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ISBN: ISBN-13: Livro em português
Brochura
1ª Edição
- 2006
184 pág.
Uma babel literária habitada virtual ou fisicamente por contos, com textos híbridos que juntos podem ser classificados como um romance desmontável em chamas. O livro é um compêndio que prima pela ousadia. Literatura ao vivo e em cores, estética do inusitado, simulacro que reflete o caos urbano das grandes cidades, metáfora para o impasse literário. Os sonhos são entrecortados pelo tom rebelde e propositivo do autor. O leitor, quando dá por si, já se encontra imerso em algumas das 16 histórias que o narrador, seja ele isento ou não, em vez de conduzir, entrega o leitor à própria sorte. No livro, a relação de autoridade do autor sobre o leitor é quebrada pela interatividade surgida ao longo do trânsito livre de palavras. O vasto repertório dos discursos desvela uma erudição despretenciosa, que alcança uma pluralidade de vozes que ecoam sem pedir licença. Misturam-se aí escritores, leitores, narradores. Todos personagens de um imenso caldeirão, pedindo passagem para adentrar no mundo nefasto de palavras de Terron.
Saiu na Imprensa:
O Estado de S. Paulo /
Data: 5/11/2006 Carta de amor e ódio à literatura
Joca Reiners Terron convida o leitor, em Sonho Interrompido por Guilhotina , a uma viagem cega e com destino incerto
Ubiratan Brasil
Quando comandava a própria editora, a Ciência do Acidente, Joca Reiners Terron criava produtos que ninguém arriscava fazer. Na função de projetista gráfico, elaborou capas de livros ao mesmo tempo simples na construção, mas complexas no significado. E, como autor e poeta, o prosador urbano Terron elegeu o absurdo como tema. Foi assim em Curva de Rio Sujo (Planeta), histórias passadas no interior do Brasil, especialmente em cenários do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, e agora, com Sonho Interrompido por Guilhotina (Casa da Palavra), 16 histórias em que o narrador, em vez de conduzir, entrega o leitor à própria sorte.
Aos 38 anos e com o perfil de um cantor de rock, Terron entrega-se a uma curiosa tarefa: ciente do incômodo peso que a palavra pode assumir, ele a arremessa contra o leitor, mas com tal habilidade que este, já hipnotizado, aceita naturalmente a descrição de fatos que, talvez em uma situação distinta, julgasse escatológica ou profana. Afinal, como não sentir uma ponta de culpa por admirar o conto O Enlace, em que uma noiva, durante a festa de casamento, sente-se atraída por um convidado - não um homem qualquer, mas o filho de Deus, aquele que, com apenas um toque, transforma a água em vinho e salva a cerimônia?
Na verdade, o sentimento de culpa rodeia a leitura de Sonho Interrompido por Guilhotina, não a culpa condenatória, mas sim a redentora. É o que torna nada surpreendente a alusão mais direta aos escritores que Terron considera mestres, nomes como Valêncio Xavier, José Agrippino de Paula, Glauco Mattoso e Raduan Nassar, que aparecem como personagens de suas histórias - mais que uma homenagem, uma proposta aberta de diálogo entre escritos que se assemelham.
E é curioso que, com tantas visões à disposição, o livro inicie justamente com uma definição do autor sobre o leitor ideal. Para ele, seria o cego. “Melhor dito, é o cego parado na esquina mais movimentada de uma grande cidade, à espera de quem o ajude a atravessar a rua.” O escritor, portanto, seria aquele afortunado em encontrar alguém nessa situação e, ao contrário de um escoteiro, ele subitamente abandona o cego no meio da travessia. Sem escolhas, o leitor é obrigado a terminar o trajeto por sua conta e risco.
Terron é extremamente eficaz no controle das palavras, sabendo realizar o que quer escrever, além de lançar certos preceitos literários que julga essenciais. Em Algo Embaraçoso Deixado para trás, por exemplo, ele é direto ao afirmar: “Para a montanha de poetas parnasianos que existem em pleno terceiro milênio insistir numa linguagem floreada e asséptica, deve haver sua contraparte, a descarga de sintaxe em que palavras proibidas bóiem.” Com isso, até o absurdo é visto com verossimilhança.
É preciso lembrar, porém, que as histórias de Terron não vêm destituídas de lirismo - o que as torna diferentes, no entanto, é a sensação de eterno sufoco, de grito parado no ar. A Flor de Nenhum Buquê, nesse sentido, é exemplar. Vindo do interior, rapaz prepara a recepção da amada, chamada Esperança, sonhando em ofertar-lhe flores diversas, tantas que encheriam um táxi, quem sabe um ônibus. Quando a moça chega, porém, ele não consegue entregar-lhe uma rosa sequer, graças a uma prosaica greve de coveiros. O leitor é surpreendido quando o casal ouve o estampido de uma bala e descobre, horrorizado, um corpo boiando na água. Desfigurada pelo tiro, a face do cadáver sugere uma rosa cálida: “As pétalas sanguinolentas cheirando a pólvora pertenciam à flor que em nossa entrega a cidade e eu oferecíamos à Esperança.”
Mas é em Monumento ao Escritor Desconhecido que Joca Reiners Terron confirma ser o livro uma carta de amor e ódio à literatura. Durante uma viagem para o interior, escritor carrega uma cordinha de descarga, na qual acredita levar presa a realidade. “É imprescindível para um escritor ter absoluto controle sobre a realidade, saibam vocês, já que não temos sobre nossas mulheres.”
No caminho, conhece Nassar Cassis Nassar, poeta louco que inventa nomes para coisas e lugares. Ele surge para, ao final da história, ser estrangulado pelo próprio escritor. “Ele não esboçou reação alguma (...) As palavras parecem ter-lhe faltado na hora.”
Novamente, as palavras, que surpreendem tanto quando proferidas como quando omitidas. Com elas, Terron destrói e reconstrói o mundo.
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