Martha Medeiros
transforma em contos correspondências de situações-limite
Fabrício Carpinejar
Apesar de uma única voz, a carta não deixa de ser um diálogo. Um diálogo recalcado. Um diálogo reprimido. Um diálogo potencializado. O remetente tenta pensar e sentir pelo destinatário, acolhendo dúvidas, hesitações e incertezas do outro de um modo premeditado. A carta é, na verdade, o fim do monólogo, porque quem escreve está cansado de falar sozinho.
Martha Medeiros incursiona novamente na ficção, na seqüência do romance “Divã” (2002) e da prosa com jeito de peça “Selma e Sinatra” (2005). Reconhecida como poeta e cronista, ela se sente mais confortável na primeira pessoa. Ao invés de visitar os personagens, os personagens a visitam. Ela parte do depoimento para conquistar adesão, cumplicidade e verossimilhança. Sua prosa funciona à base de afetividade, do desabafo como condutor das contradições da vida moderna.
Seu livro "Tudo que queria te dizer" propõe uma série de correspondências como contos, enfeixados pelo sentimento de fim de jogo. São correspondências de situações-limite. Mulher deixando o marido e os filhos para morar com o amante, filha desabafando aos pais que virou atriz e não seguiu a carreira que eles gostariam, mãe relatando para avó a ausência de convidados na festa de aniversário da filha, esposa escrevendo ao marido que finalmente está apaixonada por ele. Não falta, portanto, ofício de um de missionário.
As correspondências violadas estão cobertas de um sentimento de vingança ou de perdão, num jogo de claro-escuro, de sair bem de uma história e ainda acer tar as contas. Impregnadas de uma urgência, de um não mais posso adiar e esperar para contar.
Mesmo como tom decisivo, resta uma imensa vulnerabilidade dos missivistas. Ora fracos, ora piedosos, ora irascíveis, mas sempre dependentes. Eles estão resolvendo, porém resolver não basta, precisam da legitimidade do interlocutor e comunicar do melhor jeito possível. Ainda que possuídos pelo orgulho da dor, não abafam a humildade de se partilhar pela última vez. Esse paradoxo é que move os subterrâneos dos textos.
A tese é de que cada carta seja um novo enredo e abertura de uma diferente perspectiva, numa estrutura complexa de insinuações e provocações. A narrativa curta encaixa-se perfeitamente quando supera a crítica aos costumes e fragmenta-se no nervosismo do suspense. Um exemplo é o testamento ao delegado Adelino redigido pelo padre Josias, entregue depois de sua morte e que rompe o sagrado sigilo do confessionário. Nele, a esposa do policial é pivô de um assassinato ocorrido na cidade e nunca descoberto.
Martha acredita se valer do olhar de ambos os sexos para contextualizar o comportamento familiar e a dificuldade de encontrar um ponto de equilíbrio e satisfação individual. Isso em meio a um clima de cobrança de ser feliz no amor e no trabalho. Mas das 34 cartas, 25 são de mulheres. A maioria acaba pesando no timbre e na construção do mundo, com uma ironia inteligente, uma franqueza maternal e um tom conciliatório. Não somente encontrar um amor, mas ser justo com o destino dele (quer algo mais feminino?). A forma de falar é sutil e muito parecida, mesmo quando o remetente é um homem.
Nesse ponto, talvez Martha não tenha cumprido sua ambição. É sempre igual voz reagindo a experiências singulares. Ou o livro cumpriu por ela. Pois a última carta, uma das duas sem destinatário, é de uma mulher que segue a receita do terapeuta e “escreve tudo o que passa em sua cabeça”. Esse “tudo”, com a localização estratégica da correspondência encerrando a obra, pode ser o novelo inteiro das cartas. Essa afirmação fecha com o título:"Tudo que queria te dizer". Sem assinar, a mulher desabafa: “a gente precisa estar sempre pensando nelas antes de pensar em nós, crianças, filhos, sobrinhos, bebês, coleguinhas, quanta exigência, quanta demanda, e o medo de que eles morram? ” E diz: “Ninguém tem cura, e você também não, ninguém, somos todos um bando de artistas se fingindo de civilizados, vai negar?”
Significativo é que se trata da missiva mais plural, porta-voz das crises levantadas ao longo do volume. Se a última carta é de quem escreveu as anteriores, assumindo inusitadas percepções e cruzamentos, personas e traumas, o escopo feminino está mais do que justificado, além de ser surpreendente, elevando a ficção para um patamar imbatível de coesa unidade.