Reunidos na ABL, autores do país falam sobre o cosmopolitismo que marca suas obras
Juliana Krapp
Eles não carregam mais o peso da História nas costas. Livres da obrigação moral de escrever sobre a guerra, o genocídio ou o país dividido e reunificado, passaram a ser o que sempre quiseram: contadores de histórias – estas com h minúsculo. Em visita ao Rio, quatro dos mais premiados autores alemães da atualidade – Antje Rávic Strubel, Ilija Trojanow,Julia Franck e Ulrich Peltzer – falaram ao Idéias sobre a atual literatura de seu país, cuja principal característica é exatamente estar se tornando menos alemã.
– Em um passado recente, os escritores germânicos sentiam-se moralmente impelidos a escrever sobre a guerra e outros fatos históricos. Agora somos livres. Viemos de culturas e mesmo de Alemanhas diferentes. Por isso, a literatura feita em nosso país, hoje, é tão diversa — diz Julia, a única dos quatro que já tem um livro publicado no Brasil: A mulher do meio-dia, que acaba de sair pela Nova Fronteira.
Peltzer, que vendeu os direitos de sua última obra, Teil der lösung (Parte da solução, em tradução livre), para a editora Estação Liberdade, diz-se incomodado com a idéia de apontar possíveis tendências para esta "nova literatura alemã":
– Nós quatro somos um bom exemplo da escassez de tendências: temos todos estilos diferentes, escrevemos cada um a seu modo. Talvez a única característica comum seja uma forte consciência das mudanças globais. A idéia de estarmos no mundo, e não apenas na Alemanha.
Um fato que contribui para essa diversidade é que atualmente muitos dos autores de língua alemã sequer nasceram no país. É o caso de Trojanow, um búlgaro que, apesar de ter vivido alguns anos na Alemanha, também já morou no Quênia e na Índia. Hoje, mora na África do Sul. Seu último livro, que tem o título sugestivamente cosmopolita de Kampfabsage. Kulturen bekämpfen sich nicht – sie fliessen zusammen (Renúncia à luta. As culturas não se combatem – elas se misturam), foi escrito originalmente em inglês, em parceria com o indiano Ranjit Hoskoté.
Tradução
Os escritores vieram à cidade para o Simpósio Internacional de Tradução Alemão-Português, na Academia Brasileira de Letras, após uma passagem por São Paulo, onde participaram dos debates da 20ª Bienal Internacional do Livro. O encontro é mais um dos indícios de que, a despeito das muitas adversidades, essa "nova literatura alemã" está se tornando mais próxima do Brasil.
E o rol de lançamentos alemães programados para os próximos meses comprova isso. Além da obra de Peltzer, sairão por aqui um livro de Trojanow (O colecionador de mundos, pela Companhia das Letras) e um de Antje (Camadas mais frias do ar), que ainda está negociando com diferentes editoras. A Estação Liberdade pretende lançar também títulos de Christoph Ransmayr (Pavor e trevas no gelo) e Robert Menasse (Certeza sensível) – ambos não são alemães, e sim austríacos, mas partilham com os colegas a mesma língua. Pela Record, sai no ano que vem outro livro alemão de um não-alemão: o badalado Como o soldado conserta o gramofone, do bósnio Saša Stanišic. E o Litrix, programa de fomento à tradução de alemães, já abarca oito livros em sua versão brasileira, alguns prontos e outros próximos do prelo.
– A literatura alemã de hoje é cosmopolita e heterogênea – define Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade. – Assim como a França ou a Grã-Bretanha, que adquiriram novos impulsos literários pelo contato com as antigas colônias, a Alemanha tem retomado fôlego na Turquia, no Leste europeu, na Síria e na Palestina.
Mudança de cena
Esse fôlego só acentua a renascença literária que a Alemanha tem vivido desde fins dos anos 1990, quando nomes como Ingo Schulze e Judith Hermann inauguraram um novo furor editorial. Seu sucesso em seu país e também no exterior fez com que as tiragens dos livros, que costumavam ficar na casa dos 5 mil exemplares, passassem para a das centenas de milhares. Enquanto isso, as grandes editoras iniciavam uma promissora temporada de caça-talentos; coincidência ou não, os direitos autorais de escritores americanos foram tornando-se mais caros, o que acentuou a busca da indústria editorial alemã – considerada uma das mais bem preparadas do mundo – pelos autores nacionais.
– Além disso, a Alemanha é provavelmente o país que mais oferece bolsas de estudo para escritores – diz Marcelo Backes, um dos mais atuantes tradutores de alemão no Brasil e representante do Litrix. – Isso sem contar os prêmios de estímulo à produção: são cerca de dois mil.
Com tudo isso, o país tem visto a multiplicação dos escritores profissionais – gente que vive dos livros que escreve e das palestras de que participa. São autores, que usam os dramas históricos apenas como pano de fundo para os dramas pessoais – como é o caso de A mulher do meio-dia, de Julia – ou que mostram duas ou três versões diferentes para um mesmo fato – como tem feito Antje em suas histórias. É, ainda, gente que rouba referências do cinema – como faz Peltzer, que corta seus romances como em um filme montado sem narrador, mostrando muitos pontos de vista; ou que lança críticas criativas ao colonialismo – a exemplo de Trojanow. Ou seja: escritores que derrubam o mito de uma literatura hermética, velha imagem que é acusada pelos editores brasileiros de atrapalhar, até hoje, as vendas dos alemães no Brasil.
Exemplo disso é o romance O leitor, de Bernhard Schlink, que fez enorme sucesso no mundo todo, tornando-se assíduo na lista dos mais vendidos. Lançado no Brasil pela Nova Fronteira em 1998, não vendeu nem a primeira tiragem. A medida do mundo, de Daniel Kehlmann, que vendeu mais de um milhão de exemplares na Alemanha, foi outro fracasso: lançado aqui pela Companhia das Letras, em 2007, anda com as vendas atravancadas.
– Eu vendo mais livros japoneses do que alemães. Nosso desafio é reencaixar a literatura germânica em bases mais sólidas – comenta Bojadsen. – Por isso temos editado nomes como Heinrich Böll, Peter Handke, Christa Wolf e Klaus Mann, como se estivéssemos pagando um tributo aos clássicos modernos e adquirindo o direito de chegar aos contemporâneos.