A história foi contada pelo próprio Ruy Castro, em sua passagem pela Feira do Livro, em Porto Alegre, em 2008, em companhia da mulher, Heloísa Seixas. Depois de cinco anos dedicados a pesquisas, entrevistas, coletas de material, discografia, filmografia da cantora Carmen Miranda, Ruy Castro começou a escrever a biografia da cantora e foi surpreendido, quando tinha apenas as primeiras 80 páginas, por um câncer de garganta. Um dos papas nacionais do jornalismo entregou-se ao tratamento, mas transformou a redação de 'Carmen: uma Biografia', em parte de seu tratamento
– Eu não tinha medo de morrer, tinha medo era de não acabar o livro – comentou.
Mas Ruy concluiu, tanto o livro quanto o tratamento, e desde então já se entregou a novos projetos. Ele mesmo admite o carinho que tem pela obra, que considera um de seus melhores livros, crédito que divide com a fascinante figura de Carmen. A artista – cujo nascimento completa cem anos hoje – conquistou seu biógrafo, que buscou no livro recuperar a importância de Carmen como intérprete – para muito além do caricatural chapéu de frutas. Ruy Castro concedeu a seguinte entrevista por e-mail.
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Zero Hora – O senhor aborda em 'Carmen: Uma biografia' as origens do famoso episódio no qual a cantora retornou dos Estados Unidos e foi acusada de “americanizada” por suas interpretações em inglês e sua ligação com o cinema americano. Qual foi, de verdade, a reação do público ouvinte de Carmen e quais foram as fontes desse boato? Foi algo restrito a um círculo ou era uma desaprovação generalizada?
Ruy Castro – O verdadeiro público da Carmen nunca a chamou de “americanizada” nem isso era um pecado na época – em 1940, os EUA eram os heróis do mundo. Quem não gostou de ouvi-la falando “Hello, people!” foi a plateia do Cassino da Urca naquela noite em que Carmen tinha aceitado dar um show beneficente a pedido da primeira-dama, dona Darcy Vargas. Essa plateia era formada pelos membros da ditadura Getulio Vargas, totalmente simpática ao nazismo naquele tempo: os ministros, os militares, os empresários alemães e seus sócios brasileiros. Dois meses depois, Carmen voltou à Urca para o seu verdadeiro público e saiu consagrada.
ZH – Até se tornar a Carmen Miranda famosa pelo cinema, Carmen era a voz da música popular brasileira. Não é irônico que hoje sua imagem, a imagem do estereótipo que precisou assumir no cinema estrangeiro, tenha se tornado um ícone visual que por vezes sobrepuja a voz da Carmen intérprete?
Castro – É, é uma pena. Mas quem consegue não ser massacrado por Hollywood? Que os fãs europeus de Carmen se interessem mais pela artista internacional que ela se tornou, é até compreensível – mesmo porque eles não entendem o que ela canta em português. Mas é uma vergonha que nós, podendo ter acesso às maravilhas que ela gravou no Brasil, ainda a confundamos apenas com a comediante de Hollywood.
ZH – O senhor poderia falar um pouco da gênese da biografia de Carmen? Como o senhor a escolheu como personagem? Já havia pensado em retratá-la antes (em um projeto como Saudades do Século 20) ou houve algum episódio definidor que o fez se decidir pela cantora?
Castro – Estava tomando banho e, de repente, me deu um estalo: Carmen Miranda! Isso foi em fins de 2000. Pensei nela e em toda a minha convivência com seus discos, com sua imagem e com o amor que meus pais tinham por ela. Veio tudo de uma vez. Combinado com o pouco que eu sabia a seu respeito – mas sabia que havia uma história de sucesso arrebatador e também muito sofrimento –, e, na mesma hora, decidi que ela seria minha biografada.
ZH – É possível dizer que a carreira de Carmen e de outros artistas, como Mário Reis, se tornou possível também graças à tecnologia, ao advento da gravação elétrica que possibilitou a cantores gravarem discos sem necessidade da voz operística de um Vicente Celestino ou Francisco Alves?
Castro – Sim. O microfone elétrico ajudou a que cantoras como Carmen pudessem trabalhar. Mas é preciso saber que, sem passar vergonha nenhuma, muitas vezes ela cantou em teatros e cinemas sem microfone, e que eram feitos com acústica especial.
ZH – Ainda no campo da tecnologia, nesta era da música digital compartilhada pela rede, o senhor acredita que este seja um bom momento para facilitar uma redescoberta de Carmen por um público que dela só tem a imagem e não conhece sua importância como artista e intérprete?
Castro – Sim. Toda a discografia dela está disponível no site (www.carmenmiranda.com.br). Só não acessa – e fica maravilhado – quem não quiser.
Carlos André Moreira