Se você gosta de “filmes de jornalista” e dessa discussão sobre o futuro da imprensa — se vai ou não acabar — então não deixe de ver “Intrigas de estado”, a aventura de um repórter da antiga e uma jovem blogueira às voltas com a morte da assistente de um congressista que investiga a ligação com o governo de uma nebulosa corporação de segurança e venda de armas. Os dois jornalistas disputam a cobertura do caso para o mesmo jornal, o “Washington Globe”. Ele (Russel Crowe) é experiente, cabeludo e tão charmosamente desleixado quanto sua mesa de trabalho. Ela (Rachel McAdams) é bonitinha, sedutora e apressadinha como seu blog.
O eletrizante thriller, que homenageia “Todos os homens do presidente”, levanta questões como os limites éticos da profissão, as pressões comerciais, as relações entre o jornalista e seus personagens, o embate entre impresso e internet. “Bons repórteres não têm amigos, só fontes”, ensina a editora-chefe (Helen Mirren), pressionada pelos novos donos para aumentar as vendas do jornal. Como pano de fundo, a crise da imprensa americana.
Estranhando-se no começo como se fossem adversários, os dois repórteres acabam juntando esforços e fazendo uma grande matéria, que no final é escrita por ele, mas assinada pelos dois. A ela coube apertar no computador a tecla “enviar”.
O filme está sendo interpretado como uma exaltação do “velho” jornalismo, mas talvez seja mais a defesa da tese de que não há antagonismo entre as mídias, e sim coexistência. Elas se completam. A repórter do blog aprende com o colega que, além da rapidez exigida pela internet, a informação não vive sem apuração e checagem, e isso demanda tempo e paciência.
Por coincidência, acaba de ser lançado no Brasil CULTURA DA CONVERGENCIA (Editora Aleph), de JENKINS, HENRY, tido como “o livro de cabeceira dos grandes pensadores da mídia no planeta”.
O autor é uma espécie de Marshall McLuhan do século XXI, aquele que já nos anos 60 descrevia o mundo como uma “aldeia global”. Jenkins mergulha fundo nessa onda de mudanças que as novas tecnologias estão operando no comportamento humano contemporâneo. A sua conclusão é que “novas e antigas mídias irão interagir de formas cada vez mais complexas”.
Assim, ao contrário das previsões apocalípticas, também acredito que uma nova mídia não extermina a anterior, apenas a modifica. A pintura, o teatro, o rádio e a própria televisão estão aí para provar. Não se pode esquecer que com o advento da TV temia-se que ela matasse a escrita, inaugurando a “civilização visual”, que iria substituir a “civilização verbal”. Surgiu então a internet, e nunca se escreveu tanto no mundo quanto agora.
Em tempo: Como se quisesse ilustrar a tese de que as mídias até se casam, “Intrigas de estado” é a versão cinematográfica de uma série feita para a televisão britânica.