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Cinismo E Falencia Da Critica

Conceito do Leitor: Conceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do Leitor | (opine)
Autor: SAFATLE, VLADIMIR
Editora: BOITEMPO EDITORIAL
Assunto: CIÊNCIAS SOCIAIS - SOCIOLOGIA

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Ficha Técnica Saiu na ImprensaOpiniao do LeitorSobre o Autor

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2008

216 pág.
Sinopse

Um termo genérico e aparentemente pouco preciso - cinismo - é o ponto de partida de Vladimir Safatle em 'Cinismo e falência da crítica' para entender as dinâmicas de racionalização que regem as várias esferas de socialização no capitalismo contemporâneo. Para o autor, é possível observar em dimensões relativamente autônomas da vida social uma certa racionalidade cínica, matéria-prima da organização das sociedades capitalistas atuais. Os seis artigos que compõem o volume abordam, a partir dessa perspectiva, temas como dialética, sexualidade, estética e política, resgatando conceitos desenvolvidos por Adorno, Freud, Lacan e Hegel, entre outros pensadores, mostrando que o cinismo se alastrou em todas as esferas do pensamento crítico atual - e que problematizá-lo é preciso.
Opinião do Leitor:

Sergio de Souza Brasil  /  Data:  19/10/2008
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Um filósofo de qualidade
Vladimir Safatle nos oferece um conjunto de ensaios de primeira qualidade,tendo como ponto aglutinador a necessidade de refletir sobre uma contemporaneidade doente e plena de contradições. Cada palavra, cada frase escrita por Safatle indica a respeitosa tranquilidade de quem sabe que qualquer solução cabe ao homem e a história de ele mesmo produz. Um livro muito importante para compreender ''nossas'' incertezas.


Eleuterio F. S. Prado  /  Data:  7/9/2008
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Texto Atual
O livro do professor Vladimir Safatle vem a ser uma contribuição importante para a renovação da crítica social. Talvez ele vá longe demais ao propor que se reconheça ''o esgotamento do potencial analítico de categorias como reificaçao, alienação, falsa consciência'', mas certamente tem razão quando aponta para certa preponderância de uma racionalidade cínica.

Saiu na Imprensa:

O Estado de S. Paulo  /   Data: 14/9/2008
Passo em falso da consciência

Em Cinismo e Falência da Crítica, Vladimir Safacle discute alienação e desejo numa nova ordem social

Maria Rita Kehl

A crítica do cinismo como forma predominante da subjetividade contemporânea é conhecida dos leitores de Peter Sloterdijk. Mas me parece que a leitura de Crítica da Razão Cínica pode nos levar a entender que o sujeito da “falsa consciência esclarecida” seria imune à alienação. Como se a modernidade capitalista, em sua fase avançada, tivesse aperfeiçoado de tal maneira os dispositivos de engajamento subjetivo em relação à nova ordem social a ponto de dispensar a alienação. Diante de dificuldades teóricas desta ordem, o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle acaba de empreender mais um esforço, mais uma volta no parafuso do pensamento crítico que, de Hegel a Kant, passando por Adorno e seus companheiros da Escola de Frankfurt, dedicou-se a compreender as transformações sofridas pela consciência cínica, desde a antiguidade clássica (Diógenes) até as variantes do cinismo moderno.

Ninguém melhor do que Safatle, no Brasil, para levar a cabo a tarefa. Em Cinismo e Falência da Crítica, o autor de A Paixão do Negativo (Unesp) e Lacan (Publifolha), entre outros, dá seqüência a seu projeto “freudiano marxista” - portanto, radicalmente materialista - de abordagem dialética da modernidade. O estudo sobre as transformações do cinismo moderno, desde Diderot (O Sobrinho de Rameau) até nossos dias, procura desvendar, com o auxílio de pensadores atuais como Slavoj Zîzek, Giorgio Agamben e Paulo Arantes, as grandes linhas de força que atam o sujeito contemporâneo à nova ordem capitalista a partir do que lhe é mais indomável e íntimo (ou extimo, como queria Lacan num de seus terríveis neologismos): seu próprio gozo. Os seis ensaios independentes do livro abordam, a partir de objetos diferentes, duas questões fundamentais: 1. em que consiste a alienação e 2. qual a função da crítica em uma sociedade que já não acredita em seus pressupostos normativos.

O autor parte da observação de que o capitalismo, em sua fase consumista (a partir dos anos 1960-70) passou a contar com novos dispositivos que realizam o controle social através de seu oposto aparente: a multiplicidade de modos de vida e a flexibilidade da personalidade. A eficiência dessa modalidade “fluida” do poder disciplinar coloca em questão o que Adorno percebeu como a solidariedade necessária entre identidade e ideologia. A ilusão oitocentista do homem “idêntico a si mesmo” (e às suas idéias) foi dispensada no mundo em que a primeira condição de inclusão no laço social é a permanente disponibilidade dos sujeitos para todas as novidades do mercado. O novo sujeito da sociedade de consumo é explicitamente convocado a relacionar-se com a Lei de acordo com sua conveniência. Para Safatle, o cínico atualizado tem mais afinidades com o perverso freudiano, que se autoriza tomar a Lei do Pai na versão que lhe convém, do que com os grandes mestres da ironia dos séculos 18 e 19. A razão cínica, como (falsa) consciência esclarecida, é capaz de denunciar o caráter ilusório, de crença, dos pressupostos que sustentam a ordem, de modo a autorizar o sujeito a ocupar um lugar de exceção diante da Lei.

Mas seria a consciência cínica transparente também para si mesma? A denúncia das crenças que sustentam a ordem social seria suficiente para fazer do cínico um sujeito imune às formações do inconsciente? O autor cita Zîzek, para quem a opacidade ideológica que permite a alienação, até mesmo da falsa consciência esclarecida, não passa pela crença (ou pelo saber), mas pela repetição de fazeres automatizados, que Althusser chamou de “rituais materiais”. Ora, automatismos de repetição indicam a persistência das manifestações do desejo inconsciente. É o que Safatle afirma logo adiante: o engajamento dos sujeitos na ordem contemporânea não se dá pela via da razão, mas do desejo inconsciente. Cai por terra, dessa forma, a pretensão de transparência total da consciência cínica.

O primeiro ensaio da segunda parte do livro, Por Uma Crítica da Economia Libidinal, serve-se de Freud e Lacan para investigar em que ponto a consciência cínica falseia. A velha culpa do eu diante dos imperativos morais do supereu teria sido abolida em uma sociedade regida pelo imperativo do gozo? É evidente que não, uma vez que a obrigação de gozar é o mais cruel e exigente mandato do supereu.

Sob a fragilidade da Lei explícita já estaria em vigor outra Lei, perpetuando frente a outro Mestre a servidão, que nunca foi tão docemente voluntária, dos ditos “consumidores” do terceiro milênio. O capitalismo atual não manteria ainda falsas interdições apenas a fim de nos seduzir com o permanente convite à transgressão que sustenta a nova ordem consumista?

A leitura de Cinismo e Falência da Crítica esclarece que, ao não crer em nada, o cínico ainda crê na possibilidade de realizar a versão mais infantil da lei: a lei do gozo. A “ética do direito ao gozo” com que Sade inaugurou a modernidade seria a forma mais infantil de obediência a que o cínico está submetido, identificando-se não a um valor, mas a uma atitude. Paradoxalmente, neste ponto a artimanha do cinismo vem a claudicar: o cínico não está imune ao fatalismo melancólico descrito por Walter Benjamin, desencantado com a “realidade sem substância” que ele próprio trabalha docilmente para produzir.

Sobre o autor:

SAFATLE, VLADIMIR
É professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e um dos coordenadores do Laboratório de Pesquisa em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip/USP). Foi professor-visitante das Universidades de Paris VII e Paris VIII. É autor de 'A paixão do negativo - Lacan e a dialética' (Unesp, 2006), 'Lacan' (Publifolha, 2007), organizador de 'Um limite tenso - Lacan e a filosofia' (Unesp, 2003), além de co-organizador de 'Ensaios de música e filosofia' (Humanitas, 2006), 'Sobre arte e psicanálise' (Escuta, 2005) e 'O tempo, o objeto e o avesso - ensaios de filosofia e psicanálise' (Autêntica, 2004).


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