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Peste Das Almas, A

Historias De Fanatismo

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Autor: LOPES, MARCOS ANTONIO
Autor: MARTINS, MARCOS LOBATO
Editora: EDITORA FGV
Assunto: HISTÓRIA

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Ficha Técnica Saiu na ImprensaSobre o Autor

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ISBN-13: 
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2006

116 pág.
Sinopse

Do fundamentalismo islâmico ao revival religioso nos EUA, de Hitler ao Mao Tsé Tung, da Irlanda do Norte à África, o fanatismo tem muitas faces e espalha-se por todo o planeta. Potencializada pela globalização, a explosiva mistura de religião e política produz e continuará produzindo episódios de intolerância e violência. Este livro faz uma viagem através da história para entender esse fenômeno, suas causas e efeitos, propondo a retomada dos valores iluministas da razão e da tolerância para derrotar a peste das almas. O livro traz os seguintes temas - Uma paixão à prova do tempo; Contra o fanatismo; A chama sagrada da violência; Seitas da nova era; Linhagens orientais e fundamentalismo islâmico; O futuro do fanatismo.
Saiu na Imprensa:

Valor Econômico  /   Data: 1/7/2006
Associações perigosas
José Castello

Desde os atentados de 11 de setembro, fanatismo e islamismo são, no Ocidente, palavras que se equivalem. Tornaram-se, quase, sinônimos. Esquece-se, com isso, que o fanatismo vem de muito longe, e que não surgiu no Islã, mas no mundo ocidental, cristão. Este é o ponto de partida de "A Peste das Almas - Histórias de Fanatismo", ensaio de Marcos Antônio Lopes e Marcos Lobato Martins (editora da Fundação Getúlio Vargas, 116 páginas). Um livro que enfrenta preconceitos e que faz da história um instrumento lúcido para desvendar nosso complexo presente.

A história do fanatismo, afirmam os autores, é, na verdade, a história de uma perigosa associação - que não se restringe ao islamismo - entre religião e política. "A chama sagrada da violência arde em várias culturas, de Leste a Oeste, sob diferentes regimes", eles lembram. Ambos são doutores em História, Lopes professor na Universidade Estadual de Londrina, Paraná, e Martins, na Faculdade Pedro Leopoldo, Minas.

Em seu livro, oferecem não só lembranças de dolorosos fatos recentes, mas uma história do fanatismo no mundo ao longo dos últimos 500 anos.

Para Lopes e Martins, está em curso, hoje, não só uma radicalização do islamismo, mas uma tendência mais geral, e cada vez mais perigosa, de "reencantamento do mundo". Esse retorno a um mundo encantado e mágico, que parecia restrito, na era moderna, aos contos de fadas e às fantasias de Hollywood, se expressa no crescimento do fundamentalismo, que não é outra coisa senão o fundamento do fanatismo religioso. Já no século XVIII, o filósofo escocês David Hume afirmava que o fanatismo religioso "é o princípio mais cego, obstinado e ingovernável capaz de atuar sobre a natureza humana". "Os fatos da história mostram a atualidade das idéias de Hume. Fanatismo que se transformou em um grande (e tenebroso) espetáculo de massas.

Uma tela clássica como "EI Quemadero", pintada por B. Picard em 1723, guardada hoje na Biblioteca Nacional de Madri e que serve de ilustração para "A Peste das Almas", resume a transformação do fanatismo em espetáculo. O quadro mostra as execuções, em pleno Terreiro do Paço, no coração de Lisboa, de supostos hereges. A tela de Picard, obscura e tenebrosa, capta a essência do fanatismo. "Aquilo que minha seita ensina é obscuro, bem o sei, diz um fanático", anota Voltaire em seu "Dicionário filosófico", publicado no século XIX e um dos pilares do lluminismo. "Mas é em virtude dessa obscuridade que devemos acreditar na seita." Homens de letras como Pierre Bayle, Jonathan Swift e François-Marie Voltaire, personagens decisivos para o Século das Luzes, o XVIII, já expressavam seu horror.

Hoje, ao obscurantismo (exibido pelos crentes como um valor positivo) se associa um segundo elemento: o proselitismo, isto é, o exercício de conversão. "O espírito do proselitismo, ou seja, o impulso irrefreável em promover conversões, aparece como uma espécie de doença epidêmica na história", afirmam os dois historiadores. Também no cristianismo, o proselitismo e as interpretações fechadas se disseminam. As metáforas religiosas usadas pelo presidente Bush para justificar sua política externa e a cruzada do papa Bento XVI contra o que ele chama de "relativismo", em defesa de valores fixos e imutáveis, são sinais, preocupantes, de um recrudescimento do fundamentalismo cristão.

O fanatismo cristão, Lopes e Martins recordam, vem de muito longe. Ele se expressou nas Cruzadas, na Inquisição, nas guerras religiosas e nas caças às bruxas. Já no século XVIII, os filósofos do lluminismo, com sua aposta firme na razão, se indignavam. "Ouvi dizer que na Espanha e em Portugal há uns daroeses que não duvidam e mandam queimar um homem como se fosse palha", escreveu, surpreso, o barão de Montesquieu. Outro grande filósofo, Michel de Montaigne, apontou o que estava em jogo: "Mandar queimar vivo um homem apoiado em simples conjeturas é valorizá-las exageradamente".

Com a expansão do protestantismo e da doutrina de ítalo Calvino, lembram ainda os autores, a idéia de tolerância religiosa era coisa de uns poucos humanistas. A partir do século XIX, com o aparecimento de um "renascimento religioso", a situação se agravou ainda mais. Na França, o catolicismo ressurgiu em tomo da figura de Santa Bernadete. Nos Estados Unidos, uma expressão desse renascimento foi a criação da Igreja Mórmon, eles relembram. Na Irlanda do Norte, surge a Grande Renovação, movimento que pregava uma reforma moral, com a eliminação da embriaguez e do profano.

Todos esses grupos, os autores recordam, se pautavam pela "aversão aos valores modernos, ênfase na família e na virgindade, obsessão com a justificativa bíblica e preferência pelos textos do Antigo Testamento". Não é parecido com muitas pregações a que assistimos hoje na 'IV? No início do século XIX, eles lembram ainda, o terlllo fundamentalismo não se referia ao islamismo, mas às novas seitas cristãs. "Nos anos 1920, chamava-se de fundamentalismo a corrente teológica de origem protestante, desenvolvida nos Estados Unidos, que admitia apenas o sentido literal das Escrituras". O conceito de fundamentalismo só passou a ser associado ao islamismo depois da vitória dos aiatolás iranianos sobre o xá Reza Pahlevi, em 1979. A partir daí, "o Ocidente praticamente fechou os olhos para seus próprios fundamentalistas e fanáticos religiosos, para enxergar somente o fundamentalismo exótico que vinha do Oriente Médio", eles escrevem.

E, na verdade, seja no Oriente, seja no Ocidente, o que é o fundamentalismo? "O fundamentalismo pode ser entendido como a rejeição do relativismo na interpretação dos textos sagrados", Lopes e Martins reafirmam. Em lugar das interpretações pluralistas e sábias, se fortalecem posições rígidas e avessas à diversidade. Os autores de "A Peste das Almas" recordam que, nos Estados Unidos em particular, "prosperam seitas cristãs irracionais e excêntricas". Citam o exemplo da Igreja do Manuseio da Cobra, no Tennessee, que congrega cristãos puritanos, praticantes do manuseio de cascavéis como teste de pureza. E, ainda, a Igreja Americana Nativa, fundada em 1918, que encoraja o uso do peito asteca para fortalecer, em seus seguidores, "sua capacidade de atração".

Todas essas seitas pregam em nome de uma verdade pura, que se opõe às dificuldades do mundo moderno, e que se esconde como um tesouro - em algum lugar longínquo do passado. "Os movimentos religiosos fundamentalistas realizam a recuperação seletiva de doutrinas, crenças e práticas de um passado tido como sagrado", eles descrevem. Em resumo: esses movimentos religiosos "operam, paradoxalmente, a modernização da tradição".

Atribuir o fanatismo só ao mundo islâmico, os autores insistem, é disseminar a "islamofobia". O perigo está nos dois lados, e não só em um. "De um lado, na Europa e nos Estados Unidos verifica-se uma crescente polarização antimuçulmana, avança a islamofobia", descrevem. "De outro lado, nas ruas de grandes cidades muçulmanas, protestos violentos contra representações diplomáticas e sedes de ONGs européias, mais uma vez incitam o ódio contra o ocidente". O importante não é apontar culpados, mas, sim, "encontrar as raízes históricas seculares das concepções fanáticas", afirmam.

Este fanatismo que não escolhe religião ou continente é, para Lopes e Martins, a verdadeira "peste das almas". Como combatê-la? Os autores sugerem um antigo remédio, proposto ainda nos anos 1950 por Theodor Adorno e que muitos, hoje, por pessimismo ou fraqueza, consideram superado: o exercício contínuo da paciência e da tolerância. E, sobretudo, a aposta obstinada na força da razão.
Sobre o autor:

LOPES, MARCOS ANTONIO
O Prof. Marcos Antônio Lopes é doutor em História pela USP e professor do Depto. de Ciências Sociais da UEL. O autor publicou também 'A imagem da realeza simbolismo monárquico no Antigo Regime,' Editora Ática-1994; 'O Absolutismo política e sociedade na Época Moderna', 1996, Editora Brasiliense; 'O Político na modernidade moral e a virtude nos espelhos de príncipes da Idade Clássica', 1997, Editora Loyola; 'Para ler os clássicos do pensamento político um guia historiográfico', Editora FGV, 2003, entre outros.


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