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Sabado

Conceito do Leitor: Conceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do Leitor | (opine)
Autor: MCEWAN, IAN
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES

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Ficha Técnica Saiu na ImprensaOpiniao do LeitorSobre o Autor

ISBN: 
ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2005

344 pág.
Sinopse

'Sábado' conta todas as horas de um dia na vida de Henry Perowne, neurocirurgião londrino altamente conceituado. A data é 15 de fevereiro de 2003. O dia de folga do médico será abalado por dois acontecimentos paralelos, um público e outro privado - no centro de Londres se prepara a maior manifestação popular já vista na cidade, com 1 milhão de pessoas nas ruas para contestar a invasão iminente do Iraque; ao mesmo tempo, um banal acidente de trânsito envolvendo seu carro e o de um homem com graves problemas neurológicos - problemas que Perowne conhece como poucos - trará conseqüências graves para o médico e sua família. Embora ele tente ver o mundo pela lente da razão e da lógica científica, o incidente fará explodir forças brutais que desafiarão suas certezas e todo o seu modo de vida. Ao apresentar ruas e bairros de Londres com notável realismo visual e sensorial, Ian McEwan retrata com agudeza um momento em que o impacto dos atentados do 11 de Setembro em Nova York repercute na consciência dos ingleses, despertando a compreensão de que sua sociedade é vulnerável.
Opinião do Leitor:

Lauro César Solia  /  Data:  18/3/2006
Conceito do leitor:  Conceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do Leitor | (opine)

O novo clássico inglês
McEwan é hoje sem dúvida o melhor autor inglês. É impossível não associar este livro a Ulisses de Joyce. Com uma vantagem para McEwan: é acessível, sem ser óbvio; é terno, sem ser meloso; é rico, sem ser caro. Indispensável!

Saiu na Imprensa:

O Estado de S. Paulo  /   Data: 30/4/2006
Terror: a estética do estrondo e do lamento
McEwan analisa o dia em que o mundo teve o maior número de protestos de rua

Mario Sergio Conti

Com Sábado (Companhia das Letras, 336 págs.), o escritor Ian McEwan foi alçado pela crítica ao posto de melhor escritor britânico contemporâneo. Já os leitores, e não só os de língua inglesa, fizeram com que o romance freqüentasse durante meses as listas dos livros mais vendidos. A combinação, rara, entre o aplauso dos críticos e o sucesso comercial pode ser explicada pelo tema subjacente a Sábado, o terror. E também pela maneira como o escritor articula a sua resposta: conservadora no plano estético, perplexa no aspecto político, e celebratória da civilização, sobretudo no que diz respeito aos podres da ciência.

O romance se passa num único dia, o 15 de fevereiro de 2003, um sábado. Ele se filia, assim, a dois marcos do modernismo britânico, os romances Ulisses, de James Joyce, e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, publicados no início dos anos 20. Ambos os romances se valem de invenções formais (fluxo da consciência, discurso indireto livre, monólogo interior, pastiches, paródias) para captar as incongruências e a perplexidade de seus personagens centrais, Leopold Bloom e Clarissa Dalloway.

Em Sábado, o arcabouço literário é pré-modernista. O narrador, Henry Perowne, um neurocirurgião de Londres, raciocina de maneira concatenada. Por meio dele, Ian McEwan controla o romance, lhe confere uma dicção racional, analítica. Mais: num procedimento típico dos autores de best sellers, o livro serve de vulgarização de assuntos intrincados e díspares, caso da neurocirurgia, da música blues e até de um jogo de ricos, o squash. Mas é a narrativa convencional o elemento decisivo que fez do livro um grande sucesso de público, bem ao contrário de Ulisses e Mrs. Dalloway.

O 15 de fevereiro de 2003 não foi um dia qualquer. Foi nele que, em toda a história da humanidade, houve o maior número de manifestantes políticos na rua, em todo o planeta. O movimento se concentrou nas grandes cidades européias. De Londres a Roma, passando por Paris e Madri, milhões de pessoas protestaram contra a ameaça da invasão do Iraque pela coalizão anglo-americana. Esse formidável movimento, que inaugura a era das manifestações globais, o que em si foi um triunfo da política, com as forças da esquerda à frente, fracassou rotundamente. Ele não só não deteve a invasão como se esvaneceu nas semanas e meses seguintes sem deixar traço.

Aquele sábado começou cedo para Henry Perowne. É ainda noite quando o neurocirurgião, de folga mas insone, contempla da janela de seu quarto um cometa que se move pelo céu londrino. A visão é ilusória. Na verdade, é um avião em chamas que se precipita em direção ao aeroporto de Heathrow. A imagem remete Perowne imediatamente aos atentados de 11 de setembro de 2001, às ameaças bárbaras e irracionais que desabam dos céus. A expectativa não se cumpre, não se trata de um atentado terrorista.

O 11 de Setembro, a eminência de ataques terroristas nas metrópoles européias (que vem a se consumar em Madri e em Londres mesmo) e a agressão imperial no Iraque servem de moldura histórica para Sábado. Como sombras aterrorizantes num dia de folga, esses sinais dos novos tempos de quando em quando turvam os pensamentos de Perowne.

As preocupações do neurocirurgião, no entanto, são outras. Elas dizem respeito ao seu trabalho, à sua família, ao seu corpo. Profissionalmente, ele é um cirurgião exímio, que adora o trabalho, escuta Bach enquanto opera, e que o enriqueceu a ponto de ter um amplo apartamento e uma Mercedes-Benz. Familiarmente, ele também é modelar: ama e é amado pela esposa, uma advogada capaz, e pelo filho, um músico de blues, e pela filha, uma poeta que vive em Paris, às vésperas de ter seu primeiro livro publicado por uma editora de prestígio. Perowne é um homem saudável, que corre a maratona de Londres e joga squash.

Essa vida harmônica será comemorada à noite, num jantar em família, da qual participarão a filha que mora em Paris e o filho que toca blues. A vida e o jantar são abalados por um incidente banal. Uma trombada, um risco na Mercedes, um espelho retrovisor arrancado de uma BMW, levam o cirurgião a se deparar com Baxter. O jovem marginal e dois comparsas tentam um seqüestro-relâmpago: levá-lo a um caixa automático para sacar dinheiro do cartão bancário.

Perowne se safa do meliante ao diagnosticá-lo, quando é agredido, como vítima da doença de Huntigton. Baxter é alguém que não se guia pela razão, é um doente, um marginal, o Outro. À noite, no jantar, a família se safa novamente do bandido porque a filha poeta declama um dos poemas mais conhecidos - e belos - poemas da língua inglesa, Praia de Dover, de Matthew Arnold (é uma pena que a edição brasileira não o transcreva no fim do volume). O objetivo de McEwan é demonstrar que as conquistas e maravilhas da civilização ocidental (a ciência, a poesia, a música de Bach e dos blues, a família) servem de defesa, de muralhas, contra os Baxters, os Bin Ladens, os Saddans. É um ponto de vista pertinente. É ele que garante a harmonia interna de Sábado. É ele, igualmente, que dá ao romance o seu caráter de peça ideológica, já que Baxter, Osama bin Laden e Saddam Hussein são também produto da ciência, da arte, do estilo de vida e da opulência material dos abastados do Ocidente.

O pendor ideológico de Sábado está longe de ser panfletário. O tom celebratório se mescla, aqui e ali, com subtons elegíacos, com o lamento de uma situação que parece estar chegando ao fim. É uma situação específica, idealizada, idílica: aquela que se rege pela alta cultura. Não há, no romance, referências à massificação, à indústria cultural, às vulgaridades da televisão, da música de consumo, da pseudociência dos manuais de auto-ajuda, da moda, de Hollywood, da existência alienada que é a tônica do Ocidente.

Nesse universo da (in)cultura, a reação ao 11 de Setembro e ao terror é bem outra. É uma reação que não pode ser artística mas que tangencia o estético. O exemplo mais gritante é o filme V de Vingança, de James McTeigue. É um filme de grande estúdio hollywoodiano, um arrasa-quarteirão que tem como base uma história em quadrinhos e mimetiza procedimentos usados por George Orwell em 1984: destacar aspectos totalitários do presente, radicalizá-los ao máximo e generalizá-los num futuro próximo. V, desse modo, transforma a Londres algo pacata de McEwan numa ditadura fascista.

Contra essa ditadura se insurge o personagem V, o vingador à lá Conde de Monte Cristo, o Fantasma da Ópera que responsabiliza os poderosos pela destruição de sua família e pelas suas determinações físicas. V é, para resumir, um terrorista. E que terrorista. É ao som de Tchaikovsky que ele explode, na frente de uma multidão embasbacada e reverente, um dos maiores símbolos da democracia ocidental, o Parlamento inglês. Ao contrário da lamúria de Sábado, V deseja e comemora a explosão do modo de vida do Ocidente. Por isso o filme leva milhões de espectadores ao cinema.


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Sobre o autor:

MCEWAN, IAN
Nascido em 1948, Ian McEwan é considerado um dos grandes nomes da nova geração de autores britânicos. Sua produção vai de contos e romances a roteiros cinematográficos. Ele escreveu ''O inocente'' (adaptado para o cinema com direção do inglês John Schlesinger e estrelado por Anthony Hopkins e Isabella Rosselini), ''Cães negros'', ''O jardim de cimento'', ''Ao deus-dará'', ''A criança no tempo'', ''O sonhador'', ''Primeiro amor'', ''Último sacramento & Entre lençóis'' e ''Amor para sempre''.


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