Obras de Greil Marcus, A Última Transmissão , e Lester Bangs, Reações Psicóticas , mostram renovado interesse no jornalismo pop
Jotabê Medeiros
Alguns críticos de rock são apenas fanzineiros esforçados, babam no microfone do artista muito mais do que revelam sobre ele. Outros, na tentativa de descrever uma cena, um show, de entrevistar alguém ou de decifrar um fenômeno musical, acabam fazendo emergir os intestinos de toda sua época. No mundo anglo-saxão, é perfeitamente possível decifrar alguns expoentes desse segundo tipo de cronista pop: Tony Parsons, Nick Kent, Simon Reynolds, Greil Marcus, 99204Lester Bangs.
Subitamente, descobriram por aqui o filão da crônica pop, especialmente aquela de língua inglesa. Até então, estávamos nas mãos de Nick Hornby. Em setembro, a editora Barracuda lançou
Disparos no Front da Cultura Pop (360 págs.), de
Tony Parsons . Em agosto, Simon Reynolds veio para uma conferência no festival Campari Rock. Agora, dois outros artesãos do pop chegam às livrarias: o historiador e jornalista
Greil Marcus e o franco-atirador
Lester Bangs (1949-1982).
Morto de overdose em 30 de abril de 1982, o norte-americano Lester Bangs tem uma seleção dos seus artigos sobre rock extraída do livro
Psychotic Reactions and Carburetor Dung (organizado por Greil Marcus) e editada em formato pocket book pela Conrad Editora este mês sob o título
Reações Psicóticas (136 págs.). A máxima filosófica de Lester Bangs está resumida em uma frase: "O maior pecado de qualquer artista é o desprezo pelo público."
O livro original Reações Psicóticas tem o subtítulo "O trabalho de um lendário crítico: rock’n’roll como literatura e literatura como rock’n’roll". Metáforas extravagantes e um estilo que Burroughs definiria como "escrita automática", feito de jorros verbais, compõem a arte de Bangs, publicada em revistas como Creem e em jornais como Los Angeles Times e Village Voice, nos anos 1970.
Bangs se refere a David Bowie como "uma drag afro-anglicana", explica por que não consegue chorar o assassinato de John Lennon e como enxergou, debaixo da luz de um holofote, a cortante vulnerabilidade de Iggy Pop. Para o inglês Tony Parsons, Lester Bangs era apenas "um traseiro gordo com um bigode", conforme definiu em entrevista ao Estado. Há de fato, muita bazófia, pose e equívoco nas avaliações de Bangs. Mas o jornalista era também um visionário. Escrevendo sobre o fenômeno da banda alemã Kraftwerk, nos anos 70, quando computadores, samples e Pro-Tools eram apenas ficção científica, vê-se até onde ia sua perspicácia: "Na música do Kraftwerk, e de bandas como eles, presentes e por vir, vemos finalmente a culminação perfeita dessa revolução, em que as máquinas não apenas superam e tocam os humanos, mas os absorvem, até que o cientista e sua tecnologia, tendo desenvolvido uma consciência superior própria, se tornam um só."
O estilo de Bangs é aquele que simula uma fusão do autor com seu texto, como nos mandamentos básicos do gonzo journalism inventado por Hunter Thompson (1937-2005). Há momentos memoráveis em Reações Psicóticas, como a entrevista com Lou Reed, para a qual ele se preparou tomando uísque pelo gargalo e mascando alguns valiums como se fossem jujubas.
Houve um tempo em que Lou Reed viveu com um travesti, Rachel. A descrição de Bangs do momento em que encontra Lou e Rachel é de trincar o maxilar de tanto rir. "Era grotesco. Não apenas grotesco, mas abjeto, como algo que poderia haver entrado rastejando furtivamente quando Lou abriu a porta de casa para pegar o leite e os jornais da manhã e simplesmente acabou ficando."
O confronto com Lou Reed, na narração de Bangs, não é só uma picuinha pop, é teatro puro, é arte da mais alta cepa. Ambos se agridem durante duas horas, Lou forçando o entrevistador a ouvir Herbie Hancock e George Benson, o entrevistador esfregando na cara do artista (que também é seu herói) o fato de que ele estaria decadente, "uma imitação ruim de Tennessee Williams".
Às vezes, os exageros bukowskianos de Bangs são um trunfo. Noutras, ele lembra um garoto de 14 anos escrevendo, deixando que os hormônios falem mais alto que a razão. Quando não está se exibindo, ele mostra alma de lapidador. Quantos examinaram a estratégia de vaudeville do Jethro Tull com tanta eficiência?
Pulemos de Lester Bangs para Greil Marcus, historiador, crítico e jornalista americano. Entre ambos, há uma distância abissal de estilo, mas não de intenção. De Marcus, a Conrad prepara o lançamento, este mês, de
A Última Transmissão , artigos escritos entre 1969 1987 em publicações como Rolling Stone, New West, Califórnia, Village Voice e Artforum.
Marcus é assustadoramente erudito, criterioso e responsável. Mas não careta. "Música é uma coisa fundamentalmente ambígua, o que explica por que o seu poder de criar símbolos (em oposição a impor símbolos) é tão grande", ele escreve. "A música pode fazer as letras mais estúpidas soarem profundas, mas no fim das contas ela não pode carregar uma mensagem específica: seu poder de criar símbolos é o poder de criar o símbolo ambíguo. Se uma peça é musicalmente viva, se ela tem um ímpeto próprio, ela vai rebater, vai questionar quaisquer imagens explícitas ou símbolos que supostamente carrega."
Marcus é menos afetado, tem menos heróis do que Bangs. Sua missão é questionar. "‘Nova banda punk soa já como um oxímoro. Depois de mais de dez anos, o punk virou uma velha história - uma coleção de idéias preconcebidas, atitudes emprestadas, gestos batidos. Se você diz ‘não’ muitas vezes, está dizendo ‘sim’", afirma.
Greil Marcus abriu o peito do punk rock e comparou seu interior com as vísceras do movimento dadaísta que tomou Zurique, nos anos 10, duas explosões culturais fixadas na negação e movidas a niilismo e táticas de choque. The Clash, Gang of Four, John Cale, a disco music: as análises de Marcus são profundas e às vezes impiedosas porque são irrefutáveis. Ex-editor da Rolling Stone e da Creem, ele escreveu em 1975 um livro,
Mistery Train , que lançou novos parâmetros para a crítica musical. Examina os totens do rock à luz de outros arquétipos culturais da América, como a literatura, as artes visuais, a política, a imagérie da Última Fronteira.