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A Corte Portuguesa No Rio De Janeiro, 1808-1821

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Autor: WILCKEN, PATRICK
Editora: OBJETIVA
Assunto: HISTÓRIA DO BRASIL

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Ficha Técnica Saiu na Imprensa

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2005

328 pág.
Sinopse

'Império à deriva' recria com vitalidade narrativa e apuro histórico o extraordinário período em que o Rio de Janeiro foi a capital do Império Português. Em 1808, fugindo de Napoleão, o príncipe regente D. João VI decidiu transferir sua corte para o Brasil. Depois de dois meses de viagem em uma frota de mais de trinta navios, desembarcaram na Praça XV não só a família real dos Braganças - a princesa Carlota Joaquina, a rainha-mãe Maria I, e o jovem príncipe Pedro -, mas também uma corte de 10 mil pessoas, incluindo religiosos, ministros, militares, familiares e criados. Pela primeira e única vez na história, uma colônia passava a sediar uma corte européia.
Saiu na Imprensa:

Carta Capital  /   Data: 1/2/2006
A corte arcaica
Wilcken vê dom João VI como um estrategista, ainda que distraído, movido pela razão tirânica

Por Rosane Pavam

Este livro pertence à categoria das narrativas históricas banha­das no espírito do romance. Nela, nada se inventa, tudo se pesquisa, e o charme de quem narra quase se equivale em importância ao fato em si. Usualmente, por alguma razão, os historiadores passam distante desta forma de olhar o que passou.

Império à deriva - A corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821 é o primeiro li­vro do jornalista e antropólogo australia­no, de 40 anos, Patrick Wilcken. E é um livro bom, em primeiro lugar, por ser es­crito com inteligência, coisa que o inte­lectual Claude Lévi-Strauss alerta na ca­pa com exacerbada simpatia, embora a editora não dê o contexto de sua afirma­tiva. Outra razão é o ponto de vista origi­nal escolhido para narrar o período.

Wilcken olha para dom João VI como um estrategista político, ainda que distraído, amparado em uma razão tirâ­nica, capaz de engolir Napoleão e os conspiradores somente por achar na­tural manter privilégios para si. Não que o livro deixe de abordar as excen­tricidades conhecidas em torno do im­perador (Wilcken escreve para o pú­blico inglês). Mas é, sobretudo, a ma­neira arcaica, absolutista e portuguesa de dom João que intriga o antropólo­go. Por meio do governante, ele quer entender o país.

Ao ler o livro, sabemos por que a vinda da família real não significou uma bênção desenvolvimentista para a colônia. Os portos brasileiros abri­ram-se quando o im­perador aqui chegou, é claro, mas notadamen­te aos ingleses, e o espírito europeu soprou sua verdade, sim, mas sobre uma nação qua­se toda ela de escravos, de mentalidade ou de corpo. O desembarque deste homem-sol não foi iluminador, mas de­cepcionante para seus súditos. Ele era apenas um homem, ao contrário da mitologia sustentada na colônia antes de sua chegada. Para quem lhe era próximo, cheirava mal.

E tem mais: a estratégia da fuga não nasceu dele, foi gestada por articulis­tas quatro décadas antes do histórico 1808. Muitos contribuíram para que ela se realizasse, entre eles o egótico lorde Strangford. Wilcken, nascido em antiga colônia penal inglesa, destaca o representante da corte inglesa como quase caricatura.

Um sumo egoísta, este dom João. "O único a me tapear em todos os tempos", nas palavras de Napoleão. Um homem que era deus, casado com uma mulher a quem recusava a divindade. Ele man­teve por 13 anos o idílio brasileiro, gas­tando o que não tinha, adiando as deci­sões, fazendo com que o tempo se en­carregasse de torná-las urgentes, exer­cendo a inação como vanguarda.

E isso, porque a lógica portuguesa de con­quista assim o autorizava, contra o pen­samento europeu de então, que começa­va a negar o absolutismo. O autor sugere até mesmo que os urinóis nas salas de reuniões, a grosseria e o desacato aos ser­vis tenham sido peculiaridades daquela corte, algo que, no seu livro, carece de dados comparativos para se estabelecer.

Os portugueses acharam o Brasil em 1500, mas também em 1808. Não à toa foram notáveis conquistadores de além-­mar. Ora nos desprezaram, ora nos ele­varam, e assim mantiveram a soberania na terra arrasada. O livro detalha o horror que tinham pelos brasileiros os es­trangeiros, como o ótimo personagem Luiz Marrocos, o bibliotecário real que, depois de, inicialmente, execrar o leite das negras, pôs um escravo para lhe es­pantar os insetos enquanto dormia. Em 'O império à deriva', assistimos às bruta­lidades do príncipe re­gente dom Pedro I, no pouco descrito episódio de fuzilamento de cons­titucionalistas no prédio da Bolsa. Wilcken tem uma extensa gaveta de do­cumentos, que usa bem.

Ler este livro é en­tender por que poster­gamos nosso crescimen­to, fechamos os olhos às decisões e não tomamos o próprio rumo, mesmo diante dos no­vos tempos. Dom João VI nos ensinou a ser assim. É assim que enrolamos nossos napoleões, que deixamos a vida nos levar e nos salvamos por um triz, não raro sob as asas de um benfeitor. E isso é mais extraordinário do que, pela única vez na história, um império co­lonial ter transferido sua sede para o Novo Mundo.


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