Em seu novo livro, o escritor e jornalista “surta” na produção de contos que misturam Nelson Rodrigues e pulp fiction
Força Estranha, o novo livro do compositor, jornalista, produtor, roteirista e, obviamente, escritor Nelson Motta se apresenta de maneira irreverente. A capa, de Luiz Stein, é uma mistura de anúncio publicitário amador, manchetes de jornal sensacionalista e pôster retrô de peça de teatro. Tudo muito pop, segundo o próprio autor define. E o título, “um sampler da canção de Caetano Veloso” de mesmo nome, não deixa mentir. O que move personagens e situações nos 10 contos que preenchem as 152 páginas da obra é, de fato, uma força estranha. Coisa que também moveu Nelson Motta na escrita do volume. “Fiquei um ano sem escrever, depois do livro do Tim Maia (“Vale tudo”, o som e a fúria de Tim Maia), não conseguia inventar um personagem melhor do que ele. Me veio a ideia de juntar ideias menores, quando fui, em janeiro, para Salvador. E comecei a escrever sem parar, como num surto”, revela.
Humor e sexo são elementos sempre presentes
A contracapa, além de mais manchetes exageradas, deixa claro que as histórias foram vividas, ouvidas, testemunhadas ou imaginadas por Motta. E ele está pouco preocupado em diferenciar ficção e realidade. “É atraente essa mistura de memória, fantasias, testemunho e imaginação. O público não vai entender o que é real e o que é ficção. Mas, se ele acreditou nos personagens, saiu satisfeito, tá cumprida a minha missão”, conta o febril torcedor do Fluminense. “A força mais estranha que conheço é essa do Fluminense. É a força estranha do momento!”, brincou com voz rouca após ter torcido muito pelo time na final da Copa Sul-Americana, mas agora mantido na primeira divisão do Brasileirão.
Em 1º de janeiro de 2009, Motta começou a trabalhar em novas ideias, dar forma a personagens e escrever histórias curtas. Começou o trabalho no Rio de Janeiro, mas foi em Salvador, onde ele “acredita que há algo que facilita a produção, com aquela lentidão, aquele relax”, que o autor, 45 dias depois, fechou 15 contos em 300 páginas. Cinco descartadas, a edição das restantes levou mais seis meses. Ele deu uma cara diferente para o que parecia uma coletânea de pequenos relatos. “Não queria fazer um livro careta de contos. Fiz um exercício num outro formato, de histórias interligadas, com um gancho, um twist final, que nem seriado de televisão”. Depois de oito contos com cenários, épocas, situações e tipos muito diferentes, Motta promove, nos dois derradeiros, um final à maneira dos romances policiais, transformando uma seleção de contos numa história só.
Autor de um livro de romance de época, dois policiais, dois de crônicas, uma biografia e um livro de memórias, Motta, em Força estranha, consegue entreter com uma narrativa veloz e uma linguagem sem concessões ao politicamente correto. Um livro que “foi muito divertido fazer”, diz o escritor, é de uma leitura igualmente divertida.
» Três perguntas Nelson Motta
Quais são as principais influências na sua literatura?
Pela capa, a pessoa já sabe o que vai encontrar, que tipo de linguagem, esse clima de escândalo, bem Nelson Rodrigues. Numa outra medida, influência de Rubem Fonseca. Dalton Trevisan, um grande mestre das histórias curtas. E Sérgio Sant'Anna, também mestre do gênero.
O livro contém relatos que, até o penúltimo conto, não têm nada em comum. De onde surgiu o título?
Levei bastante tempo à procura de um título que pudesse caracterizar histórias tão diferentes. O livro já estava indo para a gráfica e ainda não tinha um nome. Aí pensei na primeira história, onde um corno recebe um santo sem querer, e na segunda, que é uma coisa meio Nelson Rodrigues e pulp fiction. Os personagens são movidos por forças irracionais. Humor e sexo são elementos sempre presentes. A música do Caetano Veloso, de mesmo título, representou muito bem isso tudo. Pedi a ele autorização e ele me disse: “É uma honra”.
Há alguma história que merece destaque?
Tem uma história em Brasília, que pode ser baixada gratuitamente no meu site, www.sintoniafina.com.br. Fala sobre a revolta de um cidadão. Muita gente que já leu diz “que pena que não é verdade” ou “será que é verdade?”. O leitor vai entender. É uma vingança contra os políticos corruptos. Essa fauna merece todas as gozações. Já que a impunidade é absoluta, pelo menos a gente pode humilhar e sacanear.
FORÇA ESTRANHA
De Nelson Motta.
Suma de Letras/Objetiva
152 páginas. R$ 29,90.