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Entao Ta, Jeeves

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Autor: WODEHOUSE, P. G.
Editora: GLOBO
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
 - 14 x 21 cm 1ª Edição - 2004

281 pág.
Sinopse

O livro 'Então tá, Jeeves' traz aos leitores brasileiros o humor de P.G. Wodehouse, considerado o 'gênio da comédia' pelo jornal londrino Times. O protagonista Jeeves é uma espécie de mordomo, acompanhante e assessor para todos os assuntos de Bertie Wooster, um simpático, rico e mimado inglês, para quem Jeeves resolve desde problemas cotidianos até as mais complicadas situações. Em seus diálogos com o chefe, Jeeves inclui em todas as frases a palavra 'patrão', porque embora seja mais sagaz, prefere manter a distância que permite a ele aconselhar, mas não ordenar. A dupla aparece em 11 romances e 33 coleções de contos, que formam a parte mais conhecida da obra de P.G. Wodehouse.
Saiu na Imprensa:

Gazeta Mercantil  /   Data: 21/1/2005
A fluidez do humor britânico
Então tá, Jeeves e Sem dramas, Jeeves , de Wodehouse, chegam ao Brasil. A consciência do patrão

Bruno Garschagen

Pespegar a pecha de escritor cômico em P. G. Wodehouse (188l_1975) limita a análise de sua prosa e reduz seus livros a meros esquetes de humor, o que seria injusto. A elegância e fluidez de suas personagens e a representação do ambiente refinado e frívolo da elite inglesa durante o breve reinado de Edward VII (1901 a 1910) são a representação fluida de uma Inglaterra que já não existia quando o primeiro conto com Bertram Wooster (ainda sem sobrenome) e o mordomo Jeeves foi publicado, em 1915, no "Saturday Evening Post" e depois incluído no livro "The man with two left feet".

Mas quem se interessa pela vida dos ricos ingleses? Se o escritor for Wodehouse, até o baixo meretrício de Copabacana ganha aromas agradáveis. "Wodehouse descobriu as possibilidades cômicas da aristocracia inglesa", definiu com exatidão George Orwell (1903-1950). E ficamos a desejar, apenas, uma poltrona confortável, roupas alinhadas, bebidas, mesa farta, acepipes antes do jantar e aquela maravilhosa sensação de dever não cumprido que costuma encher de alegria todos os que se dedicam com afinco ao ócio contemplativo.

Jorge Luís Borges, num perfil sobre o amigo, dizia que Macedônio Fernandes raramente cedia à tentação da ação. Wooster, toda vez que cedeu, se enrolou e atingiu toscamente os que desejava ajudar. Jeeves, o mordomo, dedicou a vida a ser a consciência do patrão. Mas a consciência nem sempre convence uma mente atrapalhada.

Jeeves e Wooster são as grandes criações de Wodehouse. São protagonistas de onze romances e 33 coletâneas de contos, num total de mais de 90 livros publicados. E por mais que o escritor britânico repita a fórmula (Wooster tenta ser mais do que efetivamente é; cria ou se enfurna num problema; recorre sistematicamente a Jeeves, que não raramente salva o patrão), a suavidade, o frescor, a tolice ingênua de suas criações, além das situações mirabolantes em bares, casarões e casas de campo, nos conduzem a uma esfera de prazer renovado. Nada de gargalhadas insanas e embriagantes. Wodehouse nos solicita gentilmente um sorriso que nos escapa pelo cantinho esquerdo da boca depois de reverberar desatinado pelo plexo solar.

Nem todos os críticos culturais concordavam. H. L. Mencken registrou em seu diário, no dia 13 de junho de 1933, que o "Saturday Evening Post" passou a publicar uma grande quantidade de material banal, que incluía Wodehouse "e outros escritores sem nenhum peso", Mencken também implicou com Dostoiévski e Goethe, colocados numa lista dos dez escritores mais chatos de todos os tempos.

E esse ambiente de dândis e senhoritas que desmaiavam sem amarrotar os vestidos que Wodehouse, chamado por amigos e admiradores de "Plum", delineia em Então tá, Jeeves e Sem dramas, Jeeves , lançados pela editora Globo e traduzidos com extrema desenvoltura por Beth Vieira e Beatriz Sidou. O mundo de Wooster, intimamente chamado de Bertie, é o do Drones, clube dos homens ricos, das festas elegantes e das tias para as quais, digamos, os termos excêntricas e agressivas seriam meros eufemismos. Trata-se do mesmo universo retratado nas peças de Oscar Wilde, especialmente em "O leque de Lady Windermerer", "A importância de ser prudente", "Um marido ideal" e "Uma mulher sem importância". Depois dessas leituras, nenhum encontro familiar ou festas de fim de ano resistem a dez segundos de apreciação.

Noves fora a ambientação e o esnobismo, as vidas de Wilde e Wodehouse não se parecem nem durante o banho. Como sabemos, o autor de "O retrato de Dorian Gray" gostava de dividir a banheira com rapazes, enquanto Wodehouse teve uma existência bastante conservadora e ficou casado durante mais de 60 anos com a mesma mulher.

Pelham Grenville Wodehouse nasceu em Guildford, Reino Unido, em 1881. Basicamente criado pelas tias, teve educação formal no Dulwich College. Estudou muitos escritores e poetas clássicos cujas obras formaram a base dos diálogos que criou em seus livros. Na escola, jogava cricket e era um bom lutador de boxe, o que, convenhamos, revela um caráter excêntrico. Só deixou de lutar por problemas na visão e proibição médica.

Quando saiu do Dulwich College, Wodehouse esperava seguir seus estudos em Oxford,mas sua família enfrentava problemas financeiros que o obrigaram a retomar para casa. De 1900 a 1902, trabalhou nas filiais inglesas dos bancos. Hong Kong e Xangai. À noite, escrevia contos, poemas e artigos para jornais e revistas. O período como funcionário de banco lhe serviu como inspiração para o romance Psmith in the city , a de 1908, de características autobiográficas.

Após dois anos, decidiu abandonar os garantidos caraminguás para se dedicar integralmente ao ofício de escritor. "Desde pequeno quis ser escritor", disse Wodehouse numa entrevista. Não foi nada fácil. Submeteu seus textos a várias publicações, colecionou respostas negativas e conseguiu, depois de acionar alguns amigos, substituir um dos colunistas diários do "The Globe", espaço que posteriormente passou a ocupar como titular o nome da coluna era "By the Way". O escritor escreveu para jornais até o final da vida.

O primeiro romance foi The Pothunters , história juvenil que se passa numa escola. Durante a primeira década de 1900, Wodehouse publicou seis livros que abordavam o ambiente dos colégios, um dos assuntos que ele mais conhecia. Em 1908, escreveu uma série dessas "school story" chamada "The Luck Stone" com o pseudônimo Basil Wyndham. Casou-se em 1914 com Ethel Newton, oito semanas depois de conhecê-la em Nova York. Eles não tiveram filhos, mas Wodehouse adotou legalmente uma menina, Leonora.

O escritor assinou contrato com a MGM em Hollywood em 1930. O primeiro trabalho foi reescrever os diálogos da comédia "Those three french girls", dirigida por Harry Beaumont e estrelada por Fifi D'Orsay, Sandra Ravel e Yola D' Avril. Depois foi convidado para roteirizar o musical "Rosalie", em cartaz na Broadway, mas suas declarações de que não estava contente com o trabalho causou um tremendo rebuliço. Seu contrato, obviamente, não foi renovado.

Continuou dando duro em solo americano: escreveu livros e também direcionou seu talento para peças de teatro e letras de música. O mais famoso musical que leva sua assinatura é "Anything goes", com música e maioria das letras compostas por Cole Porter. Também trabalhou com os irmãos George e Ira Gershwin.

Morava numa propriedade em Le Touquet, França, em 1940, quando o país foi invadido pelas tropas alemãs. Tentou fugir com a família e um grupo de amigos, mas foi detido e levado para um campo de prisioneiros. "Talvez, depois disso, eu escreva um livro sério", disse, já preso - depois foi mandado para um asilo para finalmente ser instalado num hotel em Berlim. Admiradores e amigos enviaram dos Estados Unidos, que não haviam entrado na guerra, uma petição na qual pediam ao governo alemão a libertação do escritor.

O pior momento de Wodehouse estava por vir. A pedido de um antigo conhecido de Hollywood, concordou em gravar declarações, para serem transmitidas pelas rádios americanas, afirmando que estava vivo e seguro. Era 1941. A primeira gravação foi uma entrevista concedida a Harry Flannery, correspondente da Columbia Broadcasting System, em que deixava claro sua indiferença em relação à política.

Depois disso, o ministro da Propaganda alemão, Joseph Goebbels deu um jeito de pegar as cópias das fitas e mandou que fossem transmitidas para as rádios inglesas. A intenção dele era transformar Wodehouse num simpatizante do nazismo e, para isso, convenceu jornalistas de países neutros e contou com a devida ajuda. Também fez circular a informação falsa de que o escritor havia recebido dinheiro do governo alemão (sua renda no período foi garantida com direitos autorais de livros, filmes e venda de jóias da esposa), "Se non é vero é bene trovato", já dizia minha avó. O fato é que Goebbels conseguiu transformar declarações ingênuas em propaganda de guerra. Dois dos melhores textos sobre o caso são o ensaio de George Orwell, "Em defesa de P. G. Wodehouse", publicado em junho de 1946 no livro "Windmill", e "Wodhouse at war", de Iain Sproat. Sobre o escritor, há várias biografias, entre as quais se destacam as escritas por Frances Donaldson e por Robert Mccrum.

Ao que parece, quase ninguém no Reino Unido ouviu Wodehouse no momento das transmissões, mas o turbulento período de guerra fez com que as palavras caíssem como uma bomba atômica e reverberassem entre os ingleses. Seus livros foram banidos das bibliotecas inglesas e das livrarias, jornais e parlamentares acusaram-no de traição. Wodehouse precisava de um Jeeves.

O escritor ainda ficou alguns anos em Berlim e em 1943 foi para Paris. No ano seguinte, a filha Leonora morreu de forma inesperada durante uma cirurgia. A guerra terminou e o escritor decidiu morar nos Estados Unidos em abril de 1947 para evitar problemas em seu país. Ele tinha visitado a América pela primeira vez em 1904 por causa dos pugilistas americanos, que adorava. Voltou como turista cinco anos depois. Ficou lá por alguns meses e reuniu bastante material usado nos romances Psmith, Journalist e A Gentleman of Leisure , de cunho político e social. Tornou-se cidadão americano em 1955.

Os diálogos são o prato principal do banquete oferecido por Wodehouse em Então ta, Jeeves e Sem dramas, Jeeves. Enquanto Bertie Wooster cintila com reflexões tolas, infantilidades e uma vontade irreprochável de conduzir os acontecimentos, como o senhor supremo das situações ao seu redor, Jeeves é o supra-sumo da ponderação, inteligência, seriedade, compreensão, tolerância e paciência. Qualidades que o tomam indispensável à vida sem parâmetros de Bertie, seu patrão, que sabia disso e tremia a cada tentativa de algum conhecido, geralmente desafeto, em contratar Jeeves.

Culto, Jeeves tinha também a função de definir com palavras exatas a conduta do patrão ou de citar frases de algum escritor ou filósofo para embelezar certos conselhos. Bertie repetia as expressões e, quando perguntado, pedia um tempo para consultar o mordomo.

Há trechos hilariantes pela falta de discernimento. Beiram à tolice. A troca de telegramas entre Bertie e a tia Dália Travers em "Então tá, Jeeves" faz rir pelo absurdo: "Venha imediatamente", escreveu-lhe num telegrama a senhora Travers ao que Bertie retomou: "Perplexo. Explique". Dália: "Que diabos eu escrevi para deixar você perplexo, sua mula? Venha imediatamente." Bertie: "O que quer dizer com venha imediatamente?" Trocaram mais três mensagens nesse diapasão até Bertie, sem saber como proceder, recorreu a Jeeves para saber se o "venha imediatamente" significava sua partida imediata para a mansão rural de Brinkley Court. "A meu ver a senhora Travers deseja que o senhor vá imediatamente para lá, patrão."

Bertie adora comer. Sente frêmitos ao ouvir o nome de Anatole, cozinheiro francês de seus tios. Quase surta quando, após seu plano para que um amigo e a tia recusem o jantar com a finalidade de obter, respectivamente, a reconciliação com a noiva e dinheiro do marido, Anatole ameaça ir embora pela desfeita com suas criações culinárias.

Os contos de Wodehouse interessaram executivo.s da TV, que filmaram alguns deles. A primeira e importante adaptação em série de suas histórias foi feita em 1965 e chama-se "The world of Wooster", com Ian Carmichael e Dennis Price. Dois anos adiante, uma nova série, "Blandings Castle", com Sir Ralph Richardson, Meriel Forbes e Stanley Holloway. A mais recente foi feita nos anos de 1990, em quatro séries com Hugh Laurie e Stephen Fry. A internet ampliou o raio de abrangência dos "wodehousianos". São cerca de 165 mil sites dedicados ou com citações. E há sociedades com seu nome da Inglaterra à Rússia.

Ainda morando nos Estados Unidos, somente em 1975 Wodehouse teve a reputação restaurada no Reino Unido. Aos 93 anos de idade recebeu da coroa inglesa o título de sir. Morreu num hospital, trabalhando num novo romance, logo depois de ser reconhecido em seu país como o maior humorista do século XX, o que não é mal, mas não lhe faz a devida justiça.

Poucas de suas obras foram lançadas no Brasil. A editora Record publicou, na década de 1980, cinco livros com capas ilustradas por Ziraldo. E os publicados pela Globo em 2004, em edições caprichadas de belíssimas capas, ajudam a preencher essa falha imperdoável de nossos editores.

Para Evelyn Waugh, o mundo idílico criado por Wodehouse não poderia cair no esquecimento. Suas histórias oferecem quase tudo o que uma pessoa que lê por prazer poderia desejar, nos diz Andrew Ferguson, num ensaio para a "Weekly Standard", no que assino embaixo.

Wodehouse definia seus romances como comédias musicais sem música. Se tivesse trilha sonora de Cole Porter ou de George Gershwin, não seria mais literatura, seria covardia.


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Sobre o autor:

WODEHOUSE, P. G.
O britânico Sir Pelham Grenville Wodehouse (1881-1975), conhecido como P.G. Wodehouse ou Plum, nasceu em Guildford, Surrey (Inglaterra). Ao sair do colégio, Wodehouse trabalhou dois anos como empregado do Banco de Hong Kong e Changai, mas logo começou a escrever para uma revista juvenil e depois para várias revistas literárias e de humor nas quais publicou diversos de seus livros em formato de folhetim. Deixou a Grã-Bretanha em 1934, naturalizando-se americano em 1955. Popular e prolífico, P.G. Wodehouse escreveu quase cem livros, 16 peças de teatro e 250 letras de canções para 30 musicais, além de ter trabalhado em seis argumentos para cinema. Suas obras mais conhecidas (11 romances e 33 coletâneas de contos) são aquelas protagonizadas por Jeeves. Wodehouse chegou a dizer que ele já não esperava nada mais da vida, desde que foi nomeado 'Sir' e uma estátua de cera sua foi colocada no Museu Madame Tussaud. Ele viveu nos Estados Unidos até morrer, aos 93 anos.


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