Sucesso de 'A sociedade literária e a torta de casca de batata' estimula a criação de clubes de leitura, em que fãs da literatura discutem a arte e também se divertem
Bety Orsini
O que é um clube de leitura?
Para a escritora canadense Margaret Atwood, é um lugar onde almas semelhantes se reúnem para fazer o que gostam. Ler e comentar sobre o que leem. Comuns na Europa e nos Estados Unidos, esses clubes agora começam a chegar ao Brasil, embalados pelo sucesso do livro SOCIEDADE LITERARIA E A TORTA DE CASCA DE BATATA da americana SHAFFER, MARY ANN e sua sobrinha Annie Barrows. A obra conta a história de um clube de leitura e de como seus integrantes resistiram à ocupação alemã nas longínquas ilhas Guernsey, no Canal da Mancha.
A Livraria Saraiva, por exemplo, anunciou esta semana a criação de um clube de leitura. No Rio, a magia de grupos mais privados, que reúnem amigos, comidinhas e livros está se espalhando por toda a parte.
Mistura dos salões parisienses da Paris do século XVIII com as sociedades para o progresso da ciência da época vitoriana, os clubes do livro americanos nasceram no século XX e ganharam popularidade na década de 90 com a apresentadora de TV Oprah Winfrey, capaz de transformar qualquer livro escolhido por seu clube em best-seller. Ninguém duvida que foram eles, os clubes de leitura, os principais responsáveis por transformar “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (editora Rocco) num azarão, há quase um ano nas listas americanas dos mais vendidos. Na França, a obra já está nas listas das revistas “L’ Express”, “Le Nouvel Observateur” e “Le Point” Na Inglaterra, a editora Bloomsbury, responsável por “A sociedade....”, criou um concurso que promete, ao clube do livro que ganhar, uma viagem guiada ao cenário da obra, a discreta Ilha de Guernsey.
Prazer nada solitário
Na contramão do projeto do governador Arnold Schwarzenegger, que esta semana apresentou um plano para substituir os livros didáticos tradicionais nas escolas da Califórnia por recursos digitais, livreiros como Nika Monteiro, uma das sócias da Livraria da Travessa, e Ana Luisa Averbook, gerente da Argumento, festejam o sucesso dos clubes de leitura que surgem no Rio e o lançamento de “A sociedade literária e a torta de casca de batata”.
— A obra vai estimular as pessoas a criarem seus clubes — diz Nika.
Ana Luisa concorda:
— Estou recomendando o livro para todo mundo — diz ela, que frequenta o grupo Vírgula.
— O bom de um clube é que cada um lê o mesmo texto e dá sua interpretação. Às vezes, uma coisa passa despercebida por um, mas não pelo outro.
Fernanda Kelly, outra integrante, diz que já são 30 encontros desde 2006. A ideia surgiu quando ela dizia a uma amiga como a leitura era um prazer solitário.
— Uma outra amiga escutou e resolveu criar o Vírgula.
O primeiro encontro, elas nunca esquecem. Foi no dia 8 de julho de 2006, num bar barulhento no Leblon. O que levou todas a aceitarem o convite de Lívia Baião para que os próximos fossem na casa dela.
— Estamos juntas há três anos e, às vezes, temos visitantes e convidados especiais: os professores Arthur Murphy para ilustrar Jane Austen e Dickens, e Karl Erik, para falar sobre Borges e Karen Blixen — conta Fernanda.
Casa cheia de gente adorada
No começo, elas liam autores contemporâneos, depois investiram nos clássicos que não leriam sozinhas.
— E aí, sim, começou o verdadeiro espetáculo! “Crime e castigo”, “Dom Casmurro”, “Os Maias”. Quando o livro não gera tanta discussão, falamos tanto do estresse como das coisas engraçadas do dia a dia. Quando chego em casa, fica difícil dormir, é muita novidade.
Como todas trabalham, os encontros são sempre à noite. Lívia, a anfitriã, sempre oferece um jantar, e as clubistas levam os petiscos e o vinho. Para Fernanda, a parte mais difícil é a escolha do próximo livro.
— Temos uma lista básica feita pela Ana Luisa para facilitar a escolha. Quase esqueci de dizer que, quando lemos “Grande sertão”, o jantar foi na casa da Patrícia, que até pesquisou comidas. Rolou queijo coalho, frango com quiabo, compota de buriti. E, quando lemos Eça, teve bacalhau, vinho português e ovos-moles.
Elas também colecionam marcadores, autógrafos da Festa Literária Internacional de Paraty e fotos dos livros. Amanda Orlando, tradutora, criou junto com outros colegas, na Faculdade Veiga de Almeida, um clube do livro que durou um ano e meio. E diz que a experiência mudou sua vida.
— Nunca tinha pensado em dar aulas de Literatura. Eu estava fazendo Inglês/Português para ampliar meus conhecimentos de tradução. O clube do livro mudou tudo. Hoje me vejo dando aula e atuando como mediadora de leitura. Quando os alunos de Letras se juntaram para fazer o clube, eles pensavam em congregar alunos de cursos semelhantes. Para espanto geral, no boca a boca, foram chegando alunos de Educação Física, Biologia e Nutrição. Os grupos tinham uma média de dez pessoas e as reuniões eram semanais, com discussões em torno dos capítulos lidos.
Entre outros títulos, eles leram “O diário de Anne Frank”, “O caçador de pipas”, “A menina que roubava livros” e “Orgulho e preconceito”. À exceção do livro de Jane Austen, que os alunos acharam difícil, os outros títulos empolgaram.
— As reuniões começavam com uma análise literária bem genérica, para não entediar o grupo. O clube não é um espaço de análises acadêmicas. Sem que nós sentíssemos, o encontro virava uma terapia de grupo — conta Amanda, lembrando que os livros que mais empolgaram os participantes foram “O caçador de pipas” e “A menina que roubava livros”.
A relações-públicas Patrícia Cavalcanti integra um clube composto só por americanas que vivem no Rio, o Wednesday Morning Book Club. Elas se encontram pelo menos duas vezes por mês na casa de cada uma delas. São cinco membros permanentes e algumas visitantes americanas que frequentam temporariamente enquanto os maridos estão trabalhando no Brasil.
— Só lemos em inglês, o único livro que lemos em português foi um do Paulo Coelho. E temos fichas com avaliação, mostrando se os títulos são bons ou ruins. Os mais interessantes, passamos para nossos maridos — conta Patrícia.
Mas, mais do que cultivar o hábito da leitura ela acha que um clube de livro serve para aproximar as pessoas.
— As mulheres que estão provisoriamente no Brasil encontram razões para se encontrarem. Elas até poderiam ir a uma biblioteca, mas seria muito impessoal. Também fazemos comidinhas e trocamos receitas. Essa parte é muito interessante — brinca Patrícia, lembrando que elas fazem reuniões no Natal, nos aniversários, festas de amigo-oculto e, volta e meia, saem para jantar juntas.
— E isso tudo por US$ 70 anuais, pagos à clubista tesoureira.
Bebel Niemeyer começou o seu clube há nove anos. No início, o marido e neurocirurgião Paulo Niemeyer participava, mas, por causa do ritmo do trabalho, ultimamente ele chega depois, na hora do jantar. Bebel diz que percebeu que os clubes não “fabricam” leitores, mas incentivam a manter leitores.
— Como a vida atual é muito atribulada, sem o clube leríamos menos — diz Bebel. — O clube mantém o hábito, é uma espécie de terapia. Eu amo as quartas-feiras, minha casa fica cheia de pessoas que eu adoro.
Ponte entre as pessoas
Quando a psicóloga Elisa Médici começou a frequentar o seu, ela diz que não percebeu que a literatura é o ponto de convergência entre as diversas vidas envolvidas no clube.
— A ficção funciona como ponte entre as pessoas, ao mesmo tempo ampliando e diminuindo as vivências individuais, inserindoas numa moldura universal. É por isso que para muitos o clube é insubstituível. Ele é um processo que pode durar meses, anos e até décadas. Não é uma sala de aula, não exige pré-requisitos, não é exatamente uma terapia, não tem uma característica tutelar, há grupos com lideranças, outros, não.
Mas os participantes são unânimes quando afirmam que um clube do livro é sinônimo de comunhão. De sensação boa de dividir um olhar sobre o mundo com alguém que tem a ver com você que, segundo Elisa, também conhece os mesmos personagens e autores que você.
Para a juíza Larissa Nunes, a leitura é uma experiência privada e pessoal.
— Quem pertence a um clube pensa diferente. Até na discussão mais modesta sobre o título mais medíocre, o clube nos permite dividir o que entendemos, aprender o que não poderíamos aprender sozinhos. As pessoas acabam amigas.
Como criar um clube Durante os 22 anos em que dirigiu a Biblioteca de Documentação da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a bibliotecária, Maria Alice Paes Barretto percebeu que havia dois tipos de público. A maioria dos visitantes ia em busca da informação rápida, daquele dado que estava precisando para completar um trabalho de faculdade ou prova. Mas havia pessoas que pediam uma lista de livros para serem lidos por prazer e não sabiam por onde começar, quando se tratava de escolher o livro.
— Por causa dessas pessoas comecei a pesquisar os clubes de leitura — conta.
Debruçando-se sobre materiais e experiências diversos, ela descobriu depoimentos como o de Silvia Castrillón, que dirige a Associação Colombiana de Leitura e Escrita, que observou que as mulheres são as pessoas que mais sofriam com a guerra civil e, ainda assim, algumas delas encontraram força para criar seus clubes de leitura com o objetivo de se reunirem para trocar livros, informações e refletirem sobre educação, cultura e cidadania.
A partir dessa pesquisa, que incluiu a experiência dos bookclubs americanos e o fenômeno do Book of the Month da apresentadora Oprah Winfrey, Alice criou, em sua empresa de cultura e design, a Plumagenz, o projeto Curabula Livroclube.
— O Curabula quer apresentar leitores prováveis, mas às vezes indecisos, aos prazeres da boa leitura. E mostrar que os livros (de ficção e ensaios, não os de autoajuda) servem como “bulas” para “curar” a vida. Montamos o clube do livro de quem não sabe como fazê-lo, do jeito que o cliente gostaria, preparando-o para assumir a liderança tão logo se sinta preparado para isso.
O contato pode ser feito pelo e-mail plumagenz@plumagenz.com.br.