Schneider Carpeggiani
Novo romance do cantor e compositor tem atraído comparações com Dom Casmurro, clássico de Machado
O marketing do romance Leite Derramado foi pensado para atrair sobre Chico Buarque comparações com Machado de Assis, o que selaria assim o status de uma carreira como ficcionista longe da unanimidade. Um jornal até dividiu o rosto dos dois numa mesma foto, acreditando (vendendo?) a ideia de forma histérica. Soa coerente: o maior escritor e o maior letrista de música popular no mesmo patamar. Soa coerente, mas letra de música pode até ser literatura (e olha que há controvérsias sobre isso, muitas...), mas (obviamente) não é um romance. As comparações partem da ideia de um narrador que passa a limpo sua vida para o leitor, como em Dom Casmurro.
O narrador de Chico Buarque nos encontra numa cama de hospital público, em delírio – “Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina”, sonha/ameaça. Ao dizer que vai sair dali, fica claro que esse não é um balanço final: estamos na metade da história, que deseja permanecer incompleta. Ele quer persistir, assim como Bentinho nas últimas páginas de Dom Casmurro.
O maior detalhe machadiano na trama, no entanto, está no que fica a nós, os leitores, reservado. Há apenas um narrador onisciente, que dá voz a todos os outros personagens. Se tudo é mentira, ilusão, delírio de um louco (e como confiar num louco? – Dúvida e trunfo maior da literatura contemporânea), é impossível saber. Da mesma forma como em Dom Casmurro: Capitu e Escobar não exercem o direito da fala. São fantoches da lembrança de um homem ciumento, e como estamos falando de um homem ciumento, é claro que houve traição. Ciúmes não são sobre dúvidas, é certificado de certeza. A dúvida maior é a nossa e só nossa – essa aí a grande sacada machadiana.
Leite derramado é mais que as lembranças ciumentas de um homem delirante (como Dom Casmurro). É sobre a persistência de uma classe social, por isso a história não pode acabar, mesmo o narrador estando às últimas. Ele vai sair dali e recuperar o lugar que lhe é reservado – “Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável, talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano”, projeta um futuro que tem apenas passado por garantia.
O romance é um raro olhar da classe alta sobre o Brasil. Ano passado, Silviano Santiago lançou Heranças, épico sobre um milionário que representa o enriquecimento do segmento privilegiado da sociedade brasileira, da Revolução de 1930 aos anos JK, da ditadura militar ao atual mercado de ações. Na época, o crítico e escritor comentou a falta de narradores da classe privilegiada do País na nossa tradição literária.
“Uma literatura que contemple uma só classe, é falsificação. O Brasil é feito de várias camadas sociais”, apontou Santiago em entrevista para o Jornal do Commercio. Temos aí uma questão machadiana. Machado de Assis já foi criticado por ser um autor que se volta (só) para as questões de “salão”. Mas ignorar é criticar, é também manter um distanciamento reflexivo. “É um posicionamento maniqueísta querer que um autor tome partido num romance. Assim como é uma bobagem querer que grandes autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa ou mesmo Machado de Assis sejam especialistas em questões partidárias”, explicou Santiago.
Inicialmente, Chico Buarque havia pensado em fazer um romance baseado na letra da sua canção O velho Francisco, sobre um ex-escravo alforriado pelas mãos do Imperador. Mudou de ideia. A questão de cor passou para a mulher do narrador, não necessariamente negra, (pior) apenas a mais escura da família. Detalhe incômodo o suficiente para promover a alegoria de desconfiança entre as classes sociais brasileiras. Essa é a mulher que dá pêsames “como se estivesse numa fila de sorveteria”. Só quem sabe conviver num salão é quem nasceu nele, mesmo que esteja agora às últimas numa cama de hospital público.
A (mercadológica) sombra machadiana atrás Chico mais que ajudar, pode atrapalhar a percepção de um romance que dá conta de um sem-fim de temas e ainda mantém a leitura em ritmo empolgante (ao contrário dos seus livros anteriores). Seria adequado encontrarmos novo slogan para o romance: esse é um Chico-escritor, enfim, à altura do Chico-letrista.
Trecho do livro - Leite Derramado
“Quando eu sair daqui, vamos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por Causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das jóias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe. Minha mulher gostava de sol, voltava sempre afogueada das tardes no areal de Copacabana. Mas nosso chalé em Copacabana já veio abaixo, e de qualquer forma eu não moraria com você na casa de outro casamento, moraremos na fazenda da raiz da serra. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom: E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes. banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito, um monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim, que virou estacionamento depois que a Embaixada da Dinamarca mudou para Brasília. Os dinamarqueses me compraram o casarão a preço de banana, por causa das trapalhadas do meu genro.
Mas se amanhã eu vender a fazenda, que tem duzentos alqueires de lavoura e pastos, cortados por um ribeirão de água potável; talvez possa reaver o casarão de Botafogo e restaurar os móveis de mogno, mandar afinar o piano Pleyel da minha mãe. Terei bricolagens para me ocupar anos a fio, e caso você deseje prosseguir na profissão, irá para o trabalho a pé, visto que o bairro é farto em hospitais e consultórios. Aliás, bem em cima do nosso próprio terreno levantaram um centro médico de dezoito andares, e com isso acabo de me lembrar que o casarão não existe mais. E mesmo a fazenda na raiz da serra, acho que desapropriaram em 1947 para passar a rodovia.”