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Morangos Mofados





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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

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Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2005

Sinopse

'Morangos mofados', de Caio Fernando Abreu, tornou-se um dos maiores sucessos editoriais da década de 80 ao mostrar o que há de mais profundo no ser humano. A busca, a dor, o fracasso, o encontro, o amor e a esperança estão presentes na série de contos que se entrelaçam como se fossem um romance. Os anseios dos anos 70 e a falta de perspectiva de concretizá-los são uma realidade que se mostra atual.
Saiu na Imprensa:

Correio Braziliense  /   Data: 13/8/2005
Estética da desilusão
Nova edição de Morangos mofados traz novamente à tona as ilusões perdidas da juventude dos anos 70. Mas a ausência de perspectivas, à época decisiva para entendimento dos contos do reverenciado Caio Fernando Abreu, simplesmente envelheceu

Rafael Baliardo

O maior sucesso editorial do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu , o livro de contos Morangos Mofados , retorna às livrarias em uma nova edição lançada pela editora Agir. Na década de 80, o livro conquistou leitores em todo o país e foi traduzido para quase uma dezena de idiomas, feito incomum para o gênero, já que contos não costumam repercutir em grandes tiragens. Não ao acaso, Morangos Mofados foi escolhido para ser o primeiro volume da coleção que será publicada entre este ano e o próximo, trazendo a obra completa do autor falecido em 1996.

Contista, romancista e autor de roteiros para teatro, Caio Fernando Abreu era jornalista profissional, embora tivesse se graduado em Letras. Seu nome surgiu na cena literária por conta de Morangos Mofados, cuja primeira edição apareceu em 1982, mesmo ano em que foram publicados Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva e A Teus Pés, de Ana Cristina César. Considerado um expoente do que se cunhou de literatura intimista urbana brasileira, Caio Fernando Abreu é, desde sua morte, reverenciado por admiradores e tem seu prestígio cada vez mais reconhecido dentro dos círculos literários e entre estudiosos. Curiosamente, a imagem que se preservou do autor é bastante estereotipada. Um tipo urbano, intelectual, homossexual, fazia o estilo franzino, embora, de fato, não o fosse, e um constante interessado em temas esotéricos.

Os contos de Morangos Mofados abordam questões referentes às "ilusões perdidas" da juventude dos anos 70. Tratam do fim das utopias, da perda de referências da geração que foi jovem sob o jugo da ditadura militar. Enfim, de sonhos desfeitos e de objetivos não realizados. Os contos são narrados com uma linguagem discreta e coloquial que inclui palavrões e frases informais. São histórias urbanas vividas por personagens solitárias e quase sempre ambientadas em apartamentos. Todos são prisioneiros de suas neuroses e principalmente de seu estilo de vida. Alguns são depressivos e freqüentam sessões de análise. E sempre há referências a canções, livros e filmes.

Em todas as histórias de Morangos Mofados está presente uma náusea existencial e um mal estar teleológico. Tudo indica que Caio Fernando Abreu nunca pretendeu ser um escritor niilista, mas suas histórias o são quando ele não evita a indulgência (escondida pelo cinismo) ao falar de "geração de perdedores" e ao assumir-se em parte perdedor. Com o fim da visão utópica e frente aos objetivos não conquistados, muitas das personagens saem em busca de um novo sentido para viver. Mas esta busca é para aplacar o mal-estar individual, e não para se aproximar da verdade. Em Morangos mofados, reconhecer uma ilusão não é uma vitória por si só, é um infortúnio para o ego. A revelação da farsa coloca as personagens dentro da marginalidade e da solidão.

Passados mais de vinte anos de seu lançamento, é possível perceber hoje que o livro carece de perspectiva porque se apóia na dor do que se revelou falso, no malestar causado pela mentira que veio à tona, contemplando as estruturas que faliram ("o mofo" nas ilusões), ao invés de lançar luz às relações que as desintegraram. A concretização do idealismo não é feita de liberdades, mas de sacrifícios, de auto-correção, de uma grande tomada de consciência.

A falência não é a do idealismo portanto, mas a de jamais concretizá-lo, porque para isso é preciso travar uma luta árdua consigo mesmo, mais do que com os outros, mais do que com a direita, com os caretas ou com os burgueses. Falência foi ter claro o que não se queria, mas ignorar o que realmente se desejava para o mundo. Falência foi descobrir que toda essa cultura de literatos e cinéfilos esconde uma ignorância, uma ausência de auto-conhecimento que conduziu as personagens ao despreparo e à incapacidade de pensar por si mesmas.

Salvos as dimensões e os propósitos, nas Ilusões Perdidas de Balzac, sofrer uma ilusão e depois percebê-la é uma farsa revelada (o DESengano!). Em Morangos mofados, é um golpe na identidade, no eu. E essa diferença é o valor da moral que abate o poeta Lucien du Rubempré e que desperta "a consciência" da obra escrita em 1835. Nos contos do autor brasileiro, surgidos cento e quarenta e sete anos depois, a psicologia não é "a consciência" da obra, mas o repositório das frustrações e dos estigmas. O valor moral é abolido, como observa Heloísa Buarque de Holanda no artigo reproduzido na nova edição de Morangos mofados: "Seu foco não comporta um julgamento de valor". Só que para a autora do texto isso é positivo. Pois, hoje em dia, não se pode correr o risco de se soar moralista. Contudo, esse temor de parecer politicamente incorreto pode levar a confundir moralismo com moralidade. E o valor moral, como se sabe, é a base da arte dramática.

Sobre o autor:

ABREU, CAIO FERNANDO
Nasceu em 1948, em Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul. Por seu trabalho literário, recebeu os prêmios Fernando Chinaglia (1970), Status (1980), Jabuti (1984 e 1989) e APCA (1990). Teve livros traduzidos para diversas línguas. Morreu em 1996. Obras publicadas: Inventário do irremediável (1970); O limite branco (1971); O ovo apunhalado (1975); Triângulo das águas (1983); As frangas (1988); A maldição do vale negro (1988); Ovelhas negras (1995); Pequenas epifanias (1996).


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