Francisco Quinteiro Pires
Marcelo Rubens Paiva é fascinado, até a morbidez, com uma cena comum a todas as separações. É aquele momento em que um dos amantes chega para o outro e diz: “Precisamos conversar”.
– Porque o mundo será outro a partir daquele segundo. E, atordoados, teremos de quebrar pactos. É um sofrimento opcional. Decide-se romper, acabar com o amor. É preciso coragem para acabar.
Ariela teve coragem de terminar o casamento com Raul, jornalista, que pouco depois teria outro trauma: seria demitido de uma revista conceituada. O jeito foi Raul se virar com o que o mar trouxe à praia: agenciamento de prostitutas, função desempenhada com afinco e sucesso a partir de um flat no bairro dos Jardins. Esse é o enredo de 'A Segunda Vez Que Te Conheci', novo livro de Marcelo Rubens Paiva que trata das relações contemporâneas, em especial do sexo pago.
– A prostituição parecia extinta com a revolução sexual. Mas ela renasceu na sociedade que quer rapidez, papéis claros e, sobretudo, privacidade. O sujeito se envolve com uma garota de programa, quando quer ainda aquela mulher submissa, obediente, descartável, sem conflitos – diz o autor.
Marcelo Rubens Paiva fez pesquisa de campo – em esquinas, boates e sites – para conhecer alguns dos segredos do universo das prostitutas.
– Freqüentei pontos de programa bizarros, não tenho preconceitos. Converso, fico amigo. Talvez eu também seja parte desse mundo de gente esquisita e discriminada.
Embora tenha se envolvido com Fabi, amiga da ex-mulher, depois da separação, Raul não conseguiu esquecer Ariela. E como ex-mulheres sentem saudade dos ex-maridos, especialmente dos que elas abandonam, depois de ler uma crônica sobre amor, escrita por Raul e publicada na revista da qual foi demitido, Ariela o procurou. Voltaram a sair. Raul continuou como cafetão.
– Acredito que todos querem estar casados, felizes, querem agregar, e que, no mundo cheio de tentações, rola a desagregação. Acredito em segunda chance para tudo: é o ponto de partida do que escrevo – conta Paiva, lembrando sua própria trajetória: – Me reconstruí, aos 20 anos, como deficiente. Quero dizer para as pessoas que existe uma segunda chance. E às vezes é preciso deixar de ser para ser outra coisa.