance “Onde andará Dulce Veiga?” (1990), já agora adaptado ao cinema.
Quando morreu em 1996, Caio tinha fãs de todas as idades, seus livros eram editados no exterior. Aquele modo estranho de fazer literatura conquistara afinal o seu espaço, contra a caretice e o feudalismo dos meios literários, o que só prova que para o que tem valor sempre há lugar, seja como for, dê o mundo as voltas que der.
Após a morte de Caio foram lançados “Pequenas epifanias” (volume de crônicas, organizado por Gil Veloso, 1996) e “Cartas” (correspondência reunida e organizada por Ítalo Moriconi, 2002). Ambos só confirmam o que sobre ele disse Lygia Fagundes Telles: “escritor de paixão”. Sim, paixão pela palavra escrita, pela vida, anyway...
Caio nunca adotou os caminhos fáceis. Tematizou o amor e o desejo sexual como correntes poderosas. Foi talvez por amor à verdade que questionou o enquadra mento de sua obra na dita literatura gay. Na crônica “A mais justa das saias”, de 1987, lemos: “Quando Gore Vidal vem ao Brasil, toda a imprensa se refere a ele como ‘o escritor homossexual’ mas estou certo que se viesse, por exemplo, Norman Mailer, ninguém falaria do ‘escritor heterossexual’(...)”.
Também combateu a sociedade capitalista, segregacionista e hipócrita. Na crônica “Pálpebras de neblina”, fala de uma prostituta que chorava na Rua Augusta, “cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo”, “meio palhaça, chorava olhando a rua”. E avança: “Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. (...) Quem consola aquela prostituta? (...) Quem consola este país tristíssimo? (...)”. Já em casa, s e n t e u m a m o r imenso “por tudo, sem pedir nada de volta” e ainda assim, nada apaziguado, pergunta-se, com Caetano Veloso (a quem dedicara “Morangos mofados”), “existirmos, a que será que se destina?”.
Para Caio, para além da luta contra uma sociedade que sob tantos aspectos desprezava, estava a estranha inquietude do homem, que o faz estrangeiro em sua própria casa. O livro de Jeanne Calligari mostra tudo isto. Tem um quê daquele estilo desassombrado do Caio. Não floreia, não enfeita, vai direto aos assuntos espinhosos: drogas, sexo, a briga com Rachel de Queiroz, o testamento não cumprido, os amores, a luta contra a AIDS.
Jeanne fez um livro que tira o sono dos justos e que, sem arrogância, não se furta a interpretar e opinar, como no trecho em que arrisca um comentário sobre a vida afetiva de Caio: “Sua mania de se apaixonar por homens obviamente heterossexuais talvez fosse uma forma de defesa, de auto-sabotagem, de garantir desde o começo que não daria certo, para que assim sua liberdade e individualidade fossem mantidas intactas.” Também mostra o espírito de solidariedade de Caio, apoiando jovens escritores — através de artigos francamente positivos que assinou — e outros já com mais estrada mas nem por isso mais reconhecidos (Hilda Hilst, por exemplo).
Os pilares principais da obra de Caio Fernando Abreu estão todos nesta biografia, que é também um retrato bastante revelador de algumas das faces mais dramáticas do nosso tempo. Nada, entretanto, é espetaculoso. Jeanne fez um livro discreto e sincero, ético e sem cabotinismo. n
SÉRGIO NAZAR DAVID é poeta e professor de literatura (Uerj), autor de “O século de Silvestre da Silva: Estudos queirosianos” (7Letras)