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Demonios, Os

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Autor: DOSTOIEVSKI, FIODOR
Tradutor: BEZERRA, PAULO
Editora: EDITORA 34
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA

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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
 - 16 x 23 cm 1ª Edição - 2004

704 pág.
Sinopse

Publicado originalmente em 1871, 'Os demônios' é um dos grandes romances de Dostoiévski (1821-1881), e integra, juntamente com 'Crime e Castigo', 'O Idiota' e 'Os irmãos Karamazov', a última e mais importante fase da carreira do escritor russo. Tradução do original russo, prefácio e notas de Paulo Bezerra, desenhos de Claudio Mubarac.
Saiu na Imprensa:

Jornal do Brasil  /   Data: 4/12/2004
O horror nada absurdo de Dostoiévski
Em tradução direto do russo, Os demônios é o retrato atordoante e profético da possessão

Paulo Bentancur

Dez anos antes de morrer, Dostoievski (1821-1881) publicava Os demônios (que saiu no Brasil no fim dos anos 50, traduzido do francês por Rachel de Queiroz). Trata-se de um romanção a fazer parte daquele quarteto que a crítica, sem medo, aponta como o ápice de sua carreira, junto com Crime e castigo, O idiota e Os irmãos Karamazovi. Os demônios é, de fato, uma referência inevitável no crepúsculo de uma carreira que não conheceu crepúsculo, antes, chegou ao limite no seu máximo, embora o sujeito Fiódor Mikháilovitch já sucumbisse a uma existência torturada tanto pela doença (epilepsia), quanto pelos problemas mais agudos como o vício do jogo, as dívidas altas e recorrentes, a viuvez, a morte de um filho, a prisão e a condenação à morte (da qual salvou-se não sem trauma).

Falar em Dostoiévski é falar no romance bruto, no sentido mais metafórico e, simultaneamente, justo para o gênero. Seus temas, seu estilo, nervoso, fundos até a exaustão das figuras e das circunstâncias que as engolem, representam para a ficção moderna uma retomada narrativa que antes dele se dava de forma quase plana. Dostoiévski antecipa Freud, sem as explicações deste, mas com todas as doenças da alma expostas sem piedade, nas ruas, pensões, salas, quartos, salões, e até mesmo numa poltrona; sem conforto ou com conforto, seus protagonistas sofrem o dilema de carregarem o peso de si mesmos.

Os demônios parte de um episódio verídico ocorrido em 1869: o assassinato de um estudante por um grupo de fanáticos, niilistas. O livro nasce como panfleto, exigido, no momento de sua publicação (71), pela necessidade obrigatória de um protesto frente àquele estado de coisas. Uma Rússia cuja convulsão social paria grupos capazes de tal atrocidade. Nasce como panfleto mas logo torna-se romance, e dos raros. O gênio dostoievskiano não podia deixar por menos, e o mar de discursos inflamados pelas insanidades mais emolduradas, o temperamento indomável onde uma natureza satanizada pela fé cega numa transformação à força mais brutal se expressa a cada diálogo, a cada ação.

É de se recortar do romance (embora seja uma operação condenada à derrota esse recorte, já que o ficcionista escreve com fervor cada linha, descreve sua gente e o destino que a empurra para o precipício numa atmosfera de constante febre) a morte irrepetível de Chátov (Toda morte é irrepetível, e isso não é metafísica barata. Em Dostoiévski esta máxima, a do irrepetível, se cumpre praticamente de cinco em cinco páginas). Todos são protagonistas, tudo é protagonismo, e o cenário envolve como uma camisa-de-força os seres que cumprem à risca os papéis menos recomendáveis, como Kirillov, uma bomba ambulante, Stavróguin, aristocrata, vendo o mundo de cima e quase cuspindo nele, Stiepánovitch, que lidera a revolução que prega com a obsessão dos líderes frente aos quais nenhum argumento cala e todo adversário sabe ou saberá, bem cedo, o tamanho da sentença com que Stiepánovitch responde a qualquer contrariedade.

A dimensão política somada à religiosa faz seu nicho e o que é clamado em nome da sociedade termina por escravizar cada homem e, assim, quase sem que se perceba, por condenar a própria sociedade. Independente de facção ou falta de facção, de tendência liberal, conservadora, que olhe para todos ou para poucos, para frente ou para trás. Há demônios entre os homens e homens entre os demônios e a aliança se faz quando menos se espera.

Um detalhe importante. No Brasil saíram algumas traduções anteriores do livro. Muitas com o título de Os possessos. Errado, como aponta Paulo Bezerra, que vem traduzindo do russo, há décadas, outros autores além de Dostoiévski. Chamar de possessos ao grupo é tirar-lhes a dimensão demoníaca, transferindo a demônios além deles, que os teriam tomado. Os próprios agentes dessa possessão não a transferem. Possuem-na, possuem-se: eles, e mais nada, são os demônios. Não há possessão, há demonização expressa nos atos de homens que já não consideram a condição humana e sua precariedade para pregar idéias que antes de qualquer direção evitam o direito humano da liberdade e do credo. Falando em tradução, que diferença as versões anteriores, do francês, para estas do russo. Agora se vê a dilaceração plena, desde a extensão do fraseio, a pontuação exacerbada, os diálogos quase sôfregos. Antes havia, não uma elegância - isso é impossível no autor -, porém, seu inferno, agora que podemos comparar tais traduções, era mais um purgatório.

Mas enfrentar um romance desse naipe é cair na sua realidade. E então já se perde a dimensão meio morna daquela primeira leitura referida, e o que temos é exatamente o pesadelo a céu aberto, em pleno dia, a ver com todos nós que, por mais atentos, não escapamos no mínimo do testemunho de atrocidades, atrocidades que vêm se somando com Mussolini, Hitler, Stálin e outros.

E não são esses ases do terror os únicos demônios. A histeria que não admite diálogo, que dirá confronto, habita mentes menos sofisticadas e lares que não chegam a ser quartéis. Assim, é preciso, como escreveu Virgínia Woolf, agarrarmo-nos a fios de argumentação e, frente a tal ameaça, salvarmo-nos pelo milagre sempre vivo que é, mais que uma inocente ou teimosa esperança, outra forma de força.

Os demônios é, talvez desse conjunto derradeiro e magistral, referido no início, de um dos principais ficcionistas de todos os tempos, o mais atual. A ficção dostoievskiana não só não nos deixa indiferentes como nos engolfa. Cada livro seu é, sem exagero, para todo aquele que se doe com a febre desse ato extremo que é a leitura, uma espécie de iniciação, mesmo se já o conhecemos. Principalmente com Os demônios. O livro, claro. Mas também o que existe fora dele, anunciado, retratado, sem nenhuma intenção profética, com a voragem de um jeito de criar personagens e dramas que a literatura até hoje não superou. Como trauma e como orgulho.

Junto com Kafka, Dostoievski conhece cada ponto do horror que num Poe, por exemplo, vira quase uma fábula apenas. E, claro, não convém confundir estilos, projetos, espíritos. No caso específico de Dostoievski, esse horror não tem nada de absurdo e não se resume a armadilhas nem burocracia (embora Kafka não possa ser resumido a isso); não tem nada do horror gótico ou a poesia fantasmagórica de um Poe (o que prova que esses paralelos não servem). A questão aí mostra que o horror não tem uma trajetória única e pode apresentar sob os mais insuspeitos disfarces.

Na maioria das vezes, não se disfarça. Nós é que não queremos enxergar. Ou, se enxergamos, cadê a força de encarar o monstro (ainda mais coletivo) e extingui-lo em nome de uma humanidade que mereça seu nome?

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Sobre o autor:

DOSTOIEVSKI, FIODOR
Most of Dostoiéviski's important works were written after 1864: Notes from Underground (1864), Crime and Punishment (1865-6), The Gambler (1866), The Idiot (1869), The Devils (1871) and The Brothers Karamazov (1880). Dostoiéviski's first story ‘Poor Folk’ (1846), was a great success. In 1849 he was arrested and sentenced to death for participating in the ‘Petrashevsky circle’; he was reprieved at the last moment but sentenced to penal servitude, and until 1854 he lived in a convict prison at Omsk, Siberia. In the decade following his return from exile he wrote ,The Village of Stepanchikovo (1859) and The House of the Dead (1860). Whereas the latter draws heavily on his experiences in prison, the former inhabits a completely different world, shot through with comedy and satire. In 1861 he began the review Vremya (Time) with his brother. In 1873 he was invited to edit Grazhdanin (The Citizen), to which he contributed his Diary of a Writer. From 1876 the latter was issued separately and had a large circulation. In 1880 he delivered his famous address at the unveiling of Pushkin’s memorial in Moscow; he died six months later in 1881.

BEZERRA, PAULO
Paulo Bezerra estudou língua e literatura russa na Universidade Lomonóssov, em Moscou, especializando-se em tradução de obras técnico-científicas e literárias. Já traduziu do russo mais de quarenta e cinco obras nos campos da filosofia, da psicologia, da teoria literária e da ficção, destacando-se Problemas da poética de Dostoiévski de M. Bakhtin, A construção do pensamento e da linguagem de L. S. Vigotski, cinco novelas de Gógol reunidas no livro O capote e outras histórias, O rumor do tempo de O. Mandelstam, e Crime e castigo, O idiota e Os demônios, de F. Dostoiévski.


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