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Emily Dickinson - Alguns Poemas

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Autor: DICKINSON, EMILY
Tradutor: LIRA, JOSE
Editora: ILUMINURAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - POESIA

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Ficha Técnica Saiu na Imprensa

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2006

320 pág.
Sinopse

Emily Dickinson nasceu, viveu e morreu na pequena cidade de Amherst, perto de Boston, numa das regiões de tradição mais conservadora dos Estados Unidos do século XIX, e passou os últimos vinte anos em completa reclusão. Ao arrumar o quarto de Emily depois que ela morreu, sua irmã Lavinia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem. Eram dezenas de fascículos costurados e folhas soltas com uma grande quantidade de poemas, dos quais apenas dez haviam sido publicados, anonimamente e por iniciativa de terceiros, em periódicos regionais. Disposta a divulgar a obra da irmã, Lavinia entrou em contato com Thomas Higginson, crítico literário da época (hoje lembrado apenas por sua associação com a obra de Dickinson), que durante trinta anos renegou todos os versos que Emily lhe submetera, e uma obscura escritura, Mabel Todd, que por cinco anos havia frequentado a sua casa sem nunca chegar sequer a vê-la. Dessa parceria pouco promissora surgiu a publicação póstuma de um volume de poemas, seguida em pouco tempo de outras duas edições aumentadas, em vista da inesperada acolhida.
Saiu na Imprensa:

O Globo  /   Data: 28/4/2007
Vocação para a sombra
Bela tradução oferece painel significativo da obra da reclusa Emily Dickinson

Por Rodrigo Petronio

Na pequena cidade de Amherst, Massachu­setts, ao revirar o quarto de sua irmã após a sua morte, em 15 de maio de 1886, Lavinia não supunha a surpresa que lhe es­perava. Em um baú, depara-­se com pilhas e pilhas de pa­péis manuscritos, dispostos em forma de livros, os famo­sos fascicles, que computa­vam ao todo cerca de, 1800 poemas.

Mais do que uma questão de cânone ou de marginaliza­ção artística, esse anonimato quase absoluto de Emily Di­ckinson, aquela que viria a ser considerada uma das mais im­portantes poetas da língua in­glesa, nos revela que estamos diante de algo que toca o co­ração mesmo da poesia.

Pois se o poeta é aquele que abre uma clareira na noi­te do mundo, como queria Heidegger, cabe a ele susten­tar a poesia como sacerdócio, não como uma ocupação uti­litária. Só assim é possível, contra o mundo e em benefí­cio da poesia, descobrir um horizonte habitável. Só assim o seu poder de desvelamento será proporcional à sua capa­cidade de se eclipsar enquan­to indivíduo.

Poucos deram tanta dignidade à poesia

Se os deuses se foram e só nos resta esse ninho à sua sombra para sustentarmos leveza e abismo, é no adeus a toda vaidade terrena que o poema se faz mais necessário e violento. Nesse sentido, in­dependentemente do valor maior ou menor de cada poema, poucos poetas foram tão dignos desse nome e deram tanta dignidade ao ofício da poesia quanto Emily Dickin­son. A publicação de 'Alguns poemas', belo trabalho de tradução, seleção e introdu­ção de José Lira, precedido de prefácio do poeta e tradu­tor Paulo Henriques Britto, é uma ótima porta de entrada no seu imaginário.

O livro traz uma seleção de 245 poemas, e, sendo a mais extensa publicação da poeta no Brasil, oferece um painel bastante significativo dessa tapeçaria feita de si­lêncio, música e delicadeza. Além disso, é um oportuno exercício de tradução de poesia, à medida que Lira, não contente em adotar abordagens mais literais ou mais criativas, lançou mão de três modalidades possí­veis - as recria­ções, constan­tes da primeira parte, 'A áurea presença', e as imitações e in­venções, dispos­tas na segunda e terceira partes do fivro, intitula­das, respectiva­mente, 'Uma ar­ma carregada' e 'O outro céu'.

Escasseiam in­formações sobre a vida da poeta, e diz-se que ela nos deixou apenas uma­ foto. Independentemente de especulações biográficas so­bre possíveis frustrações amorosas que teriam contri­buído para a sua reclusão, que acabam subscrevendo a obra ao mito, é importante notar na própria fatura de sua poesia um movimento contrativo simbólico. Seu ei­xo é o espelhamento de 'Céu e alcova'. Às vezes, cova, quando toca o tema da exis­tência e da morte.

Não se trata de uma poesia erótica, como quis Camille Paglia, mas de poemas cujo signo maior é a finitude da carne e a redenção diáfana oferecida pelo céu, única teste­munha de toda nossa vida e, portanto, ápice da criação artís­tica para Dickin­son. Por isso, embora em seus versos célebres ela diga 'fugir do céu' e 'bus­car o inferno', só o afirma co­mo movimento descendente do espírito, tantas vezes temati­zado em diversos poemas, não como aspiração última do ser.

No fundo, temos aqui um dos mais bem acabados mo­delos de poesia alegórica. E que bebe na alegoria a sua chaga e o seu paraíso, pois é por meio dela que Dickinson descreve os finos movimen­tos de sua consciência e de seu contato com o outro, flagrado em gestos cotidianos. Casa, Porta, Prazer, Alegria, Desgraça, Amigo, Morte, Mundo, Vida, Graça, Pão Ce­leste, Dupla Perda, Sol, Cora­ção, Primavera - não estamos diante de uma enumeração mecânica que evita captar a vida pulsante do mundo, mas no cerne teatral de uma poesia que quer fazer de sua ra­dicação terrena o palco para o desfile da Eternidade, em todas as suas máscaras mais efêmeras.

Tal ambição não lhe conferiu obscuridade. Deu-lhe, pe­lo contrário, o quê de etéreo de todo gesto inconcluso. E se a poesia de Dickinson pode muitas vezes soar monocórdia, ela o faz à custa de sua própria renúncia e em prol de sua obsessão de não ser deste mundo e não ser de seu tem­po. Assim, não obseda o leitor com a repetição diversificada de uma modernidade veloz e em tudo entediante. Segue os ritmos da alma, não os desígnios caducos de uma cidade sempre em construção e sempre em ruínas.

Para quem escreve, leitores são mero acidente

Tivemos a revanche da exceção nas obras dos grandes obscuros em vida, de Sade e Pessoa a Kafka e Kaváfis. EmiIy Dickinson, que ficou conhecida como a Grande Reclusa, também exerceu sua vocação para a sombra. Ela é que a reconduziu à poesia em seu estado puro, dir-se-ia à sua nascente, a quilômetros de distância do burburinho pedante, pantanoso e despre­zível dos literati. A atmosfera de sonho que se respira em sua poesia deve muito à sua condição, o que significa que fez bem em renegar a glória. Afinal, para quem escreve para a eternidade, os leitores e a vaidade são apenas um me­ro acidente.

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