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Interpretes Do Brasil, 3 Volumes





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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

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Livro em português
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2ª Edição - 2002

Sinopse

Volume 1- O Abolicionismo (Joaquim Nabuco), Os Sertões (Euclides da Cunha), A América Latina (Manuel Bonfim), Populações Meridionais do Brasil (Oliveira Viana), Vida e Morte do Bandeirante (Alcântara Machado). Volume 2- Retrato do Brasil (Paulo Prado), Introdução à História da sociedade patriarcal no Brasil (Casa-Grande & Senzala; Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre). Volume 3- Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil (Ordem e Progresso, Gilberto Freyre), Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), Formação do Brasil contemporâneo (Caio Prado Júnior), A revolução burguesa no Brasil (Florestan Fernandes).
Saiu na Imprensa:

Estado de Minas  /   Data: 8/3/2003
Brasil no divã
João Paulo

Entre as muitas comemorações dos 500 anos do descobrimento, uma chamou a atenção pela amplitude: a edição, em três grossos volumes e quase 4,5 mil páginas, de clássicos do pensamento brasileiro – Intérpretes do Brasil. O objetivo era o de reunir em uma única coleção a melhor reflexão sobre o que é o Brasil e sua gente. Por isso, na seleção e organização a cargo de Silviano Santiago, havia uma nítida intenção em iluminar o momento histórico, com vistas a refletir sobre o passado e apontar para a construção de novas perspectivas de nação. Farol, no lugar de espelho, como sintetizou Santiago.

Os livros, lançados àquela época, tiveram o destino das efemérides, circulando mais em mãos oficiais que nas dos leitores. Chega agora uma nova edição, expurgada do único romance que fez parte da primeira seleção (Vidas Secas, de Graciliano Ramos, com a excelente introdução de Wander Melo Miranda à obra), com dez títulos clássicos. Na verdade, se desdobrado o nome aglutinador de Introdução à História da Sociedade Patriarcal no Brasil, de Gilberto Freyre, nos independentes Casa-Grande & Senzala; Sobrados e Mucambos; e Ordem e Progresso, trata-se de um conjunto de 12 obras. A sempre criticada ciência social e histórica brasileira considerada atrasada em relação ao trabalho de europeus e americanos, tem uma clara manifestação da qualidade de um gênero aparentemente bem ao gosto nacional: as grandes sínteses interpretativas.

Há uma tradição de livros compostos com superior qualidade literária (Os Sertões, Casa-Grande & Senzala e O Abolicionismo), ousadia conceitual (América Latina, Raízes do Brasil e Formação do Brasil Contemporâneo), psicologia dos povos (Retrato do Brasil, Populações, Meridionais do Brasil e Vida e Morte do Bandeirante), além de estudos de natureza mais acadêmica (Revolução Burguesa no Brasil). Dos livros selecionados por Silviano Santiago há uma ainda uma unidade de projeto: não se trata, em nenhum deles, de obras destinadas à exaltação gratuita de pretensas qualidades tropicais ou exóticas, muito menos de autoglorificação de um destino, Com viés crítico, às vezes até desencantado, são obras que obrigam a olhar com severidade, que não esconde a boa-vontade intelectual ' para o objeto Brasil e sua gente. Entre os personagens há mais trabalhadores (ladrilhadores, faiscadores, escravos, bandeirantes, místicos, senhores de engenho, funcionários públicos etc.) que potentados ou dignatários.

Para cada livro, uma introdução escrita por um especialista. São trabalhos de natureza diferenciada. Em alguns casos, escritos especialmente para a, coleção, há um cuidado em contextualizar a obra e apresentar dados significativos da vida do autor, como o magnífico estudo de Roberto Ventura para Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou o elucidativo e erudito texto introdutório de José Murilo de Carvalho para Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Viana. Introdução igualmente competente é a de Ronaldo Vainfas para o melancólico Retrato do Brasil, de Paulo Prado, que propõe interessantes comparações com outras obras que fazem parte da antologia, criando um diálogo entre os autores. A tristeza de Paulo Prado e a alegria de Freyre.Talvez a mais estudada das obras de interpretação do País, os livros de Gilberto Freyre são prefaciados por Eduardo Portela, que destaca aspectos relacionados à linguagem ("a linguagem deixa de ser um dado externo ao conhecimento") e ao método do mestre de Apipucos ("A ultrapassagem do desejo humano conduz a uma espécie de reconstrução da realidade e da razão, para além das barreiras sistêmicas'). Há em Freyre, ao lado do estilo gozoso e da astúcia metodológica, sagacidade interpretativa em uma visão de mundo que, no entanto, não esconde um certo ar nostálgico. A leitura do menos conhecido Ordem e Progresso, no entanto, não deixa de trazer outras revelações atinentes ao Brasil urbano, bem distante do conhecido psicólogo das origens agrárias das sinhazinhas e mucamas de Casa-Grande & Senzala.

Em termos cronológicos e históricos, CasaGrande & Senzala analisa a formação do Brasil colonial a partir do estudo da família brasileira no regime de economia patriarcal. Já Sobrados e Mucambos se atendo ao século XIX, da chegada da farnilia real ao Brasil até a República, tem como foco a decadência do patriarcado e o desenvolvimento do momento urbano de nossa constituição como nação. Ordem e Progresso, cobrindo o período que vai do final do século XIX às três primeiras décadas do século passado, tem como tema a desintegração do patriarcado, a partir da transição do trabalho escravo para a mão-de-obra livre. Sinteticamente: Colônia, Império e Primeira República. À mudança de épocas entre os fatos se soma, com peso na composição da trilogia, inovações que dizem respeito ao método. Ordem e Progresso, escrito a partir de inquéritos e autobiografias, se constrói com pesquisa sociológica mais apurada: o que era intuição, muitas vezes geral, nas duas primeiras obras da Intodução freiriana se torna tratado historiográfico mais acadêmico e complexo.

Francisco lglésias, na introdução a O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco (na verdade um prólogo à edição venezuelana da obra de Nabuco, uma vez que o historiador mineiro morreu em meio aos preparativos da primeira edição da antologia), destaca que ao lado do fundador da ciência social no Brasil, Nabuco trazia inquietações filosóficas, como a compreensão do escravismo como um fenômeno que marca tanto o escravo como o senhor, como sugere a dialética hegeliana. lglésias, talvez pelo tom didático de apresentação a um público não acostumado com a história do Brasil, traça um sucinto e exato retrato das elites brasileiras no século XIX. “uma sugestão evocativa, chega a imaginar Nabuco compondo sua obra no mesmo Museu Britânico onde Marx escreveu O Capital.

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, tem uma dupla apresentação. Além do estudo de Maria Odilia Leite da Silva Dias, há o célebre prefácio de Antonio Candido, hoje praticamente integrado a Raízes, que diferencia as três grandes sínteses propostas por Sérgio Buarque de Holanda. Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior. O texto introdutório de Maria Odilia Leite mostra as influências alemãs (Dilthey, Herder e Simmel), italianas (Vico) e do modernismo nas idéias e expressão do jovem Sérgio, que lança seu livro, em que conceitua a cordialidade do brasileiro, quando tinha apenas 34 anos, num prodígio de erudição (Freyre também publicaria seu Casa-Grande & Senzala aos 33 anos).

Os demais livros que fazem parte de Intérpretes do Brasil ganharam também competente tratamento nas introduções: A América Latina, de Manuel Bonfim, por Flora Sussekind, que retoma a polêmica com Sílvio Romero para destacar a novidade do pensamento de Bonfim no contexto a intelectualidade e da historiografia da época; e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior, prefaciado por Fernando Novais, que insere o trabalho na tradição do marxismo da América Latina, sem perder a dimensão específica da construção da argumentação pradiana.

O último livro do terceiro volume, e o mais contemporâneo da série, A Revolução Burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, de 1974, é prefaciado por Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente não faz jus à sua celebridade de "príncipe dos sociólogos brasileiros". Em vez de escrever, como seus colegas de antologia, um estudo abrangente e destinado a introduzir o pensamento de seu autor, gasta pouco texto (é o menor dos trabalhos introdutórios da antologia, com apenas quatro páginas) para falar de sua leitura particular de alguns conceitos do mestre. Não é Florestan que interessa ao prefaciador, mas o que Cardoso tem a dizer sobre seu professor.

O livro de Florestan Fernandes, considerado sua opus magnum, trata dos três grandes momentos da história brasileira em que o processo de revolução burguesa se manifesta ou tem condições de se manifestar: a Independência, a Abolição da Escravatura e as décadas de 50 e 60 do século XX. Escrito já na fase mais militante da carreira do autor (depois de aposentado pelo Al-5 troca a demárche acadêmico-reformista pela intenção nítida de atuação político-revolucionária, de acordo com análise de Barbara Freitag), A Revolução Burguesa no Brasil é um livro que, mesmo escrito para público não especialista, exige muito do leitor em termos de conhecimentos sociológicos e históricos, o que certamente pedia um trabalho melhor do ex-presidente prefaciador.

Se a coletânea de textos não esgota as possibilidades de compreensão da nacionalidade brasileira (nem do ponto de vista histórico nem antropológico, como o próprio organizador deixa claro em sua apresentação). abre caminhos para novas leituras e acréscimos. que tragam à discussão, entre outros, os livros de José Veríssimo, Silvio Romero, Capistrano de Abreu, Francisco Adolfo Varnhagen, Taunay, Rui Barbosa, Alberto Torres, Roquete-Pinto, Arthur Ramos, Josué de Castro, Cruz Costa, Câmara Cascudo, Alceu Amoroso Lima, Anísio Teixeira, Dante Moreira Leite, Álvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré, Darcy Ribeiro, Raymundo Faoro, CeIso Furtado. Nilton Santos, Antonio Candido, Ferreira Gullar, Francisco lglésias, Ariano Suassuna, Wilson Martins, Evaldo Cabral de Mello, Muniz Sodré etc. etc., autores deste grande romanção reflexivo que tem corno personagem principal o Brasil.

Mesmo uma edição de tiragem maior e subsídio de empresas não foi capaz de fazer o preço da coleção cair. Mas pela qualidade editorial. excelência dos estudos introdutórios e resgate de algumas obras praticamente inalcançáveis ao público afastado da academia, trata-se de um investimento mais que valioso e lucrativo para os leitores de todas as formações.

Sobre o autor:

SANTIAGO, SILVIANO
Silviano Santiago, além de crítico, é autor de várias obras de ficção e ensaios, como 'Em liberdade', 'Stella Manhattan', 'Viagem ao México', 'Keith Jarret no Blue Note', 'Uma história de família' e 'De cócoras'.


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