Opinião do Leitor:
Alexandre Soares / Data: 23/10/2000
Conceito do leitor:
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A Volta do Poeta
Excelente coletânea de poemas que marca a volta do poeta Frederico Barbosa. Segundo as palavras do grande crítico Antonio Candido, estampadas na quarta-capa do livro:
"Neste livro há coragem de falar do eu e do mundo, mas de maneira que eles apareçam como invenções, não reproduções. Frederico Barbosa é capaz de reinventar, dentro de parâmetros que deixam para trás muitas convenções e lhe permitem fazer algo novo. É o caso do modo de tratar a cidade, que neste livro é não apenas presença concreta, mas pressuposto, como segunda natureza no mundo contemporâneo. É notável, por exemplo, a originalidade com que mostra, ou com que incrusta na filigrana dos versos, uma São Paulo toda sua, com novos cursos d’água criados como fantasmagoria pelas doenças da urbanização. Mas esta São Paulo é também presença latente em cenas e emoções. De tal modo que a cidade cantada pelos modernistas é renovada como dura paisagem, enquadrando uma experiência pessoal crispada, como convém a este tempo calamitoso. Do mesmo modo, os estados da sensibilidade e da inteligência são submetidos a uma espécie de endurecimento, que lhes dá, por um lado, certo toque de áspero inconformismo; por outro, os tira do estado potencial de confidência para torná-los objetos poéticos, que valem por si, tornando-os bens de todos. Isso é devido em parte ao certeiro golpe de vista sobre as coisas e à notação sintética dos modos de ser, ambos reduzidos ao essencial. Frederico Barbosa é capaz de ver o mundo e a si mesmo num relance preciso; e de representar este relance com laconismo sem concessões, produzindo o impacto que se espera dos bons poetas. Daí a faculdade de instaurar, a que me referi, graças à qual ser e mundo se transformam em realidades poéticas que os transcendem. Deixando de lado realizações mais ambiciosas, veja-se como exemplo esse flash que é o perfeito poema "Jeans". A sua descarnada singeleza provém das qualidades que acabo de sugerir. Elas permitem transformar a sensação em emoção e esta em objeto poético, que já não é mais a moça que está na sua origem e serve para demonstrar a força desse poeta mergulhado na "cidade tentacular". A sua modernidade se mostra não apenas nessas breves transfigurações do quotidiano, mas na presença dos livros, das alusões eruditas, das citações, isto é, do denso mundo da cultura que lhe servem de estímulo e constitui, também, uma segunda natureza. Por estas e outras, este terceiro livro mostra que o lugar de Frederico Barbosa é entre os verdadeiros poetas da sua geração."
Veja-se como exemplo o belo poema MEMÓRIA SE:
A mais íntima memória se desdobra cega e surda:
A presença tátil de suas dobras incrustadas nas marcas linhas das minhas mãos.
O gosto redondo do seu corpo na retina língua do meu gesto ou rosto.
E seu perfume rio riso colorido escorrendo sobre o corpo sopro e calor.
Memória se deseja. O resto, se ouça ou veja.
Por essas e outras é preciso ler Contracorrente!
ALEXANDRE SOARES
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