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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
1ª Edição
- 2006
952 pág.
Fascinante história de uma africana idosa, cega e à beira da morte, que viaja da África para o Brasil em busca do filho perdido há décadas. Ao longo da travessia, ela vai contando sua vida, marcada por mortes, estupros, violência e escravidão. Inserido em um contexto histórico importante na formação do povo brasileiro e narrado de uma maneira original e pungente, na qual os fatos históricos estão imersos no cotidiano e na vida dos personagens, 'Defeitos de cor' , de Ana Maria Gonçalves, é um romance histórico, de leitura voraz, que prende a atenção do leitor da primeira à última página.
Opinião do Leitor:
Cybele Boucinha / Data: 25/9/2009 Conceito do leitor: | (opine)
Muito Mais que Ótimo !!!!!
Como negra, sempre tive a sensação de vazio sobre a trajetória do negro escravo no Brasil, sentia uma ''depressão'' étnica, por não encontrar em salas de aulas, bibliotecas ou museus algo que registrasse com tanta sensibilidade e detalhes minuciosos a nossa chegada, o massacre que vivemos, e principalmente como sobrevivemos, até chegarmos aqui e também saber que muitos retornaram. Tudo até hoje me pareceu muito vago...até eu me presentear com esta OBRA. Tão riquíssima em detalhes de nossa história, que muitas vezes ainda penso que foi ''psicografada''...obviamente não quero desmerecer o trabalho de pesquisa da Ana, mas ela nos brinda com detalhes tão minuciosos e com tanta sensibilidade que é impossível deixar de pensar. Este livro é de pai para filho, faz parte da nossa formação! Parabéns Ana Maria e que venham os próximos...
Roberto Falzoni / Data: 4/12/2008 Conceito do leitor: | (opine)
romance sensível e documento impecável
Longo romance, escrito na primeira pessoa, apresentando a vida de uma negra africana trazida escrava ao Brasil no século 19. A narrativa é impressionante, direta, detalhista e pungente. A reconstituição da escravatura, não tem paralelo, obrigatória a todos os interessados no assunto, só comparável a ''Viva o Povo Brasileiro'' de João Ubaldo ou ''Guerra do Fim do Mundo'' de Vargas Llossa, pelo seu peso documental e reconstituição artística. Esse livro já é um patrimônio literário desse País.
Leila Costa / Data: 28/5/2008 Conceito do leitor: | (opine)
Um livro que já nasceu clássico
Quero deixar registrada aqui minha admiração pela autora deste livro, que já nasceu como uma obra-prima da Literatura nacional. São 947 páginas, mas poderiam ser mais, com tranqüilidade, porque a leitura é muito prazerosa. Parabéns, Ana Maria Gonçalves, por brindar os leitores brasileiros com obra tão relevante!
Correio Braziliense /
Data: 22/7/2006 Pelos olhos de uma oprimida
Uma pesquisa aprofundada sobre o cotidiano dos negros escravos na Bahia permitiu que Ana Maria Gonçalves produzisse um retrato fascinante de um pedaço pouco explorado da história brasileira
Conceição Freitas
O livro começa com uma faca no pescoço do leitor, mas o tormento dura pouco. Kehinde é o nome da personagem principal, uma negra nascida na África de 1810. Ela assiste ao estupro e assassinato da mãe e do irmão, ao mesmo tempo ela e a irmã gêmea, de 6 anos, são submetidas a abuso sexual. Começa aí a história da menina capturada para ser vendida como escrava e trazida ao Brasil num navio negreiro. São 951 páginas que descrevem, principalmente, o cotidiano da escravidão no século 19 visto pelos olhos de Kehinde.
A autora, Ana Maria Gonçalves, é mineira, tem 35 anos, publicou antes o fininho Ao lado e à margem do que sentes por mim, e agora vem ao mundo com um romance histórico escrito a partir da senzala. A casa-grande é o outro, o branco, a sinhazinha, o sinhô. Nem por isso, é uma história justiceira. Não se move a ódio nem a patrulhamentos-histéricos de versões construídas para a vingança. Kehinde é a escrava de companhia da filha da sinhá, é a adolescente desvirginada pelo sinhô, vive dentro da casa grande e na senzala - categorias distintas de escravidão.
A escravidão contada não mais como um estudo antropológico, ela mesma descrita em sua inteira perversidade, sem perder o tom naturalista necessário para que os humanos, brancos e negros, dessem conta de suportá-la. Ana Maria Gonçalves recusa o drama cortante, o panfleto fácil; a voltagem máxima das emoções para relatar com doce tristeza, elegante frieza e sabedoria africana a vida dos negros escravizados do Brasil colonial. Na companhia de Kehinde, o leitor conhece a rotina diária dos homens, mulheres e crianças apartados de sua liberdade, descobre por que a solidariedade brota vigorosa onde a penúria é grande, fica sabendo como os escravos se organizavam, conhece os negros muçulmanos, valorizados pela cultura, por saberem ler e escrever e por pregarem a total igualdade entre os homens.
A negrinha Kehinde aprende muito com os escravos muçulmanos, os muçururnins. Participa de suas organizações clandestinas, contribui com uma espécie de cooperativa secreta que compra a liberdade de escravos, que ajuda negros fujões e que fiscaliza a chegada de navios negreiros na costa brasileira. Kehinde aprende a guerrear por sua vida, e todo dia é uma grande batalha, sempre ao sabor dos ventos sombrios da escravidão, do medo da morte, do preconceito dos brancos. Vive o amor, a maternidade, a amizade, convive com homossexuais negros, renegados pelos outros de mesma cor de pele, mora com ingleses, aprende a ler e a escrever, casa-se com um português, mora na Bahia, no Maranhão, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O título do livro vem de um instrumento legal do período escravagista que impedia os negros de alçarem funções públicas por causa da pele preta. Palmo a palmo, vai-se conhecendo o Brasil dos negros açoitados, dos rituais das religiões africanas, da resistência dos escravos, do modo como é possível encontrar um jeito de aproveitar o estar no mundo, mesmo sob circunstâncias as mais cruéis. Cada capítulo tem como epígrafe um provérbio africano ("Se alguém corre através de um espinheiro, ou persegue uma cobra ou foge dela”). São dez, que percorrem oito décadas da vida de Kehinde e do Brasil escravo.
SERENDIPIDADES
Serendipidade, no Houaiss, é "a faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso". Ana Maria Gonçalves diz que seu livro é fruto da serendipidade. Aconteceu assim, como ela mesma descreve na apresentação do livro: "...eu estava cansada da minha profissão, tinha acabado de me separar e queria vida nova, em um lugar novo, fazendo coisas diferentes e, quem sabe, realizando um velho sonho: viver de escrever". Ana Maria procurava guias de viagens sobre Cuba, quando deixou cair um amontoado de livros da prateleira. Conseguiu aparar só um, Bahia de Todos os Santosguia de ruas e mistérios, escrito por Jorge Amado. Foi a primeira serendipidade. Jorge Amado falava da revolta dos malês e dizia que alguém ainda iria contar essa história de rebelião de escravos ocorrida na Bahia no século 19.
A autora, ex-publicitária, foi parar na Ilha de Itaparica. Deu-se então a mais importante das serendipidades. Ana Maria estava fotografando uma igreja quando uma menina, filha da mulher da limpeza, se aproximou e puxou conversa. Daí, um_ foto. Dias depois, a turista teve o cuidado de ir entregar a foto às duas no endereço que elas haviam lhe dado. Encontrou então uma pilha de documentos escritos em português antigo que à mulher havia encontrado na Igreja do Sacramento, onde ela também fazia limpeza. Era uma história narrada por um escravo. Serviu de base para Um defeito de cor .
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