Uma prova de vida, nada mais. Um manifesto político, grito pela liberdade, suspiro de vida, nada menos. Escrito em um só fôlego, as 12 páginas que a franco-colombiana refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)
Ingrid Betancourt redigiu à família em outubro de 2007 descrevem um drama pessoal transformado em moeda de troca política. A íntegra do manuscrito e a carta-resposta de seus dois filhos estão no livro
"Cartas à mãe: direto do inferno", lançado no Brasil pela editora Agir.
"Vivo ou sobrevivo numa rede esticada entre duas estacas, coberta com um mosqueteiro e uma lona que serve de teto e me permite pensar que tenho uma casa". Os detalhes com que Ingrid descreve a vida na selva colombiana ilustram o fio de objetividade que salta de melancolia - esta, sim, imperante do início ao fim do livro.
Em plena floresta tropical, Ingrid conta que os raios de sol penetram com dificuldade e os dias são chuvosos - porque sua vida e alma estão chuvosas. Nesta prova de vida, entende-se que o limiar entre viver, sobreviver e morrer é tênue, e o desafio intensamente cansativo.
"Fui, ou tentei ser, forte. Esses seis anos ou quase de cativeiro demonstraram que não sou nem tão resistente, nem tão forte, quanto pensava. Sinto-me vencida", resume.
Do cansaço ao niilismo, Ingrid transcorre sem esforço, justamente porque não há mais vigor. Experiente na rotina de ouvir "não" para qualquer pedido feito aos guerrilheiros, Ingrid se felicita pela "vontade de não fazer nada", ainda que a frase soe estranha às concepções do desejo de filósofos como Friedrich Nietzsche e Arthur Schopenhauer.
"Acho que a única coisa boa é isto: não ter vontade de nada, para pelo menos ficar livre de desejos. A cada dia, resta um pouco menos de mim mesma", descreve.
Sua morte "seria um alívio para todos", crava a refém, explicando que a vida em suspenso que levam seus filhos na expectativa da libertação e o sofrimento diário de todo o mundo fazem com que a morte lhe pareça "uma opção amena".
Sim, amena, porque na selva o tempo é intensivo, apreende-se. "Cada segundo da minha ausência, em que não posso estar aí dedicada aos filhos, as oportunidades perdidas de ser mãe, tudo isto envenena meus momentos de infinita solidão, é como se me injetassem cianureto nas veias gota a gota", descreve.
O cerceamento de toda e qualquer potência fica claro quando Ingrid conta que faz três anos que pede um dicionário enciclopédico "para manter viva a curiosidade intelectual". O único luxo que lhe permitem ter é uma Bíblia.
"Escrevo muito pouco porque os cadernos se acumulam e carregá-los é uma verdadeira tortura: tive de queimar pelo menos quatro", conta.
Resta, contudo, muito afeto nas palavras que Ingrid confeita para dirigir-se aos filhos e à mãe, a quem dedica a carta. É o mamita utilizado pela franco-colombiana para interpelar a mãe que conduz a coesão do testamento-de-vida. "Mamita, este é um momento muito duro para mim. De repente, exigem provas de vida, e eu escrevo com a alma esparramada sobre este papel", desabafa.
Em uma ilustração de como as Farc misturam a herança de sua inspiração comunista às táticas terroristas, Ingrid conta que nos acampamentos "nada é seu, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante" porque tudo tem de estar sempre pronto para fugir às pressas.
Quando a carta chegou, Ingrid era refém das Farc havia mais de cinco anos e sua família não tinha notícia sua há quatro. Nascida em 1961 na Colômbia, Ingrid foi deputada e senadora no país, onde travou uma luta incessante contra a corrupção e o narcotráfico. Em plena campanha presidencial, foi seqüestrada pelos guerrilheiros em 23 de outubro de 2002.
As Farc têm 1.600 reféns em seu poder. Para negociar a libertação de Ingrid, mantém-se a mesma condição desde de 3 de dezembro de 2002: a desmilitarização de duas províncias e a libertação de pouco mais de 500 guerrilheiros.
A exigência faz com que os contornos políticos do drama transbordem na prova de vida. O presidente venezuelano, Hugo Chávez - empenhado nas libertações - tem a "espontaneidade e generosidade" admiradas por Ingrid que o ouve no programa de rádio Alô presidente.
Aos líderes franceses que acompanham sua história desde o início, Ingrid dedica várias páginas: "Na noite mais negra, a França foi um farol. Admiro esse povo capaz de se mobilizar, como dizia Camus, sabendo que viver é engajar-se. Eu seria incapaz de acreditar que um dia recobraremos a liberdade se não conhecesse a história da França e de seu povo. Gostaria de me sentir digna de ser incluída entre seus filhos".
A carta de Ingrid "chegou de muito longe, além do espaço, além do tempo", ilustram seus filhos Mélanie e Lorenzo Delloye-Betancourt, na carta-resposta também reproduzida no livro. Reconhecendo que o drama os fez crescer e que apenas hoje compreendem o que é ser feliz, os filhos mostram que sabem o peso político-histórico do que escrevem: "Tudo isto só depende de um punhado de homens, políticos, não mais que isso. É preciso que as Farc estejam conscientes de que sua decisão fará História".
Enquanto Ingrid não dispensou elogios aos presidentes engajados, os filhos carregaram as tintas contra o que consideram indiferença do líder colombiano, Álvaro Uribe: "Dois quilômetros a mais ou a menos para um encontro, eis o que vale a vida dos que amamos! Que relação de forças estúpida! Ele tem de compreender: ele tem o poder de fazer os reféns voltarem. E isso pode ser uma chance para ele também. Hoje, ainda podem salvá-la". Em nítido contraste à desesperança de Ingrid, os filhos concluem que esta não é uma carta de despedida, mas de reencontro: "Até já, mamãe", finalizam.
Camila Arêas