Biografia se concentra na juventude de Renato Russo em Brasília e na sua ascensão a ícone do rock nacional
William Helal Filho
Excelente aluno na escola, leitor de clássicos literários e revistas britânicas como “NME” e “Melody Maker”, fã de Bob Dylan e Sex Pistols, líder nos trabalhos de grupo e nas brincadeiras, sonhador, vestibulando confiante e universitário rebelde, aparentemente assexuado, artista nato. Na recém-lançada biografia RENATO RUSSO - O FILHO DA REVOLUÇAO (Agir), o jornalista MARCELO, CARLOS se debruça sobre a juventude do líder do Legião Urbana e explica como Renato Manfredini Jr. se tornou um ícone da nossa música.
O autor ficou oito anos mergulhado em jornais da época, entrevistas e documentos para remontar a vida do cantor desde o nascimento, em 1960, na Ilha do Governador, até a morte, em 1996, por complicações geradas pela Aids. Há outras bio grafias do compositor (“Trovador Solitário”, de Artur Dapieve, entre elas), mas a diferença é que esse trabalho se concentra nos anos de formação e no início da ascensão do ídolo.
— Sempre quis fazer o retrato de um artista jovem. O Renato cantou muito a juventude e quis traçar a vida dele nesse período — explica o autor. — Mas não é uma pensata. Eu me apoiei na pesquisa. É a maior reportagem da minha vida.
“Filho da revolução” é rico em detalhes íntimos do crescimento do artista em Brasília — para onde ele se mudou com a família, em 1973 — e em contexto histórico. A narrativa é bem escorada na paisagem política da ditadura e seus reflexos numa capital nova e em busca de identidade. Carlos Marcelo desenha ainda um ótimo quadro da formação do rock brasiliense, no início dos anos 80, explicando a gênese de bandas como Legião, Capital Inicial, Plebe Rude e Paralamas do Sucesso (formada no Rio por jovens que se conheceram em Brasília).
— Para quem não é daqui, Brasília ainda é um enigma, uma cidade artificial de 50 anos e em construção. Imagina quando Renato chegou (13 anos após a inauguração)? Era uma capital controlada por militares, com clima de opressão — destaca Marcelo, paraibano formado na UnB, hoje editor-executivo do Correio Brasiliense.
Assim como toda a “Geração Coca-Cola”, o garoto tinha as antenas voltadas ao exterior. Foi pensando em punk e rock que formou sua primeira banda, o Aborto Elétrico, que teve Flávio e Fê Lemos (do Capital Inicial), Ico Outro Preto e André Pretorius.
Marcelo se ancorou nas histórias de parentes, amigos famosos (Dado Villa-Lobos, Dinho Ouro Preto) e anônimos (ele pegou a lista de presença do Colégio Marista e foi atrás dos colegas). O resultado é o retrato humano de um cara às vezes chato de tão espaçoso, mas sempre querido. Tem passagens deliciosas, como a entrevista que o moleque Manfredini deu na saída do vestibular da UnB (ele disse que foi moleza, mas acabou não passando). E o autor narra com detalhes a noite em que Renato tenta dormir com o então colega de banda Flávio Lemos, mas leva toco:
— Pouca gente falava sobre a sexualidade do Renato. Ele era tido como assexuado.
Até os amigos de Brasília ficaram surpresos quando o Renato se declarou gay, já
famoso e no Rio.
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