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Ficha Técnica Saiu na Imprensa

ISBN: 
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Livro em português
Brochura
 - 16 x 23 cm 1ª Edição - 2004

102 pág.
Saiu na Imprensa:

O Estado de S. Paulo  /   Data: 6/3/2005
Literatura para um mundo desencantado
Tristeza e melancolia marcam coletânea de jovens ficcionistas

José Castello

O escritor argentino Julio Cortazar comparava os contos a uma esfera, um objeto com um ciclo perfeito e implacável, no qual nada poderia estar fora de seu lugar. “Como uma esfera, os contos têm que ser fechados”, explicou ele numa entrevista. Cortázar enfatizava, assim, a importância do rigor, e também do equilíbrio, na construção de um conto.

Não pelos mesmos motivos, a idéia da esfera também serve como instrumento para a leitura dos relatos reunidos em Paralelos . A esfera não como um corpo perfeito, mas como um campo fechado e sem saída. A idéia dominante nos dezessete contos dessa coletânea é a da imobilidade. Há neles, quase sempre, o esboçar de um esforço lento, mas difícil, para sair do torpor e, enfim, se movimentar. “á anos tento escrever. Há anos, quando a imagem vem, a mão paralisa”, escreve Tatiana Salem Levy em Paralisias, um dos dezessete contos da coletânea.

São jovens autores – alguns, como Tatiana, muito inspirados – que, perplexos, se empenham em dar expressão a um mundo no qual a palavra já não vale grande coisa. Um mundo desfigurado, sem face, composto de imagens turvas e indefinidas, como o que aparece em O Último Quarto à Direita, de Cecília Gianetti. Nele, um apartamento (a literatura?), como num conto fantástico de Cortázar, começa a se desfazer. “Virou uma névoa à espera de reconfiguração, de que o pó assente e forme um novo desenho”, ela escreve. Resta a busca do novo como saída.

A vida, porém, tende à paralisia e escorre lentamente. É um gotejar monótono, pingos esparsos, e atormentados. Em Goteira, de Francisco Slade, os dois personagens levam uma vida tão aplainada pela repetição e pela monotonia que um deles nem percebe que o outro já está morto “havia mais de uma semana”. Morte e vida quase se equiparam; escrever, ou a esperança de escrever, é apegar-se a um fio.

Para surpresa de um leitor acostumado às imagens exaltadas da juventude oferecidas pela televisão, há nos relatos desses jovens autores, em geral, uma atmosfera melancólica, um grande desânimo. Desmentindo as idéias do marketing e da publicidade, uma tristeza indefinida percorre, de ponta a ponta, esses relatos. “Já eu, não tenho autonomia, não tenho o elo das palavras. Sequer sei escolher meus caminhos”, relata o narrador de A Casa do Cachorro, de João Paulo Cuenca. Em vez de jo vialidade, decepção.

O mundo contemporâneo, que esconde seu imobilismo interior com uma velocidade quase fatal, no entanto, está bem ali. Basta dar uma rápida olhada nas breves biografias dos dezessete narradores, registrada ao fim do livro. Jovens, fazem mestrados e doutorados, levam intensa vida profissional e, com seus diários e desabafos, alimentam os blogs da internet, e deles se alimentam. Agitam-se, os escritores. Mas a imagem que, em suas narrativas, eles nos oferecem do mundo tendem só ao entorpecimento.

Apesar de jovens, a verdade é que já enfrentam os efeitos do tempo, que não só nivela, mas desencanta a realidade. “Era curiosa a impressão de encontrar reduzida a realidade que, vista com os seus olhos de criança vinte anos atrás, tinha uma outra dimensão”, começa Pedro Süssekind a narrar em seu Litoral. “Ele se esforçava para relembrar”, continua – e esse esforço desesperado de rememoração é outra característica dos relatos de Paralelos. Esforço, quase sempre, falho, ou fracassado. A memória, com seus desarranjos e mentiras, já não é mais um caminho seguro para a identidade.

Até porque, como sugere um personagem de Jorge Cardoso em Miséria, podemos considerar perfeitamente a existência de uma “teoria do tempo parado”. A internet conecta pessoas que estão em continentes distantes – Jorge, por exemplo, vive em Umea, no norte da Suécia, e escreve para seu editor brasileiro, que está em Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Os jatos cobrem longas distâncias, os satélites despejam sobre o planeta um emaranhado de imagens simultâneas, a internet conecta seres que, de outra forma, jamais se falariam. Apesar disso, o personagem de Jorge Cardoso tem a terrível sensação de estar deslocado, fora do lugar, ou, como descreve, de ter nascido “90 anos mais cedo do que deveria”. Pensa, então, em cometer suicídio, na esperança de estancar as horas, imaginando que, chegando a uma zona morta, poderá esperar que os tais 90 anos se cumpram e, enfim, sincronizar com seu tempo.

Em outras palavras: a velocidade não assegura a posse do presente. Ela pode não levar a nada, a não ser de volta ao ponto de partida. Ao apresentar seu conto, Histórias acerca de Botões, Mara Coradello adverte: “E não o chame de confessional, o chame de autópsia”. Mais uma vez, o ato de rememorar – que a um Marcel Proust rendeu um romance caudaloso como um rio – hoje, ele também, em vez de tonificar o presente, pode conduzir à destruição. É o que se estampa nos relatos desses novos contistas, e é desse atoleiro que sua literatura – como uma mobilidade desesperada de nado – emerge.

São sentimentos duros, e bastante desesperançados, que movem os dezessete relatos, escritos em estilos e perspectivas bastante diferentes. A diversidade, contudo, conduz, em geral, ao mesmo desamparo. Autores que, quem sabe, poderiam se ver como o personagem de Homem Dentro da Caixa de Sapatos, de Mariel Reis. Prisioneiro na caixa estreita e escura, ele se torna um homem objeto nas mãos da mulher. Um homem detido numa armadilha, exatamente como se sentem os jovens homens e mulheres que escrevem esses relatos.

Para proteger o marido, a mulher guarda a caixa de sapatos, com o homem dentro, em cima de um armário. “Diz que lá em cima estou livre de mãos alheias e olhares curiosos”, ele relata. No mundo superequipado e interligado em que vivemos, estamos sempre presos a alguma malha, alguma rede – como a internet. O que poderia nos proteger, no entanto, vem exacerbar o isolamento. Solidão que, apesar do mundo unificado em que vivemos, ou por causa dele, é a marca desses dezessete relatos.


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