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Maniaco Do Olho Verde, O


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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2008

128 pág.
Sinopse

O tal maníaco era um homem normal, a não ser por uma estranha fixação - sexo. Doença ou tara, o fato é que bastava ser mulher para atrair seus cobiçosos olhos verdes. A fim de satisfazer seus desejos, ele sai pelas ruas à procura de sua presa perfeita. Em 26 contos, com uma linguagem mordaz e diálogos insólitos, 'O maníaco do olho verde' reúne o melhor do estilo enigmático de Trevisan.
Saiu na Imprensa:

Jornal do Brasil  /   Data: 16/8/2008
Aquela história do maior e do melhor

Por que Dalton Trevisan é feito da mesma matéria de João Gilberto: sempre os mesmos,mas diferentes

Flávio Moreira da Costa

Trevisan é faca só lâmina – do Joao Cabral.

Se a frase de Drummond – "Escrever é cortar palavras" – faz sentido para alguns escritores, não faz para outros. É, para ficar na metáfora cortante, uma faca de dois gumes. (Imaginem Proust, Joyce ou Guimarães Rosa cortando na própria carne da escrita: seriam os mesmos?)

A lâmina de Trevisan é bem afiada, e ele tem sido admirado e criticado por isso. Quem lê as primeiras edições de Novelas nada exemplares ou O vampiro de Curitiba e vai lê-las de novo, a partir das edições revistas pelo autor, pode ficar confuso. O mesmo livro ou um outro, dizendo a mesma coisa com o mínimo de palavras? Afinal, o velho (neo?) realismo já era ( Tom e Chico: "Já conheço os passos desta estrada/ Sei que não vai dar em nada... "): é preciso dosá-lo com as tintas do hiperrealismo chegando às vezes (e aqui entra o humor do autor) à quase caricatura. O velho cafajeste municipal, com dentinho de ouro, anel de falso rubi no dedo mindinho e bigodinho que disfarça o riso de vampiro suburbano; as Marias seduzidas e abandonadas, "virgens porém grávidas", e que apanham, reclamam, mas gostam.

Quanto os que o que criticam por isso tudo, ou por isso mesmo, seria como criticar João Gilberto por cantar as mesmas músicas. Sem notar que elas são as mesmas na essência, mas diferentes, porque aprimoradas, tanto nas ressonâncias da própria harmonia quanto nas reentrâncias e significâncias das letras: "Vou te contar/ Os olhos já não podem ver/ Coisas que só o coração pode entender....". (Tom, salvo erro.)

Mas aqui também a faca-só-lâmina de Dalton Trevisan tem dois lados: se um é João Gilberto pela linguagem contida, o outro gume, não menos cortante, é Nelson Cavaquinho – pelos personagens e o mundinho semi-trágico em que eles estão imersos. Há uma "luz negra de um destino cruel" envolvendo cada um deles, sem esperança e sem futuro: "Sempre só/ Eu vivo procurando alguém/ Que sofra como eu também..." - e a conclusão, sem medo do patético, é o choro/chorinho contido (contido?): "Estou chegando ao fim... ". Os contos de Trevisan são, quase sempre, se não sempre, sobre um desencontro – de um homem e uma mulher. E a solidão, e "um abismo de rosas". Aliás, os próprios títulos do autor já inscrevem seu tema: Guerra conjugal, Crimes de paixão, Desastres do amor, A faca no coração, Lincha tarado, A trombeta do anjo vingador, O vampiro de Curitiba, Meu querido assassino.

Dezenas de livros, centenas de contos e um mundo só, cuja capital é uma cidade imaginária chamada Curitiba. Como Nova York (a Broadway dos anos 30) para Damon Rubyon. Com a vantagem para este brasileiro que, aos 83 anos, (alô, alô escritores-blogueiros) é um escritor novo ou um novo escritor. Em dezenas de livros e centenas de contos, um autor surpreendentemente (se isso não for novidade e supresa, não sei não...) fiel a um gênero e a si mesmo. Mesmo que fuja da imprensa como seus pequenos meliantes fogem da polícia. Incógnito? Nem a imprensa cultural fala dele como ele merece?

Fugir por quê?

Impossível é o bom leitor de ficção fugir de um novo título de Dalton Trevisan . Fugir por que se o melhor é acompanhá-lo? Só agora começo a falar de O maníaco do olho verde ? Não, comecei antes:Trevisan não publica livros isoladamente; ele constrói uma obra. Sempre in progress. Como um Tchecov nosso, primo-irmão de João Gilberto e Nelson Cavaquinho ("Sou um rei destronado/ Sou um rei sem coroa... "). Repetitivos os 26 contos deste novo livro? Não, evolutivos; acompanham até a evolução (evolução? Bem...) dos costumes. Antes, o álcool é que infernizava e destruía a vida dos habitantes de seu mundo caído. Agora, o crack, como em "Tem um craquinho aí?", o primeiro conto.

O livro é pequeno, mas é amplo seu pequeno mundo. Acanhado, sem poesia, cruel? Vejam os inícios certeiros de alguns contos: "Esta história ai no papel não é verdade. Na época eu tive um caso com uma moça. Sentamos por acaso no mesmo banco da praça Osório. Foi como tudo começou". ("Amor de machão") Ou: "Puta, não senhor. Garota de programa. Não sei de nada. Só que fui presa". ("Garota de programa") Mais um: "O que aconteceu lá, sem mentira nenhuma, não é nada disso". ("A guria")

Não é nada disso. Sabem aquela historia (que o brasileiro adora) do melhor e do maior? Pois é, o nome dele é Trevisan.

Sobre o autor:

TREVISAN, DALTON
No dia 14 de junho de 1925, nasce Dalton Trevisan. Em Curitiba, é claro. A mesma Curitiba em que cresce e ganha a fama de 'vampiro'. A mesma Curitiba que eternizou em tantos contos - e que, justamente por isso, tem com ele um débito eterno. A mesma Curitiba cheia de mistérios. O próprio escritor é um deles: para se conceber um históricos de Trevisan, é preciso a habilidade das serzedeiras, cozendo retalhos aqui e ali, em uma ou outra reportagem, nas antigas e raras entrevistas. Fotos, só de arquivo ou tiradas à sua revelia, um zoom fortuito ou a indiscrição de um flagrante aguardado por detrás de um poste. Hermético, há anos não fala com a imprensa. Não por briga. Talvez por excentricidade. Certamente por direito. Toda informação sobre o autor é breve e autônoma, retalho que se une a outros para formar uma peça homogênea - tal como muitos de seus livros. Na adolescência, sonhava em ser campeão de atletismo, particularmente na prova dos 110m com barreiras. Formado em Direito, exerceu a função de repórter policial e crítico de cinema. Um acidente com o forno de uma olaria, em 1945, quase lhe tira a vida. Trevisan é internado com fratura de crânio, mas se recupera para editar, a partir do ano seguinte, a revista Joaquim, que dura até 1949. Em 1950, o escritor vai para a Europa. Casa-se em 1953, tornando-se pai de duas filhas. Escondeu-se no anonimato para vencer um concurso de contos no Paraná, em 1968. Gosta de filmes de bangue-bangue e de passear pelas ruas da capital paranaense. Já teve livros traduzidos para diversos idiomas, como o inglês, o espanhol e o italiano. Na Hungria, alguns de seus contos inspiraram uma série de TV. No Brasil, teve textos adaptados para o cinema e a televisão. Seus livros são editados pela Record desde 1978. Talvez isso baste. Se não, vale a recomendação do próprio autor, que garante ser sua obra seu melhor currículo. Contrariando a lenda segundo a qual a tendência do contista é partir para a novela e, em seguida, para o romance, o tempo exerce sobre o escritor curitibano uma influência inversa: a cada novo livro, seu texto é mais enxuto, conciso - magro, sem por isso ser inane. Ele mesmo apregoava, em meados dos anos 70: 'Meu caminho será do conto para o soneto e para o haicai.' Outro movimento do autor no contrafluxo é o de resistir com firmeza à vaidade de registrar toda sua obra para a posteridade. Exemplo disso é a distribuição de mini-histórias inéditas entre amigos, hábito que adotou a partir de 1989. Durante anos, seus livros ganham identidade visual criada pelo artista gráfico Poty. Depois, a parceria mudou: figuras em nanquim do dadaísta alemão George Grosz, resgatadas da Berlim do tempo da república Weimar, dão o tom apocalíptico que os escritos de Trevisan foram assumindo.


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