País grotesco de um autor desiludido
Romance de Marcelo Mirisola encara de frente tragédia cultural brasileira
Animais em extinção , de Marcelo Mirisola. Record, 176 páginas. R$ 32
Sérgio de Sá
O mais recente romance de Marcelo Mirisola corre o risco de parar nas estantes de ecologia politicamente correta. O título “Animais em extinção” pode levar a confusões classificatórias. No entanto, basta olhar a capa com atenção e ler as primeiras linhas para o leitor perceber que, nessa ficção, o narrador gostaria de esfolar o primeiro mico leão-dourado que lhe aparecesse pela frente.
Os humanos-animais de Mirisola procuram se desamarrar dos “paradoxos e da hipocrisia social”. Uma alternativa apresentada no livro é, a princípio, chocante: a pedofilia. Ela reflete a necessidade que o autor tem de forçar os limites do coletivamente tolerável. Salva-o da condenação moral um ponto de vista que metaforiza frases e parágrafos de forma a dar um nó de irrealidade na cabeça do leitor.
A situação principal se repete nas narrativas do autor. Temos o mesmo narrador-escritor “desistido” de si e, principalmente, dos outros. Como um Holden Caulfield mais velho, mais literário e bem mais sexual, ele atira contra tudo e contra todos que vivem numa sociedade entulhada de falsidades. E sabe, em sua melancólica solidão, que o jogo está perdido.
Se em “Joana a contragosto” (2005) o lirismo aparecia com força pela primeira vez na prosa de Mirisola, “Animas em extinção” é um livro que celebra a amizade ao rememorar e reencontrar a Praça Roosevelt (e suas personagens) a partir de um olhar distante, lançado de uma praia paraibana, em fluxo sempre meio madeleine meio mandiopã, ou seja, cânone literário e lixo contemporâneo.
Grito desesperado de um escritor por afeto
O personagem-autor não quer ensinar nada, porque perdeu as esperanças (ironicamente, ele confessaria ter perdido — fechem os olhos — as pregas). Autointitula-se “vulgar, falastrão, infantil”. Mente adoidado e escreve todos os palavrões possíveis. Os elementos estão dados: a pornografia que esvazia a memória, o depoimento que escancara os valores, a confissão que exaure, em idas e vindas de tempo e espaço, um eu obsceno.
“Animais em extinção” é o grito desesperado de um autor por afeto, não o Marcelo Mirisola real, mas o MM da ficção, autor de “O herói devolvido” e outras obras que ele mesmo classifica de geniais. “Estou ou estava (não lembro mais) pronto para ser Hemingway. Para enfiar um balaço na garganta. Pronto para qualquer coisa! Ah, meu Deus! Quanto custa uma negrinha?”.
Não há vitória possível para o MM ficcional, amigo de Márcia Denser, Bortolotto, Reinaldo Moraes, Bactéria e Wiltão. Não há glória desejável para a literatura brasileira nas formas em que ela vem se apresentando, nos diz este “Animais em extinção”. A menina-prostituta Vanusa, vítima da pedofilia surreal de um escriba derrotado, faz parte da tragédia cultural brasileira anunciada sob sol de verão tropical, tendo ao fundo o som de Ivete Sangalo e cia.
“Animais em extinção” não é o melhor livro de Marcelo Mirisola (“O azul do filho morto” está aí como prova), mas está entre os melhores títulos lançados no país em 2008. Não ganhou a devida atenção porque o autor tem sido colocado de lado na cena, pela mídia e por seus pares. Animal completamente incorreto, deixou de ser queridinho. Simples assim. Escreve o que dá na telha, inclusive como cronista no site “Congresso em Foco”, o que o afasta dos laços de amizade que fazem a política da literatura. Em tempos cínicos, estranha-se que não abra mão de valores, que não esteja disposto a negociar.
Desestabilizar para dar algum sentido à literatura
Se o Mirisola da vida real incomoda, leiamos suas mentiras, que traduzem melhor do que qualquer outro autor brasileiro em atividade o estado de beco sem saída dessa vida tomada pelo grotesco verossímil de uma felicidade consentida pelo mercado. A tentativa de desestabilizar, de conferir ainda algum sentido à literatura, passa pelo colo de um travesti agarrado a seu panda de pelúcia, imagem de assustadoras raridade e contundência.
Sérgio de Sá é doutor em Estudos Literários pela UFMG e professor na Universidade Católica de Brasília.